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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A dor de ver um filho perder uma amiga de 17 anos para as drogas

"Meu filho estava chocado pela perda da amiga diante de uma realidade em que ele se via refletido" - Tinnakorn Jorruang/ iStock
'Meu filho estava chocado pela perda da amiga diante de uma realidade em que ele se via refletido' Imagem: Tinnakorn Jorruang/ iStock
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Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista de Universa

08/12/2021 04h00

Meu filho chegou em casa transtornado. Olhos esbugalhados, rosto pálido, nitidamente assustado com algo que havia acontecido no caminho. Correu pro banheiro e vomitou tudo o que tinha colocado no estômago aquele dia. Abraçou o vaso sanitário como quem procura consolo e desabou a chorar e gritar que a Kelly tinha morrido.

Eu estava alarmada, sem conseguir entender o que ele estava falando e o motivo do vômito. Me coloquei a acudir o menino que, na passagem da sua vida adulta, estava diante da morte de alguém querido e desesperado com o desfecho que a vida havia reservado para a sua amiga.

Passados alguns minutos, um banho e um colo de mãe, fui entender que a Kelly era uma das meninas que haviam convivido com meu filho em dois dos abrigos por onde ele passou. Sou mãe por adoção de um adolescente que hoje tem 17 anos. Quando iniciamos nossa vida juntos, ele já tinha 14 anos mais vividos do que muitos adultos. Uma história com muitas perdas, muitas idas e quase nenhuma vinda.

Kelly morreu de overdose na Cracolândia, na zona central da cidade de São Paulo. Ela só tinha 17 anos.

Meu filho estava chocado pela perda da amiga diante de uma realidade em que ele se via refletido. Ele e Kelly conviveram e ela não teve a mesma oportunidade que ele de traçar um caminho diferente em sua jornada. Na cabeça dele, o que pesava não era tão somente o fato de ela ter partido, mas também a ideia de que ele poderia ter tido o mesmo futuro da amiga.

Nossos filhos estão em contato com o álcool e as drogas cada vez mais cedo. E não adianta você fechar os olhos e pensar que isso só acontece com esses moleques doidos da periferia, pois os jovens da classe média e da classe alta brasileira conhecem muito bem o caminho até as festas, os bailes e os pontos de venda de drogas.

Se tem um lugar democrático em São Paulo este lugar é a Cracolândia. Lá tem médico, músico, empresário, branco, preto, criança, jovem, adulto, idoso, homem e mulher. Só que ali ninguém se diverte. Se a dor tiver morada, ela fez sua casa no centro do fluxo e na placa escreveu a palavra sofrimento.

Não se chega à Cracolândia por diversão, a Cracolândia é um caminho de servidão. Símbolo nevrálgico da dependência química no Brasil, a região surgiu em meados dos anos 90. De lá pra cá, cerca de três décadas se passaram e hoje nós já estamos criando a terceira geração de nascidos em meio ao fluxo.

Kelly nasceu desta convulsão. Sua mãe era usuária de crack e vivia na região quando engravidou. Mais uma vítima que, assim como a filha, morreu cedo.

Kelly teve seu destino traçado entre abandono, abrigos, conselho tutelar e Fundação Casa. Finalizou sua história no mesmo ponto onde começou, na Boca do Lixo. É muito doloroso saber que outros jovens terão o mesmo destino que ela e que quase ninguém se importa.

A Cracolândia é o ovo da serpente prestes a eclodir. A serpente é a sociedade brasileira que, com seu comportamento de completa ausência de comprometimento com a população preta e periférica, vem chocando ovos que, como bem disse o intelectual Hélio Santos, geram brasileiros degradados em seu próprio país. Brasileiros sem nada a perder, inclusive a si mesmos.

Questão de saúde pública

Eu já trabalhei algumas vezes no fluxo. Escrevo este texto ciente do que vi e dos sonhos que ouvi na Cracolândia. Lembro bem dos abraços que dei, das mulheres com quem conversei, penteei e embelezei.

Penso que a Kelly poderia ter sido eu ou até mesmo minha filha. Penso que, para além de aprender a lidar com o adolescente que eu tenho, preciso me preocupar com todas as Kellys que estão vulneráveis na Cracolândia, independentemente do gênero e da cor da pele.

Eu não estou dizendo que para proteger nossos filhos da droga precisamos todos entrar na Cracolândia com nosso coração caridoso. O que quero dizer é que somos responsáveis pelo ovo da serpente e precisamos encontrar maneiras de resolver este problema enquanto sociedade e não enquanto eleitores. É muito fácil votarmos no próximo político que prometer acabar com a Cracolândia como fazemos há anos e o ponto nefasto no centro da cidade só se expande cada dia mais.

Difícil é acreditarmos que no lixão também nasce flor e empenharmos força juntos por novas ideias de combate às drogas, partindo do princípio de que estamos diante de um problema que hoje, em busca de solução, colocamos nas mãos de protagonistas errados. Não se trata de um problema de polícia, mas sim de saúde pública.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL