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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Só me apaixonei pela minha filha aos 5 anos e não fui menos mãe por isso'

Ana Paula Xongani e sua filha Ayo - Arquivo Pessoal
Ana Paula Xongani e sua filha Ayo Imagem: Arquivo Pessoal
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Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

12/05/2022 04h00

Bem, estamos no mês das mães e, pra mim, foi um mês superespecial, diferente, porque tive a oportunidade de, além das publis, tradicionais nessa época no meu trabalho de criadora de conteúdo, tive a oportunidade de elaborar muitas conversas sobre a minha maternidade. Circulei em podcasts, em eventos corporativos, em publicações. Cada uma querendo abordar a maternância de um lugar diferente.

E é sempre interessante demais a gente se escutar. Uma das coisas que mais me chamou atenção em me ouvir falar, em pensar sobre maternidade e que também chama muito a atenção das pessoas, é quando eu digo que me apaixonei pela minha filha depois de 5 anos.

A gente constrói uma ideia que romantiza a maternidade, e em muitos níveis gera culpa, de que quando chega aquela criança, automaticamente nasce o maior amor do mundo, que vamos automaticamente ficar inebriadas pelo cheirinho do bebê e tudo mais. De fato, é um amor muito grande. Mas, eu consigo separar algumas coisas.

Sempre amei a minha filha, desde quando a tive. Ela é uma filha querida, planejada, esperada e muito desejada. Mas amá-la não significava, àquela época, logo que ela chegou, ser "apaixonada" por ela.

Quando eu me projetei mãe, eu me projetei mãe de uma menina que trocasse ideia, de uma menina que se expressasse, talvez a partir da moda, já que minha mãe e eu atuamos de forma muito importante neste lugar. Que se vestisse, que dissesse o que gosta, uma menina que pudesse compartilhar de afeto, de cuidado, que a partilha fosse parte da nossa relação.

Eu decidi pela maternidade quando, antes, me tornei tia de uma menina muito especial que chama N'weti que hoje já é uma mulher de 18 anos, adulta. Me tornei tia dela quando ela tinha de 6 para 7 anos e me apaixonei por aquela relação. Então toda minha projeção da maternidade estava numa faixa etária que não era um neném.

E aí, quando eu pari a Ayo, descobri que eu não amava bebês, percebi que eu não tirava bebês dos colos das mães, que não era apaixonada pelo cheirinho. Que eu achava bonitinho, mas que não era a relação que eu mais curtia.

Então, quando minha filha fez cinco anos de idade, eu de fato me apaixonei por ela, pela personalidade dela, por ela ser uma pessoa muito legal, pelo jeito que ela se vestia, coisas que ela se interessava, pelo jeito que ela era me via por mim, pela companhia dela, pelas coisas que ela sabia, pelas coisas que ela aprendeu nesses últimos anos, pela forma que ela se relaciona com outras pessoas, outras crianças, com o mundo. E o mais legal foi entender que tudo isso é resultado da construção dos anos que antecederam estes, esperando essa fase chegar mesmo.

Hoje, ela tem 8 anos e eu sou completamente apaixonada por ela.

Também hoje, depois de negar, por exemplo, muitos discursos sobre maternidade, falo com tanto orgulho porque hoje eu amo e sou apaixonada por essa maternidade. Porque hoje eu tenho muito a trocar, muito a contar, tenho muito orgulho de ter uma relação de troca com a minha filha. Eu leio histórias pra ela, ela lê pra mim. Eu coloco ela pra dormir, ela me coloca também. A gente se cuida e se protege. Ela escolhe a minha roupa, eu escolho a dela. A gente troca ideia, sai pra passear juntas. Inclusive, fiz pela primeira vez no meu canal um vlog sobre isso. Convidei a minha filha para viajar comigo, porque a gente tem projetos juntas, projetos de passeios, de viagens, de trabalho também, como por exemplo o Histórias Com Vida, um programa de gastronomia e literatura infantil que a gente partilha. Bem lindinho.

E eu tô compartilhando tudo isso nesse mês das mães e nessa coluna, porque se eu sou uma profissional respeitada, assistida, admirada, é porque também sou uma mãe muito feliz. Mas que essa felicidade, ou essa plenitude, veio depois de um tempo.

Tô compartilhando essa história para que outras pessoas entendam que cada história de maternidade é única, para cada um as coisas acontecem de uma forma, e que tá tudo bem o tempo das coisas respeitar o tempo de vocês, desta relação. Pode ser que o seu momento ideal seja quando é bebê, um pouco depois, mais tarde.

Isso não te torna menos mãe, porque a gente é mãe em todas as fases, mas tá tranquilo você ter diferentes formas de conexão com essa maternidade ao longo de toda a vida que vai partilhar com seus rebentos.