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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Chorei ao ver emoção de pai com filha que é modelo negra: 'Igual meus pais'

A modelo Erika Cardozo e o pai, Everaldo Cardozo, orgulhoso do sucesso da filha que estampa totens em shopping center de São Paulo - Reprodução Instagram
A modelo Erika Cardozo e o pai, Everaldo Cardozo, orgulhoso do sucesso da filha que estampa totens em shopping center de São Paulo Imagem: Reprodução Instagram
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Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

27/10/2021 04h00

Eu chorei copiosamente quando vi o vídeo do Everaldo da Conceição Cardozo emocionado ao ver a foto da filha Érika Cardozo, modelo de 23 anos, estampando totens publicitários do Shopping Paulista em São Paulo.

Nascida em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, Érika atuou como babá, costureira e atendente num salão de beleza antes de se tornar modelo. O motivo de minhas lágrimas foi enxergar no brilho dos olhos do seu Everaldo a força que eu via no olhar de meus pais.

"Meu pai não tem o costume de frequentar shopping, só quando eu o levo. É um homem simples. O sonho dele sempre foi me ver em um banner bem grande no metrô, talvez porque seja um lugar que ele frequente bastante. No dia em que o vídeo foi gravado, eu pedi para que ele me acompanhasse em um casting e, de lá, levei ele para tomar um sorvete. Quando ele viu a vitrine com minha foto, ficou muito feliz. Gravou para mostrar aos colegas e, em seguida, postou nos stories. Eu achei o vídeo muito lindo, então decidi repostar. Acabou viralizando do dia pra noite", revelou Érika em entrevista para a revista Marie Claire.

Para mulheres como eu e Érika, mulheres negras, periféricas, pertencentes à primeira geração da família que consegue ir além do ensino médio, ultrapassar fronteiras e derrubar desafios como esses são conquistas até há pouco tempo impensáveis ainda que um dia tenham sido sonhadas.

"Essa aqui é minha filha Érika, a modelo Érika. Gostei tanto, que tomei até um susto. Nem acredito em uma coisa dessas, está em todo o shopping, só dá ela aqui! Eu estou muito feliz pela minha filha, que orgulho dela", disse seu Everaldo no vídeo que gravou assim que viu a imagem da filha na campanha.

O dom dos antepassados

Me lembrei de um dos mais famosos poemas da escritora e poetisa Maya Angelou. Em um dos versos de "Ainda Assim Eu Me Levanto", a poeta me toca profundamente ao lembrar que "Trazendo comigo o dom de meus antepassados, Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado".

E como são grandes estes sonhos, são imensos. Eu falo de estar num lugar onde muitas de nós nem esperávamos chegar. Eu e Érika fazemos parte de uma geração de mulheres negras que estamos vivenciando algumas das conquistas do movimento negro que mulheres como Sueli Carneiro, Lélia Gonzáles, Beatriz Nascimento, Benedita da Silva e muitas outras lutaram por nós.

Se estamos, ainda que a passos lentos, adentrando pela tela da televisão, pelos outdoors, pelas capas de revistas e pelos cargos relevantes de poder nas corporações foi por ter mulheres que lutaram para não ter nossas histórias interrompidas e para que pudéssemos ser o que quiséssemos. Nossos passos vêm de longe e cabe a nós sempre lembrar que as conquistas de uma mulher negra são conquistas de metade da população brasileira que sabe o quanto pesa ter na pele a cor de seu destino.

Seu Manu e dona Leni

Escrevo este texto bastante emotiva, pois seria aniversário da minha mãe que faleceu há pouco mais de dois anos. Mamis poderosa era minha grande companheira. E saudade quando bate é o amor doendo. Também estou saudosa de meu pai, um homem simples e amoroso como seu Everaldo. Seu Manu e dona Leni eram meus grandes parceiros, minhas referências de pessoas lutadoras. Os dois saíram deste plano exatamente da mesma maneira, um AVC hemorrágico, mas com diferença de 7 anos entre uma passagem e outra.

Ao assistir o vídeo do seu Everaldo, me lembrei do quanto meus pais devem estar orgulhosos de mim. Afinal de contas, fiz o que eles me ensinaram: não abaixei a cabeça para ninguém, foquei nos meus objetivos e pisei em cima de quem tentou me derrubar. Mantive a mesma consciência de Érika, que finalizou sua entrevista afirmando: "Sou preta e vivo na cor da pele todos os dias as diferenças raciais. Poder trazer representatividade para outras pessoas acreditarem que, independentemente da sua etnia, de seu gênero ou de seu corpo, são capazes de realizar seus sonhos, é uma grande vitória".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL