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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A moda negra do Rio de Janeiro continua linda

Espaço coletivo Afrodai, no Rio de Janeiro - Samuel Quadra
Espaço coletivo Afrodai, no Rio de Janeiro Imagem: Samuel Quadra
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Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista de Universa

08/07/2022 04h00


Muitas vezes a gente fala da moda negra, da moda afro-brasileira como um lugar único, uma estética única. Mas é claro que este ponto de vista não contempla a pluralidade que existe entre nós e que essa diversidade diz respeito a muitas coisas, entre elas a nossa territorialidade, ou seja, a nossa presença em diferentes lugares.

E isso significa dizer, por exemplo, que a moda negra do Rio de Janeiro é completamente diferente da moda negra de São Paulo, que tem características completamente diferentes da moda negra em Salvador.

Sempre tive o desejo de fazer isso na vida e também nesta coluna: mapear a moda negra do Brasil. Por isso, a partir de agora, teremos por aqui mais tours de moda, para que a gente se aproxime.

Meu convite é para que as pessoas salvem esse conteúdo, guardem essas informações para seguirem os passos quando visitarem essas cidades e conseguirem contribuir com esses artistas, esses empreendedores que fazem da moda um lugar mais plural e diverso. E vou começar pelo Rio de Janeiro! Bora?

Neri Modas - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Neri Modas
Imagem: Arquivo Pessoal

NERI MODAS
A Neri Modas fica numa antiga fábrica desativada e é cheia de histórias. Um lugar muito charmoso, onde inclusive já foram gravados um clip da IZA e alguns episódios do programa "Espelho", do Lázaro Ramos. A Neri Modas nasceu na zona norte do Rio de Janeiro e se autodeclara uma moda afropop. Pra mim, o mais marcante são as roupas amplas, macacões, agênero. E também a logomarca, que traz a imagem de um jovem Ítalo William, registrando não só o tempo, mas a jornada deste homem negro que criou e conduz a marca.

Filho de mãe modelista e neto de avó costureira, foi criado por estas duas mulheres, sempre envolto pelo universo da costura. E, embora tenha flertado com outras expressões artísticas, encontrou na moda um caminho, seu lugar de encontro e para o que se dedica 100% hoje. Uma das coisas mais incríveis é a preocupação social muito grande. Enquanto cria, Ítalo se preocupa em como gerar impacto com a moda. É um cara que sonha com mudança social a partir da moda, das pessoas que contrata, das oficinas que quer oferecer e das conexões que faz e deseja fazer com sua marca.

Xongani e Juliana Bonifácio, do Ateliê Bonifácio - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Xongani e Juliana Bonifácio, do Ateliê Bonifácio
Imagem: Arquivo Pessoal

ATELIÊ BONIFÁCIO
O Ateliê Bonifácio foi o lugar mais indicado como representante da moda negra no Rio de Janeiro e chegando lá, entendi o porquê. Com uma curadoria de muitos outros empreendedores, é o verdadeiro coração de mãe, sempre cabe mais um empreendedor preto por lá. Lá você encontra muitas coisas, inclusive o Heitor Bonifácio, filho da dona do espaço, a Juliana Bonifácio. Aos 9 anos, ele já cria camisas infantis. Espontâneo, nos mostra como a moda foi um vetor de transposição de ancestralidade, de geração para geração.

O Ateliê Bonifácio se declara um espaço, uma casa onde, além da moda, acontece o Jazz, a feijoada da Ju. No coração do Rio de Janeiro, lá, você sempre será recebido e acolhido com bolo, café e muito mais. O espaço é a cara de Juliana, uma mulher linda demais, muito potente. E é muito fácil perceber na relação com ela, o que o espaço inspira: acolhimento, um ambiente em que a gente pode existir, profetizar nossa fé, fazer nossa música, comer nossa comida. E isso tem tudo a ver com moda, que é sobre se relacionar com você mesma e com o que você quer mostrar para o mundo. A junção de afeto, ancestralidade, religiosidade e moda é o que a gente encontra e se emociona no Ateliê Bonifácio.

Espaço da Afrodai, no Rio de Janeiro - Samuel Quadra - Samuel Quadra
Espaço da Afrodai, no Rio de Janeiro
Imagem: Samuel Quadra

AFRODAI
A Casa AfroDai é mais um espaço coletivo, que tem nome em homenagem a uma mulher preta de salvador que comprou o espaço e fazia cabelos de várias personalidades, como Xica da Silva. Lá, encontramos o Bruno, que tem dois empreendimentos, a Hutton Brasil e a Afro Básico, que nasceu como um Instagram dedicado à pesquisa de conteúdo sobre negritude.

A Hutton é uma marca 100% preta e jovem, de moda afro minimalista, de roupas pensadas e realizadas em tecidos escolhidos a dedo para serem confortáveis, companhias para todas as horas. Eu sempre digo que se são mãos negras que tudo costuram, logo até camisa branca é moda negra. Partindo dessa ideia, é muito legal ver o quanto a observação do Bruno sobre homens do bairro e do seu entorno percebe o quanto existe estilo neste lugar, do básico, elegante, minimalista. E isso também é moda negra.

Xongani no Ateliê Bonifácio - Samuel Quadra - Samuel Quadra
Xongani com camiseta da AfroBásico
Imagem: Samuel Quadra

Já a Afro Básico é um negócio que traz provocações com pequenas frases de impacto, como por exemplo "na dúvida, preto!" ou o "black influencer verificado". Além disso, entre os acessórios, tem prataria muitíssimo bem produzida. Recomendo demais.

Xongani no ateliê Baobá-Brasil - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Xongani na Baobá Brasil
Imagem: Arquivo Pessoal

BAOBÁ BRASIL
A Baobá Brasil, da Tenka Dara nasceu em 2006, após pesquisas em Moçambique. Lá, fomos muitíssimos bem recebidos pela maravilhosa Raiane. O espaço privilegia a moda afro-brasileira e feminina, a partir do uso das capulanas, das cores, da transposição do contemporâneo com o tecido tradicional de Moçambique, fazendo conexões com outras culturas africanas e proporcionando para as pessoas brasileiras uma conexão ancestral. O nome é homenagem à árvore sagrada do território africano e reforça o tom político muito forte das peças da marca, que "veste, embeleza e fortalece corpos de luta".

E aí? Que tal?

Curtiram a tour? Pois então, preparem-se! Esta é só a primeira, porque estamos em todos os lugares. E onde quer que estejamos, nossa moda nos acompanha. Até a próxima!