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Cirurgias plásticas: quando a vaidade das mulheres se torna risco de morte

Elisabete, de 42 anos, fez lipoenxertia aos 32: hoje ela não repetiria o procedimento - Arquivo Pessoal
Elisabete, de 42 anos, fez lipoenxertia aos 32: hoje ela não repetiria o procedimento Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Da Universa

26/07/2018 04h00

A gerente de vendas paulistana Elisabete Codici, de 42 anos, não pensou em riscos quando decidiu fazer lipoenxertia, em 2008. O procedimento envolve lipoaspiração e aumento de bumbum: a gordura retirada do corpo é enxertada nos glúteos por meio de uma seringa. À Universa, garante que modelar a silhueta era um sonho antigo, mas que se soubesse o que enfrentaria ao realizá-lo, jamais teria investido nele.

“A recuperação foi dolorosa e incômoda. Eu não conseguia me mexer, nem levantar da cama sozinha. Retive muito líquido e, mesmo fazendo drenagem todos os dias, não conseguia desinchar — e esse inchaço também era doloroso. Não tive paz por três meses. Minha vida virou um inferno”, afirma a gerente de contas. Hoje ela está ótima, mas não repetiria esse processo.

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Elizabeth conheceu o médico que realizou o procedimento por indicação de uma amiga e, diferentemente do que recomenda o cirurgião plástico e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Luiz Haroldo Pereira, não pesquisou o histórico do especialista. "Tive sorte por não ter nenhuma complicação grave", diz.

“É necessário pesquisar antes de escolher um cirurgião plástico. Se o médico for recomendação de algum amigo, o paciente deve acessar o site da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e pesquisar o nome do especialista. Se o nome não constar no site, ele não está apto a realizar o procedimento”, diz Pereira. Segundo ele, caso o médico conste na lista, o paciente precisa buscar o histórico dele, onde ele opera e se não tem nenhum processo nas costas em sites como o Reclame Aqui, por exemplo. “Esse tipo de cirurgia precisa acontecer em hospital, não em clínica. Além disso, é imprescindível a presença de um anestesista”, afirma.

Procedimentos para aumentar o bumbum

Pereira explica que há apenas dois procedimentos de gluteoplastia seguros e eficazes – a lipoenxertia, procedimento realizado por Elisabete, e as próteses de silicone, sempre realizados em hospitais. “A lipoenxertia é mais recomendada para mulheres com gorduras localizadas que querem aproveitar o embalo para modelar o corpo. Nesse procedimento, o cirurgião faz a lipoaspiração, retira a gordura, a mistura com soro fisiológico e, por meio de uma seringa, insere no glúteo”, explica.

De acordo com o especialista, o aumento do bumbum por próteses de silicone é mais complexo e precisa ser realizado por um cirurgião habilitado e experiente nesse tipo de cirurgia. “O médico faz uma incisão de seis centímetros e insere as próteses no meio do músculo do glúteo”.

Doutor bumbum e procedimentos de risco

A bioplastia, realizada por Denis Furtado, o “Doutor Bumbum”, que resultou na morte de uma paciente, é um procedimento de alto risco, segundo Pereira. “É feito à base de injeções de PMMA (polimetilmetacrilato), substância que o organismo não consegue absorver. Por isso, endurece e pode causar inflamação nos tecidos”, explica. “Com o silicone líquido, os riscos são ainda maiores. Se, ao ser injetado, penetrar algum vaso sanguíneo, pode causar embolia pulmonar ou trombose”.

Universa apurou que o CRM de Denis Furtado não era válido no Rio de Janeiro. “O CRM é estadual. O médico precisa de uma autorização para exercer a medicina fora do Estado onde tirou o certificado – no caso de Bumbum, em Brasília”, garante Pereira. “Ele exerceu a profissão indevidamente. Além de não ter CRM, não poderia ter realizado cirurgia plástica em um consultório sem a liberação da Anvisa, que só abre exceções para microcirurgias. Não era o caso: o procedimento tinha de ser feito em um hospital”.

Pereira afirma que metade dos procedimentos cirúrgicos que ele realiza são correções de plásticas já realizadas. “As complicações existem e fazem com que o paciente não tenha escolha senão procurar um hospital para consertá-las”.

Procedimentos de lipoenxertia e inserção de próteses de silicone no bumbum custam entre R$ 15 e R$ 30 mil reais.

Pós-operatório

O cirurgião garante que, atualmente, o pós-operatório já não é tão dolorido quanto na época em que Elisabete fez a cirurgia, 10 anos atrás. “É desconfortável nos primeiros três dias, por isso recomendo no mínimo 72 horas de repouso absoluto. Depois, os cuidados são usar cintas modeladoras e evitar exercícios físicos por três semanas. Pode sentar tranquilamente, já que não sentamos em cima do glúteo, mas, sim, das coxas”.

“Outro cuidado é que quem coloca prótese de silicone no bumbum não pode mais tomar injeção nas nádegas. Se acontecer, o líquido da seringa vai todo para a prótese”, afirma.

Brasil em segundo lugar no número de cirurgias plásticas

Segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps), em 2017, o Brasil é o segundo país onde mais se realiza cirurgias plásticas no mundo – fica atrás apenas dos Estados Unidos. Ana Paula Carvalho, a psiquiatra e coordenadora da Liga de Depressão do Instituto do Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, explica que menos de 10% desses procedimentos são realizados em pessoas com transtorno dismórfico corporal, o transtorno de imagem.

“Há dois tipos de pessoas que são viciadas em cirurgias plásticas: as vítimas de dismorfofobia e as vítimas dos padrões de beleza. A grande maioria das pessoas que buscam intervenções faz parte do segundo grupo”, explica Ana.

Segundo a especialista, ao mesmo tempo em que as redes sociais trouxeram um grande movimento de aceitação e empoderamento, mostram fotos irreais de pessoas, cheias de photoshop, criando um padrão impossível de alcançar. “As pessoas ficam insaciáveis buscando um corpo ideal que não existe”, diz.

"A preocupação com a estética tem superado a preocupação com a saúde. Desse ambiente, surgem as pessoas que não enxergam limites na busca pela perfeição. Todo mundo tem direito de sentir bem, mas é preciso estabelecer um limite", afirma.

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