Opinião

Como o seu glitter do Carnaval chega até os peixes

Purpurina. Ela é um dos principais sinais de que você foi para a folia. Espalhada por todo o corpo, às vezes por dias depois do fim do Carnaval. Não somos os únicos a enfrentar desafios para eliminar esses pontos brilhantes. O glitter entra pelos sistemas de água, alcança os oceanos e por lá permanece por períodos que nem conseguimos medir ainda.

O problema é o mesmo que ocorre com os microplásticos, que são aqueles pedaços de plástico menores que 5 milímetros. Eles podem levar centenas ou milhares de anos para se decompor - francamente, nem sabemos ao certo, pois esse material só foi inventado há algumas décadas. Enquanto isso, esses pedacinhos de plástico entram na teia alimentar marinha e são devorados por animais marinhos.

A purpurina é a gourmetização dos microplásticos. Cada bolinha de glitter consiste em um núcleo de plástico tipo PET, que é revestido com alumínio e, em seguida, coberto com outra fina camada de plástico. Se os animais marinhos curtem um microplástico gourmet tanto quanto nós somos fãs de um cachorro quente requintado é algo que jamais saberemos, mas é fato científico que o aspecto brilhante como uma escama de peixe e a cor dos plásticos podem facilitar a ingestão por outros organismos, como já mostraram pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo.

Mas se engana quem pensa que o maior problema é a simples ingestão. Por mais que microplásticos já tenham sido detectados desde o plâncton até as baleias e já tenham percorrido o caminho até para dentro do nosso corpo, o material tende a se ligar a outros produtos químicos nocivos. Os pequenos fragmentos absorvem metais pesados, bisfenol e outros compostos frequentemente ligados a alterações hormonais e câncer, e a ciência não conseguiu mensurar o impacto disso na nossa saúde nem no planeta.

Alternativas

Enquanto muitas vezes não há muito como fugir do microplástico no dia a dia, já que ele se solta das fibras de nossas roupas sintéticas e das garrafas das quais bebemos água, é possível escolher não liberar milhares de partículas plásticas no Carnaval. Já foram desenvolvidas opções feitas de algas e de mica, um mineral naturalmente encontrado em muitas praias do mundo.

Muitas destas opções estão disponíveis a alguns cliques de distância - mas se você deixou para a altura hora, também separamos pelo estado mais pertinho de você, confira:

  • No Rio de Janeiro, a Pura Color Beauty traz opções em gel, pó e escamas. No litoral, a Marulho traz opções no vidrinho
  • Em Minas Gerais, É pra Brilhar também apresenta sustentáveis
  • Pulando em São Paulo? A Fada Sensata faz entregas e vende glitter até na avenida Paulista; a Glitter Glitter tem loja na rua Pamplona e a é Glitter Ecológico, Baby! também está na capital
  • Para quem está em Brasília, a #Nós de Amora fabrica não só opções biodegradáveis mas também acessório para festejar
  • Os baianos encontram na Juliage Dermocosméticos, com quiosque até em shoppings de Salvador
  • A Baleia Mãe comercializa ecoglitter em três lojas no Rio Grande do Norte
  • Em Pernambuco, a marca Contém Glitter, que já é referência nos brilhos há anos, criou também uma linha biodegradável

* Beatriz Mattiuzzo é oceanógrafa, mestre em práticas de desenvolvimento sustentável, instrutora de mergulho e cofundadora da Marulho, negócio socioambiental que intercepta redes de pesca junto a pescadores locais em Angra dos Reis

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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