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Ela criou tratamento estético para pele negra: "Esquecidos pela indústria"

A dermaticista Glau Modesto, 48, decidiu desenvolver tratamento após perceber necessidades de sua própria pele - Arquivo Pessoal
A dermaticista Glau Modesto, 48, decidiu desenvolver tratamento após perceber necessidades de sua própria pele Imagem: Arquivo Pessoal

Natália Eiras

Da Universa

13/07/2019 04h00

Glau Modesto, 48, cuida da pele dos outros há cerca de 20 anos. Porém, viciada em cosméticos, a esteticista com especialização em dermatologia não conseguia encontrar produtos para fazer o cuidado adequado de sua própria pele. Tudo porque ela é negra. "Fomos esquecidos pela indústria da beleza por muito tempo. Sempre tive que ficar pesquisando cosméticos que funcionariam melhor para mim", fala a profissional, de São Paulo (SP), para Universa.

Essa foi a motivação que a fez criar, na clínica que leva seu nome situada em Osasco (SP), um tratamento estético pensado principalmente para a pele negra e a começar o desenvolvimento de cosméticos focados nas necessidades desse público. "Eu quero usar um creme noturno que não me dê espinha, um protetor solar que não me deixe acinzentada", diz.

Glau diz que, apesar de hoje em dia estar muito ciente do quanto a pele negra foi preterida, o esclarecimento sobre isso surgiu com o tempo. "Eu já era esteticista há muito tempo, mas fazia mais tratamentos corporais. Até que, em 2015, fiz uma pós-graduação em pele, com especialização na negra", narra. Foi quando percebeu que ali havia um nicho a ser explorado. "Mas foi um trabalho de formiguinha, porque até então a minha clientela era a maioria branca. Tive que ir no boca a boca para que as pessoas conhecessem os meus tratamentos", diz.

Atualmente, tem entre as clientes Nina Silva, fundadora do Movimento Black Money, e Bruna Battys, produtora da cantora Negra Li. O que atrai mulheres negras é o tratamento Aquatune, que cuida do rosto e do corpo. "É um pacote com diversos princípios ativos como ácido hialurônico e ouro, que se dão melhor com o tipo de pele delas", afirma.

Necessidades especiais

Glau acredita que a indústria da beleza deixou a população negra de lado por várias questões. Uma delas era econômica. "Por muito tempo, negras não tinham poder aquisitivo para comprar cosméticos, mas isso está mudando", afirma. Outro fator foi a "boa genética" da pele negra. "Existe essa ideia de que preto não precisa usar protetor solar, não tem problemas com envelhecimento. Temos uma pele ótima, mas não é assim. Também temos linha de expressão que queremos tratar. Temos as nossas necessidades", diz.

Em sua clínica, uma das principais reclamações das clientes, de acordo com ela, são as marcas de espinhas e melasma. "Elas são muito aparentes, porque ficam escuras", fala Glau. As micro-verrugas que surgem em decorrência do sol também são solicitação recorrente. "Elas são como as sardas, aparecem quando existe muita radiação na pele", fala a dermaticista. Por isso, a profissional quer disponibilizar pelo menos 15 tons de protetor solar com cor para a pele negra. "Ai não vai ter mais desculpa para sair de casa sem proteger a pele", brinca.

Para fazer procedimentos como o peeling, Glau teve que "improvisar" para conseguir um melhor resultado. É que o tratamento comum, desenvolvido para a pele branca, costuma manchar ainda mais a pele negra. "Por isso, nestes casos, a gente faz um microagulhamento da pele e aplica o peeling na segunda camada dela, o que o torna mais eficiente", explica.

A equipe da clínica de estética está criando tratamento para pele do homem negro - Divulgação
A equipe da clínica de estética está criando tratamento para pele do homem negro
Imagem: Divulgação

Os próximos passos

Com uma equipe majoritariamente negra, Glau quer expandir seus serviços para tratar o público que vem crescendo em sua clínica. O próximo passo é investir na pele negra masculina. "Eles têm muito problema com a barba, porque ela é crespa, enroladinha, então dá bastante foliculite e inflamação. Os meninos sofrem muito", diz. Ela já está separando homens influenciadores para começar a divulgar os tratamentos para este público. "Tenho a intenção de abrir uma barbearia e estética masculina."

Outro campo que ela quer cobrir é a depilação específica para a pele negra, uma vez que laser não pega e pode queimar as mulheres. "O que funciona é a fotodepilação, técnica que não existe em qualquer lugar. Por isso, quero ser o lugar referência em fotodepilação", fala.