PUBLICIDADE

Topo

Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Retinta: por que é uma ousadia o título do disco novo de Nara Couto

A cantora Nara Couto em ensaio de seu novo trabalho - Divulgação
A cantora Nara Couto em ensaio de seu novo trabalho Imagem: Divulgação
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

17/03/2022 04h00Atualizada em 17/03/2022 10h49

Estava aqui ouvindo o disco recém-lançado da Nara Couto, artista baiana que teve a ousadia —sim, ousadia— de chamá-lo de "Retinta".

Retinta é um termo que eu uso muito para falar sobre mim, me descrever. Retinta. Preta. Escura. Não é segredo para ninguém que a gente vive numa sociedade que está sempre "clareando" as coisas, das mais variadas dimensões da estética, até os padrões de beleza que nos impactam nas situações mais cotidianas e íntimas. E uma das "sequelas" deste comportamento é, muitas vezes, a gente não pensar sobre isso, não falar sobre isso, não "reparar", sabe?

Pensando em moda, ser retinta tem várias implicações. Por exemplo, a clássica história do "nude", que né? Nude pra quem? Para que corpo, que tom de pele?

Das lingeries aos batons, passando pelos sapatos, que estão super no momento inclusive, a maioria dos "nudes" nunca contemplou peles como a minha e a da Nara, pretas, retintas, escuras.

Muitas vezes os escuros, os marrons escuros que contemplariam essas peles são completamente excluídos das coleções, e quando não são, não são chamados de "nude". Para quem não sabe o tamanho do absurdo, recorro à tradução da palavra em inglês "nude", que é "nu", ou seja, algo nude seria algo "cor da pele". Pegaram?

Seguindo. Quando a gente pensa nas modelos negras que vão desfilar, nas representações de negritude nesse lugar da moda, as retintas ainda estão proporcionalmente excluídas de muitos contextos.

Temos tido um enorme avanço nas opções de base para pele negra. Mas, e protetor solar? Você já parou pra pensar no protetor solar? Será que você sabe como ficam "esbranquiçadas" as peles das pessoas negras com 99% dos protetores solares disponíveis no mercado?

Então, muitas vezes, quando a gente pensa em beleza, não são as peles escuras que são apresentadas como algo belo, associadas a isso. E quando uma mulher retinta surge, a atriz Lupita Nyong'o, o que aconteceu? Uma enorme discussão do que é "ser bonita".

Um dos aspectos que faz com que a gente se distancie dessa conversa que é tão importante, é a ausência deste tema, de pessoas falando sobre isso, de pessoas afirmando que são pretas escuras, retintas e tudo o mais. E eis que surge esse álbum maravilhoso da Nara Couto, o "Retinta", que tem esse nome, mas não só, é o álbum de uma mulher retinta, que escolheu como primeiro single de trabalho e como primeiro vídeo de trabalho, a música "Retinta".

A cantora baiana Nara Couto - Divulgação - Divulgação
A cantora baiana Nara Couto
Imagem: Divulgação

Nara já me impactou várias vezes nesta vida. Em uma delas, fiz até um vídeo a respeito, com a música "Linda e Preta". Taí, você já ouviu quantas músicas que falam sobre a mulher escura, numa perspectiva do amor, da beleza, do afeto?

E aí passados vários anos dela maturando este lugar que é meu, que é dela, que é de várias como nós, ela chega com essa música que tem uma frase que gosto muito: "Eu convoco as retintas!", numa intenção de união, pra gente dar nome a esse grupo, que está dentro do espectro da negritude, mas que precisa ser olhado nas suas características únicas.

Eu, inclusive, participei do clipe dessa música, que você pode assistir AQUI.

Foi forte demais dar o REC da câmera e ter mulheres escuras ao meu redor. É muito forte. É tão forte quanto os primeiros impactos de ter mulheres negras de diversos tons de pele ao meu redor nos lugares que ocupo, sobretudo lugares "fora de casa", nos trabalhos, etc.

Esse impacto me faz sempre refletir sobre vários atravessamentos ao longo da vida, que só aconteceram por eu ser escura. Para além de ser uma mulher negra, ser uma mulher escura.

Os looks do clipe foram feitos pela Naná Milumbê, que inclusive é uma das minhas figurinistas (já falei dela nesta coluna) e ela escolheu trabalhar com cores cítricas e também o salmão, um figurino leve e fluido que, pra mim, representa esse outro lugar das mulheres escuras. Assim como a música, o que nos veste no vídeo dela é a contranarrativa do que é constantemente dito e que ajuda a criar imaginários do que mulheres negras devem ser ou seriam, o lugar da força, do trabalho, da dureza.

No vídeo, e com a música, a gente cria este lugar possível da leveza, do afeto, da fluidez, da calma, que tem tudo a ver com o que Nara é e com o que ela representa para mim, uma inspiração linda e preta. Retinta.