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"Após 54 dias internado com Covid-19 e um mês em coma, meu bebê se curou"

A família completa em casa: a mãe Viviane, o pai Wagner, o cãozinho e o bebê Dom - Arquivo Pessoal
A família completa em casa: a mãe Viviane, o pai Wagner, o cãozinho e o bebê Dom Imagem: Arquivo Pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

31/05/2020 04h00

Com apenas três meses de vida, o bebê Dom Monteiro de Andrade, hoje com cinco meses, foi contaminado com o novo coronavírus. Associada a uma infecção bacteriana no pulmão, o caso do menino era grave. Dom passou 54 dias internado, sendo que mais de um mês esteve em coma induzido e com ventilação mecânica.

No depoimento abaixo, a mãe da criança, a economista Viviane Monteiro, 32, conta como ela e o marido, o professor Wagner Andrade, 34, viveram dias de trevas com a internação do filho — e como a cura dele trouxe alegria e esperança:

"Depois de oito anos de casados e 18 juntos, minha família e a do Wagner viviam pedindo pelo primeiro neto e sobrinho. Juntando a vontade deles à nossa de ser pais e ao tempo de casamento, eu e meu marido nos planejamos e eu engravidei no início de 2019. A gestação foi tranquila e no dia 14 de dezembro o Dom nasceu.

Nós tivemos todos os cuidados de ficar em casa até ele completar dois meses e tomar as principais vacinas. Em março — quando ele já estava com três meses — e com o aumento do número de casos de coronavírus no Brasil, nós redobramos ainda mais a atenção. Tínhamos consciência de que o Dom estava num período de criar imunidade.

Corrida ao pronto-socorro

Dom 1 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
O bebê Dom durante sua longa internação
Imagem: Arquivo Pessoal

A gente evitava sair de casa e só ia visitar os parentes mais próximos. Eles só pegavam o Dom depois de passar álcool em gel e não o beijavam. Nós só nos relacionávamos pessoalmente com pessoas que estavam bem de saúde e sem nenhum sintoma. Mesmo assim, o Dom acabou contraindo o vírus em uma dessas visitas.

No dia 29 de março, num domingo à noite, eu notei que meu filho começou a respirar de um jeito diferente, mais ofegante. Gravei um vídeo e mandei para uma amiga que é médica, pedindo a opinião dela. Ela me falou para ir correndo para o hospital que algo sério estava acontecendo com ele.

Eu e meu marido fomos para o pronto-socorro. Chegando lá, o número de acompanhantes estava limitado a uma pessoa para evitar aglomerações. Eu entrei com o Dom e o Wagner ficou no carro. As médicas o examinaram e disseram que ele estava com os sinais vitais fracos e perdendo a força. Elas deram soro, colocaram oxigênio e ele foi submetido a vários exames.

A princípio, suspeita de Covid-19 foi descartada

Dom 2 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Com os pais, no hospital
Imagem: Arquivo Pessoal

Foi constatado que ele estava com uma infecção bacteriana no pulmão direito. Dom teve uma pneumonia que causou um derrame pleural. Ele ficou com dois terços do pulmão direito comprometidos. Eu fiquei em prantos, chorava e passava todas as informações por mensagem para o meu marido.

Num primeiro momento, a suspeita de ser coronavírus estava descartada. Naquela época, ainda havia a discussão de que bebês e crianças eram assintomáticos e de que o vírus não se manifestava de forma grave neles.

Na madrugada do dia 30, o Dom foi transferido para um outro hospital onde permaneceu por 48 horas. Lá, a equipe disse que iria fazer uma drenagem no pulmão e intubá-lo. Perguntei: 'Mas precisa ser assim tão rápido?' O médico disse: 'Sim, ou ele vai morrer'.

O diagnóstico definitivo: coronavírus

Eles fizeram o procedimento. Dois dias depois, o Dom foi transferido para o Hospital Pró-Cardíaco. Segundo o protocolo hospitalar, todo paciente com problema respiratório tinha que fazer o teste para a Covid-19.

O Dom fez o exame e eu e o Wagner tínhamos certeza que iria dar negativo. Mas, para o nosso desespero, dois dias depois recebemos o resultado e era positivo.

Foi um baque, ficamos muito assustados quando descobrimos que ele estava com o novo coronavírus.

É um vírus novo, os próprios médicos não sabem efetivamente como lidar com ele. Outro motivo de preocupação era a incerteza do tratamento, não existir um remédio, uma vacina com uma cura imediata. É um tipo de vírus em que o Dom poderia estar estável hoje e amanhã ir a óbito.

