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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mês da mulher: amplie sua lista de filmes sobre narrativas femininas

Cena do filme "Lingui, the Sacred Bonds", ambientado em Chade, na África do Sul - Divulgação
Cena do filme "Lingui, the Sacred Bonds", ambientado em Chade, na África do Sul Imagem: Divulgação
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Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

10/03/2022 15h09

Estes dias, assisti "Lingui, the Sacred Bonds", filmaço que tem representado Chade, país da África Central, em vários festivais mundo afora. Com atuações espetaculares das atrizes Achouackh Abakar Souleymane e Rihane Khalil Alio, que dão vida a mãe e filha em uma história de enfrentamento a várias situações que se colocam como barreira na vida de mulheres negras. Um filme que fala, com muita força e beleza, sobre a importância da união entre mulheres.

Quando Amina, a mãe, descobre que sua filha Maria está grávida e não quer ter o filho, elas começam a procurar um meio de fazer o aborto, condenado tanto pela religião quanto pela lei. Lutando para realizar esse procedimento simples, mas inacessível, elas enfrentam uma rede patriarcal de médicos, parentes e vizinhos. No processo, criam uma conexão mais forte do que qualquer outra que já viveram.

Neste filme sobre mulheres,as escolhas neste sentido são superinteressantes. Em entrevista, Achouackh Abakar Souleymane, que interpreta Amina, comentou que, inicialmente, estava motivada pela simples possibilidade de atuar, mas depois isso mudou um pouco, cresceu em sentido. "Eu tinha um pedacinho da história, mas quando começamos a filmar é que conheci toda a história. Cada dia era uma experiência, uma descoberta. Sou mulher e mãe, mas interpretar Amina me fez perceber quantas lutas as mulheres passam. Não apenas na África, no Chade, mas em todo o mundo. E isso realmente me fez amar Amina e querer ir em frente, sentir todas as emoções."

Amina é um personagem muito forte para qualquer mulher que assistir ao filme, uma vez que todas nós somos atravessadas pelas expectativas sociais que recaem sobre nossa existência. Mas, quando você já é mãe, certamente a conexão é maior.

De cara, dá pra entender que a personagem é uma mãe que ajuda a filha, mas vai se transformando em outra pessoa, de nuances muito mais complexas quando decide construir a personagem de forma menos óbvia, se aproximando mais de uma postura considerada mais jovial, ao invés da mãe que segue as regras do patriarcado.

"Foi muito gratificante poder fazer isso no filme. Seja o que for, todos nós temos sonhos, temos uma personalidade oculta, algo que não mostramos aos outros. E para as mulheres aqui, é assim. Agora com a tecnologia, todos estão a par de tudo, mas nos contemos para fazer parte da sociedade. Com todos os problemas, talvez tenha dado um jeito de relaxar fumando ou dançando, mas isso é algo que ela nem conseguiu mostrar para si mesma. Acho que muitas mulheres ficam aliviadas se alguém faz algo para mostrar a elas que está tudo bem em ser mais, em fazer outras e várias coisas além de ser mãe. Todo mundo em um certo ponto só quer estar vivo! Acho que foi isso que aconteceu com Amina", comentou Souleymane.

No que diz respeito à Moda, ficou muito marcado em mim o uso dos tecidos, dos lenços. Claro que, no filme, este uso faz parte de um determinante social, cultural, religioso, e também por isso funciona como um conector, um elo, que se transforma, mas permanece de geração para geração. A filha que vai para a escola de lenço e o utiliza de uma forma muito mais despojada que a sua mãe indo para o trabalho ou indo para as obrigações religiosas.

Reparem as estampas, as cores… certamente vão te lembrar indumentárias de mulheres negras de diferentes gerações que formam nosso repertório referencial, em África e também aqui, dentro de nossas casas. No filme, por mais que sejam mulheres "cobertas", algo diferente da cultura brasileira, estão cobertas de uma forma que nos conecta afetivamente pela memória, pelas especificidades e características dos tecidos.

Em diferentes plataformas, já assisti filmes angolanos, sul-africanos, nigerianos, quenianos, vários. Narrativas tão próximas das nossas, das pessoas negras de vários lugares do mundo, que evidenciam questões comuns que nos atravessam, mas também toda a diversidade que existe entre pessoas pretas, sobretudo mulheres. Uma multiplicidade bonita de ver e que praticamente funciona como uma contranarrativa à tentativa de colocar a gente dentro de uma história única.

Vamos sair das listas óbvias na hora de assistir filmes sobre mulheres neste mês de março?

Te convido a assistir esse. "Lingui, the Sacred Bonds", é dirigido pelo Mahamat-Saleh Haroun e tá no MUBI, só clicar AQUI.