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Cris Guterres

A luta antirracista não se constrói com likes e sim com ações concretas

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

21/07/2020 04h00

Recordo de estar sentada na sala lendo um livro e ouvindo música quando meu irmão me chamou ao quarto para assistir a reportagem sobre o alvo negro da vez. Uma mulher de 51 anos sendo duramente reprimida, pisoteada no pescoço por um policial. Me lembro de ter sentido um calafrio que percorreu meu corpo e ruminou em meu coração trazendo à mente outras mulheres negras agredidas por policiais nos últimos anos. Vi o corpo de Claudia Silva Ferreira sendo arrastado por uma viatura no asfalto quente do Rio de janeiro e o rosto de Luana Barbosa dos Reis ao ser espancada por policiais até a morte sob o olhar assustado do filho de 14 anos.

Simbolizar significa representar questões materiais através da linguagem ou de símbolos. Existe uma dimensão simbólica na violência brutal cometida pelas forças de segurança brasileiras. O símbolo que identifica o inimigo para as forças policiais é a cor de sua pele. O sujeito negro é sempre o inimigo seja homem, mulher, criança, adulto ou idoso.

A vítima em questão tinha 51 anos, uma comerciante mãe de cinco filhos, avó de dois netos. Teve sua tíbia quebrada por um policial que reagiu ao ser atacado por um rodo, sim: um rodo de limpar chão. Tentam nos convencer de como pode ser perigosa uma mulher de 51 anos com um rodo nas mãos a ponto de justificar ser contida com violência até a exaustão.

A cena de um policial pisando no pescoço de uma pessoa negra não é novidade no mundo. Recentemente vimos uma comoção após um policial assassinar George Floyd nos Estados Unidos, durante uma abordagem, sufocando-o com o joelho em seu pescoço.

A comoção reverberou aqui no Brasil. Foram milhares de postagens de pessoas brancas se demonstrando comovidas com o ocorrido e se posicionando como antirracistas com hashtags e posts pretos em suas redes sociais. A luta antirracista não se constrói com likes, mas a ausência de postagens em casos de violência cometida por policiais aqui no Brasil nos demonstra que tornou-se mais conveniente demonstrar afeto pela vida de uma pessoa negra nos EUA do que pela vida de uma mulher negra brasileira.

A branquitude brasileira (entenda como um termo que confere à pessoa branca privilégios, inclusive o de racializar o outro e nunca a si mesmo) no auge de seus sonos injustos escolhe as vidas que tem mais valor e preferem importar suas questões raciais ao invés de reconhecer-se privilegiada com os desmandes históricos de uma polícia que nasceu para prender e matar o sujeito negro.

O país não precisa de milhares de sujeitos brancos postando fotos ao lado de seus amigos negros para aliviar a consciência. O país precisa de ações concretas contra a normalização da violência contra negros. O país precisa reconhecer condições dignas de existência a pessoas negras. Vamos esperar outro Gerge Floyd ser assassinado nos Estados Unidos para nos comovermos com a vida das pessoas pretas?

Vivemos num país que não reconhece igualdade de direitos pra quem não é homem, branco, cisgênero e heterossexual. Aqui, mulheres negras ainda vivem sob os efeitos da escravidão, consumidas como objetos à serviço da manutenção das relações coloniais. Quase seis milhões de mulheres negras atuando como domésticas que são eleitas como "quase da família" pra não terem seus direitos trabalhistas reconhecidos. Mulheres que saem às ruas para prover seus filhos, seus lares e são massacradas num caminhar permeado de racismo e machismo.

Diante da violência contra a mulher de 51 anos o governador de São Paulo se disse estupefato e afastou os dois policiais para que os fatos fossem apurados. Medida necessária, mas insuficiente para que haja mudanças reais. A normalização da violência contra negros é histórica e estrutural. A Polícia Militar de São Paulo ostenta em seu brasão de armas a imagem de um bandeirante que dizimou índios e africanos escravizados confirmando a dimensão simbólica que estabelece como inimigo o sujeito negro. Como bem disse a intelectual Joice Berth: o problema não é individual é estrutural, está na base, na raiz da formação da Política de Segurança Pública Nacional.

Terminarei, assim como Berth em post na sua rede social, relembrando um vídeo que viralizou recentemente onde um empresário branco agressor de mulher que ao ser abordado educadamente por um policial em sua casa gritava: "você é macho na periferia, aqui é Alphaville".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.