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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que brancos são empresários e negros empreendedores?

Para estar "na moda", as empreendedoras negras precisam derrubar as regras da moda - Getty Images
Para estar "na moda", as empreendedoras negras precisam derrubar as regras da moda Imagem: Getty Images
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Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

06/03/2022 04h00

Minha vida como empreendedora começou, de fato, na moda. Aliás, importante falar sobre algo muito concreto: a moda é um território de muito acolhimento para o empreendedorismo. Não à toa, cerca de de meio milhão de pessoas iniciaram sua "vida empreendedora" neste segmento, nos últimos dois anos no Brasil, um crescimento de mais de 15% se comparado ao biênio 2018/2019, de acordo com o Sebrae.

Imagino eu que, depois de alimentação, produtos e serviços de moda e beleza tão ali ó, em segundo lugar entre os setores com maior número de empreendedores por aqui.

Tem quem defenda que a terminologia "empreendedora" é a pessoa que ativa no ato, na proposição, de gestar uma empresa. Este movimento, de se colocar neste lugar, de assumir esta nomenclatura, é muito importante para os processos de profissionalização do que fazemos para ter renda, sobretudo nós, mulheres. É trabalho, é negócio. As mulheres empreendedoras são mulheres de negócios.

Se eu escolher fazer ainda o recorte das mulheres negras empreendendo na moda, fico animada. Porque estou falando de mulheres que estão atuando para que o mundo, através da moda, reflita proporcionalmente a pluralidade. E as empreendedoras negras partem de um outro lugar, de um outro princípio. Para estar "na moda", literalmente, a gente precisa derrubar as regras da moda, derrubar os padrões de beleza.

Dito tudo isso, trago aqui uma outra reflexão.

É muito importante, seja para o universo empreendedor, seja para o universo da moda, que essas pessoas sejam vistas como empresárias que são, na dimensão da "potência" que o "empresariado" tem, saca?

Observem! Muitas mulheres negras que tem seus negócios e atuam de forma similar a uma mulher ou homem branco, por exemplo, são lidas como empreendedoras enquanto a branquitude é empresária. Qual será o "critério" (entre aspas mesmo)?

Esse é um lugar que, cruzando com questões sociais, mais uma vez reduz as potências da população negra, sobretudo das mulheres negras, que não são vistas como business woman, não são respeitadas como business woman, coisas que refletem inclusive na forma como seus produtos são lidos, compreendidos e "comprados" pelo mercado.

E aí, pergunto, qual o papel do mundo da moda, das pessoas que constroem opinião sobre moda, que são referências na moda, em revisitar este lugar? Ressignificar este lugar.

Eu mesma levei cinco para acreditar que eu sou uma mulher de negócios! Uma multiempresária de moda e comunicação.

Empreendedora? Também! Somo sim nas estatísticas de mulheres negras que tem seu próprio CNPJ.

Será que estou nos dois lugares? Será que são coisas diferentes? Qual a diferença? Quem constroi narrativas que diferem empreendedores de empresários apequena quem? A partir de qual métrica?

Empreender, pra mim, é continuar sendo ativa e propositiva nos meus negócios, nas minhas empresas. Empresa, empresária. Pegaram? Uma empresária empreendedora? Ou melhor, uma multiempresária empreendedora. Gostei.

Sacaram a mudança de narrativa?

Porque sim, é uma narrativa que precisa mudar, porque é uma narrativa que apequena muitas pessoas, sobretudo mulheres negras. A resposta das pessoas a um post que fiz sobre isso recentemente no instagram mostra isso. Um engajamento fora da média.

Te convido a CLICAR AQUI e dar uma olhada sobretudo nos comentários. Ali, você vai encontrar a importância e potência de questionarmos e até negarmos narrativas preestabelecidas.