Cris Guterres

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Opinião

O impacto de tirar de nossos filhos a chance de errar - e aprender com isso

Hoje o modo mãe da jornalista está ativado. Faz tempo que não falo das dores e delícias desse status desafiador da minha vida. Do lado de cá, eu me apresento como a mãe do Rafael, de 19 anos.

Sim, já estamos há alguns anos numa fase temida por muitos pais, a adolescência. Bom, no meu caso com meu filho aos 19 anos, já podemos afirmar que entramos na fase adulta. Eu costumo dizer que a adolescência é só mais uma fase desafiadora do cuidado de filhos, pois pra mim a fase mais complicada seria a primeira infância, fase que ousei pular, pois me tornei mãe por adoção do Rafael quando ele estava com 14 anos.

Mas eu não quero, com esta fala, romantizar os desafios da maternidade na adolescência, realmente não é fácil. É quando nossos filhos conquistam independência e nós não estamos mais de olho em tudo o que eles fazem. Ainda mais nos dias atuais que nós mães e pais temos que lidar com ferramentas de redes sociais que, dependendo do uso, podem ser muito perigosas como Discord, OnlyFans, TikTok e afins...

A cada dia somos confrontados com situações conturbadas e até mesmo crimes envolvendo adolescentes que nos fazem querer vigiar e controlar nossos filhos o tempo todo. Aqui em casa eu já tentei rastrear o telefone pra saber por onde anda. Deu certo uns dias, logo em seguida o menino descobriu minha artimanha de presenteá-lo com um celular com rastreador e simplesmente desligou o app e eu fiquei com cara de boba tentando dar uma de agente 007 e ativar novamente na calada da noite, não deu certo.

Eu me esforço para não ser a mãe que está sempre um passo à frente de filho adolescente tentando evitar cada deslize que a vida tem a oferecer. A superproteção materna é uma armadilha em que muitas de nós caímos sem perceber! É compreensível querer o melhor para nossos filhos e evitar que eles cometam erros, mas há uma linha tênue entre orientar e criar jovens que não sabem enfrentar os desafios do mundo real.

Eu já fui a mãe que verifica todas as mochilas e telefones, lê cada mensagem de texto e post nas redes sociais, como se fosse uma detetive particular de plantão. Meu filho não podia dar um passo em falso sem que eu não estivesse lá para intervir como um super-heroína para impedir o crime, o deslize, a queda, o erro.

Obviamente, fiz tudo isso com a melhor das intenções. Proteger meu filho de todos os perigos que espreitam no mundo. Mas demorei a perceber a diferença entre ser a mãe que orienta seu filho sobre as consequências do sexo sem proteção e ser a mãe que além de orientar também compra camisinha toda semana. Um dia ele me disse que tinha a impressão que na próxima transa eu ia aparecer no quarto com a camisinha na mão. Me senti uma idiota quando ouvi, claro que quis bater nele. Onde já se viu falar assim com a mãe? Mas refleti e percebi que se eu estivesse sempre à frente com a camisinha ele não precisava passar nem pela experiência de se preocupar em se proteger no sexo.

A camisinha é um exemplo simples, mas ilustra bem a questão da responsabilidade. Se uma mãe está sempre resolvendo os problemas de seus filhos, como eles vão aprender a tomar decisões e enfrentar as consequências de suas ações? Eles podem crescer acreditando que o mundo gira em torno deles e que nunca precisam assumir a responsabilidade por nada, nem por comprar a própria camisinha. E sabe o que vai acontecer? Na primeira consequência frustrada de um sexo sem proteção a culpa será minha, pois eu que não comprei a camisinha.

A superproteção pode sufocar a independência. Quando nossos filhos perdem a chance de errar e aprender com seus erros, eles podem se tornar adultos inseguros, incapazes de tomar decisões por si mesmos. E o que dizer da autoconfiança? Se nossos filhos nunca têm a oportunidade de enfrentar desafios e superá-los por conta própria, podem crescer acreditando que não são capazes de lidar com as dificuldades da vida. Essa falta de confiança pode persistir na idade adulta, tornando-os inseguros e ansiosos.

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Todos os dias eu tento me lembrar de que é importante equilibrar a proteção para meu filho aprender com seus próprios erros. Ontem, por exemplo, falei duas vezes: Rafael, vá dormir cedo para não perder a hora do trabalho amanhã. Ele foi? Não foi. Hoje quando levantei, percebi que já passava da hora e ele ainda estava dormindo. Corri pra acordá-lo e quando abri a porta me lembrei de que a minha parte eu já havia feito, agora era a vez dele mostrar que tinha responsabilidade com seus compromissos. Fechei a porta e não o chamei. Resultado: perdeu o horário, chegou atrasado no trabalho e acabou de me ligar dizendo que a chefe o mandou de volta para casa para aprender a chegar no horário. Quem sabe agora ele entende o que realmente quis dizer com "durma cedo"?

A vida é uma montanha-russa de altos e baixos, e nossos filhos precisam estar preparados para enfrentá-la com confiança e determinação.

Se identificou com o texto? Não concorda com as minhas atitudes? Conversa comigo nos comentários. Me diz como você prepara seu filho para os desafios da vida.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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