O desespero de ver um bebê frágil cheio de tubo

Dom 3 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Fiquei arrasada com o diagnóstico, mas a equipe do hospital deu todo o suporte. Eu e o Wagner fizemos acompanhamento com a psicóloga. Eu ficava angustiada com muito medo de perder meu filho.

Era desesperador ver um bebê de três meses, tão frágil, em cima de um berço cheio de tubo e tomando um monte de medicação. Com o resultado positivo do Dom, eu, meu marido e todas as pessoas que tiveram contato conosco nos últimos 14 dias tivemos que fazer o teste da Covid-19. Nós dois testamos negativo.

Eu e o Wagner nos revezávamos na UTI, cada dia um ficava com o Dom. Nós nos víamos somente nas trocas de turno, conversávamos por meia hora e depois um ficava no hospital e o outro ia embora.

Era um vazio ir para casa sem meu filho e meu marido.

E para piorar, por causa do isolamento social, eu não podia ter o abraço da minha mãe, do meu pai, dos meus irmãos. Era muito difícil e o jeito era ligar para eles, chorar de um lado e eles chorarem do outro. O apoio deles foi essencial.

O Dom ficou em coma induzido e com ventilação mecânica por 31 dias. Nesse período, o pulmão direito dele ficou comprometido em 70% — chegaram a cogitar uma cirurgia, mas depois ela foi descartada. Os médicos falavam que ela era um tourinho, porque mesmo sedado ele era muito forte.

Mobilização de carinho

Dom 4 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
O 'mesversário' foi celebrado no hospital
Imagem: Arquivo Pessoal

Durante as visitas, eu falava para ele o quanto o amava. Fazia carinho na cabeça dele e dizia que ele não podia ir embora, que a gente tinha muita coisa para viver juntos. Quando eu perguntava quem era o bebezinho da mamãe, ele não abria o olho, mas, às vezes, ele levantava a sobrancelha. Eu sinto que ele me ouvia.

O caso do Dom era grave porque, além do coronavírus, ele estava com o problema no pulmão. Segundo os médicos explicaram, o corona deixou o sistema imunológico dele mais fraco, mais vulnerável à essa infecção bacteriana, causando uma degradação ainda mais veloz.

Em vários momentos cheguei a pensar que ele poderia morrer, mas eu pedia a Deus misericórdia para curá-lo, para não tirá-lo de mim. A história do meu filho mobilizou muita gente, desde os médicos e toda equipe, que foram excepcionais nos cuidados com ele, até familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos. As pessoas, cada uma em sua religião, oravam pela recuperação dele e nos transmitiam muito amor.

Deus foi maravilhoso, ouviu nossas preces e curou meu bebê. Ao longo da internação, os médicos fizeram mais três testes do coronavírus e todos deram negativo. O pulmão dele apresentou uma melhora significativa e ele foi extubado. Quando tiraram os tubos e eu pude pegá-lo no colo, ele olhou fundo nos meus olhos como se dissesse: 'Finalmente eu estou aqui, mamãe'.

Quinto 'mesversário' foi no hospital

Dom 5 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
O esperado momento da alta
Imagem: Arquivo Pessoal

Nós passamos dois 'mesversários' do Dom no hospital. Ele estava intubado quando fez quatro meses — por isso, não pudemos comemorar. Mas no quinto ele estava melhor, e, com a permissão do hospital, nós compramos um bolinho, cantamos parabéns e celebramos a vida dele.

Após 54 dias internado, no último dia 22 de maio, Dom recebeu alta. A equipe do hospital fez uma linda festa de despedida. Fiquei supereufórica e feliz de poder voltar para casa com meu filho nos braços. Ele está 100% recuperado e saudável. Nós temos ficado em casa, sem contato com outras pessoas, e aproveitado esse tempo em família para brincar, interagir e curtir cada momento com ele.

O vírus é grave e sério

Apesar da superação, continuo com medo do vírus. Como eu e o Wagner não fomos contaminados, temo pela nossa saúde, dos nossos familiares e amigos.

Como mãe de um bebê que teve esse vírus, posso afirmar que ele é grave e sério. Faço um apelo para que as pessoas fiquem em casa, sigam todas as recomendações de higiene e de isolamento social para que ninguém passe pelo que eu passei. Foram dias de trevas na nossa vida. A cura do Dom foi um milagre de Deus e traz a esperança e alegria de que dias melhores virão."

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