Cris Guterres

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Opinião

Antes e depois de Maraisa 'impressiona': por que tanta obsessão com corpos?

Foi só digitar o nome dela no Google e a plataforma automaticamente complementou com as palavras antes e depois. Eu estou falando de Maraisa, a cantora sertaneja que faz sucesso em dupla com a irmã Maiara.

Na última segunda-feira (16), uma foto com imagens de "antes e depois" de Maraisa ocupou as redes, virou notícia em diversos veículos e recebeu muitos comentários. De fãs a haters, pois imagens de mulheres nas redes sempre são carregadas de desrespeito, muitas vezes travestidos de elogios.

A mudança no visual da moça ao longo dos últimos anos foi um assunto bastante comentado. Maraisa se submeteu a alguns procedimentos estéticos e os fãs fizeram uma montagem com uma foto de antes e outra da atualidade para ressaltar a transformação.

As mudanças físicas são bastante evidentes, a artista nunca escondeu, muito pelo contrário, sempre se declarou satisfeita com a plástica que remodelou seu nariz, com o resultado de alguns procedimentos estéticos que realizou no rosto, a cintura adquirida por uma lipoescultura e o corpo mais magro após os quilos que perdeu. Uma mulher feliz com o resultado da energia, dinheiro e empenho colocado em seu corpo. Isso é muito valioso.

Eu sou cagona, ainda não tenho coragem de me submeter a cirurgias plásticas como ela, mas estou num processo de perda de peso para me sentir mais bonita, confiante e saudável. O que me chama a atenção nesse alarde criado pelos fãs é o fato de que a pressão pelo corpo magro é um assunto que nunca parece sair de moda. Parece que desde sempre, as mulheres estão sendo bombardeadas com a ideia de que precisam se encaixar em um padrão esquelético para serem consideradas bonitas ou desejáveis. Isso é tão cansativo quanto tentar andar de salto alto em um piso coberto por pedregulhos.

A obsessão com o "antes e depois" de artistas que já foram gordas é um exemplo gritante de como nossa sociedade tem um longo caminho a percorrer quando se trata de aceitar a diversidade de corpos. A cultura do "antes e depois" é cruel, injusta e perpetua um padrão de beleza irreal e que na imensa maioria das vezes só é alcançado com intervenção cirúrgica ou com programas de retoque de imagens.

Veja que não está em pauta a escolha da Maraisa por mudar o próprio corpo, o corpo é dela e ela faz dele o que bem entender. O que trago em pauta é a exaltação da magreza como a única beleza possível de ser admirada. Os jornais e as redes sociais adoram mostrar fotos de celebridades antes de elas perderem peso, como se o fato de serem mais pesadas fosse uma espécie de crime. E então, quando essas mesmas celebridades alcançam um corpo mais magro, são elogiadas como heróis da dieta, como se a única maneira de serem dignas de admiração fosse se encaixar em um jeans tamanho extra pequeno.

O peso de uma pessoa não define seu valor. E as histórias por trás dessas imagens de "antes e depois" nem sempre são o que parecem. Muitas vezes, essas mudanças drásticas são o resultado de pressões implacáveis da indústria do entretenimento, dietas extremamente restritivas e até mesmo cirurgias invasivas com resultados desastrosos, depressão, ansiedade e muita culpa. E toda essa pressão envia uma mensagem para as pessoas com corpos maiores: de que elas não são bonitas ou dignas de amor e sucesso até que percam peso.

Recentemente a cantora Iza foi alvo de críticas implacáveis dos fiscais da magreza alheia. A cantora foi bombardeada nas redes por comentários a respeito de quilos que teria ganho nos últimos meses. Iza continua linda e talentosa. O corpo não define seu talento. Aliás, a vida de uma pessoa é um ciclo, e isso inclui seu peso. As celebridades são seres humanos, não máquinas de aparência constante. E, às vezes, engordar é apenas parte de ser humano.

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Selena Gomez também já teve que rebater comentários gordofóbicos sobre seu corpo. A artista faz tratamento para Lúpus, uma doença autoimune cuja medicação favorece o ganho de peso. Selena fez uma live no tiktok onde afirmou que não se importa com o ganho de peso e nem com os comentários maldosos e que prefere cuidar de sua saúde a manter um corpo de modelo.

Já passou da hora de parar de julgar as pessoas com base em sua aparência e começar a valorizar as pessoas por quem elas são. A diversidade de corpos é algo belo e natural, e precisamos celebrar isso em vez de envergonhar as pessoas por não se encaixarem em um padrão irreal. Em vez de focar no "antes e depois", vamos focar no agora e na aceitação. Cada corpo é único, cada história é diferente, e todas merecem respeito e amor, independentemente de seu tamanho ou forma.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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