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OPINIÃO

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Joice Hasselmann, violência doméstica nunca é coisa de 'mulher de malandro'

A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) nega ter sido vítima de violência doméstica por "não ter o perfil de mulher de malandro" - Reprodução/SBT News
A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) nega ter sido vítima de violência doméstica por 'não ter o perfil de mulher de malandro' Imagem: Reprodução/SBT News
Lilia Moritz Schwarcz

Lilia Moritz Schwarcz

*Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga, historiadora, professora da USP (Universidade de São Paulo) e de Princeton e curadora-adjunta para histórias e narrativas do Masp (Museu de Arte de São Paulo); é autora, com Flávio dos Santos Gomes e Jaime Lauriano, do recém-lançado "Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras" (ed. Companhia das Letras)

Especial para Universa

24/07/2021 14h49Atualizada em 26/07/2021 16h37

A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) ganhou de novo as manchetes de jornais. Desta vez, por conta de um episódio que se parece muito com violência doméstica: ela conta que acordou no fim de semana com o rosto cheio de fraturas e hematomas, sem se lembrar do que aconteceu. A parlamentar, no entanto, afirma ter sido vítima de um atentado.

Mas chama atenção o fato de Joice fazer questão de negar a possibilidade de violência doméstica. Além de afirmar que saiu do primeiro casamento por conta de abuso, ainda alega que seu marido, médico, seria o último a tomar tal tipo de atitude.

O fato é que está difícil de engolir a total nebulosa em que a situação é mantida por Joice. Prefiro deixar esse mistério para a polícia e para os jornalistas.

Gostaria, no entanto, de me dedicar à frase dita pela deputada: "Vamos combinar, não tenho o menor perfil de mulher de malandro". Trata-se de um provérbio preconceituoso e machista, mesmo tendo sido dito por uma mulher que, aliás, está sofrendo e merece nossa solidariedade.

O malandro, na literatura nacional, é aquele que não respeita lei ou direitos alheios. No limite, se acha acima da lei. Imagine então o que sobra para a sua mulher? O lugar da absoluta falta de autonomia.

O que há por detrás da frase da deputada? Em primeiro lugar, o suposto de que malandro é aquele que, além de fazer suas falcatruas, ainda bate na mulher. OK, vamos combinar que esse tipo de violência existe e que deve ser condenada e combatida — em 2020, o país registrou um chamado de emergência por violência doméstica por minuto, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Mas são muitos os malandros, certo? O suposto de fundo é que eles seriam de classes mais baixas. No entanto, mostram as pesquisas que o machismo é estrutural no Brasil. Está por toda parte. Aliás, há muito malandro em Brasília.

Joice mesma foi vítima de ataques machistas do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho de Jair Bolsonaro (sem partido), e de seus apoiadores, que associaram sua imagem à de uma porca de desenho animado. Recentemente, escrevi neste mesmo espaço em Universa sobre o machismo na CPI da Covid.

Gostaria, no entanto, de refletir sobre a segunda parte da declaração da deputada.

'Mulher de malandro' é aquela que deve 'naturalizar' esses atos? Vamos então defender a integridade de algumas de nós ironizando outras? A frase não é só machista como até ignorante. Nem ela, Joice, nem tampouco essa caricatura de 'mulher de malandro' à qual a deputada se refere, devem aceitar abuso.

Por sinal, Joice Hasselmann, se for o caso, deveria usar o incidente que ocorreu com ela e dar exemplo para todas as mulheres brasileiras. Hora de dizer "não" a qualquer tipo de violência. É preciso denunciar abusos psicológicos, morais, simbólicos e físicos. Esconder embaixo do tapete, camuflar e jogar a fantasia no colo alheio nos fará, todas, todos e todes, menos. Nunca mais.

Dito isso: toda a minha empatia para com o sofrimento da deputada, seja lá o que tenha ocorrido. Tolerância zero contra qualquer forma de violência!

*Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga, historiadora, professora da USP (Universidade de São Paulo) e de Princeton e curadora-adjunta para histórias e narrativas do Masp (Museu de Arte de São Paulo); é autora, com Flávio dos Santos Gomes e Jaime Lauriano, do recém-lançado "Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras" (ed. Companhia das Letras)

Como denunciar a violência doméstica

Em flagrantes de violência doméstica, ou seja, quando alguém está presenciando esse tipo de agressão, a Polícia Militar deve ser acionada pelo telefone 190.

O Ligue 180 é o canal criado para mulheres que estão passando por situações de violência. A Central de Atendimento à Mulher funciona em todo o país e também no exterior, 24 horas por dia. A ligação é gratuita. O Ligue 180 recebe denúncias, dá orientação de especialistas e encaminhamento para serviços de proteção e auxílio psicológico. Também é possível acionar esse serviço pelo Whatsapp. Neste caso, o telefone é (61) 99656-5008.

Os crimes de violência doméstica podem ser registrados em qualquer delegacia, caso não haja uma Delegacia da Mulher próxima à vítima. Em casos de risco à vida da mulher ou de seus familiares, uma medida protetiva pode ser solicitada pelo delegado de polícia, no momento do registro de ocorrência, ou diretamente à Justiça pela vítima ou sua advogada.

A vítima também pode buscar apoio nos núcleos de Atendimento à Mulher nas Defensorias Públicas, Centros de Referência em Assistência Social, Centros de Referência de Assistência em Saúde ou nas Casas da Mulher Brasileira. A unidade mais próxima da vítima pode ser localizada no site do governo de cada estado.