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Mulheres em cargos de liderança precisam se masculinizar?

Ser mulher no ambiente corporativo: muito mais desafios do que "equilibrar pratinhos" - iStock
Ser mulher no ambiente corporativo: muito mais desafios do que "equilibrar pratinhos" Imagem: iStock
Luiza Sahd

Luiza Sahd

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Colaboração para Universa

07/10/2019 04h00

Mulheres em posição de liderança frequentemente são comparadas a homens — e muitas das qualidades que as levam a esses cargos podem ser consideradas atributos masculinos. No imaginário coletivo, líderes são normalmente sujeitos arrojados, seguros de si, sóbrios, precavidos e extremamente racionais. Não sei se você também teve a sensação de que acabei de descrever... um cara.

Ainda que a nossa presença em universidades e no mercado de trabalho tenha crescido tanto última década, faltam modelos "tradicionais" de liderança feminina para inspirar nossos passos. Experimente visitar a sede de uma empresa multinacional e olhe ao seu redor: os chefes mais antigos são homens ou, de repente, mulheres que se inspiraram fortemente no jeito masculino de chefiar descrito acima para manter seus bons empregos.

As coisas não aconteceram desse jeito porque os funcionários são necessariamente mais eficientes do que as funcionárias. Na esteira de fortes mudanças sociais que ampliaram os direitos e a autonomia feminina, estamos testemunhando a primeira grande leva de mulheres conquistando posições de poder em proporções globais. Como quase tudo na vida, essa notícia é boa e ruim simultaneamente: agora, podemos inventar um jeito próprio de liderar. Por outro lado, inventar qualquer coisa é sempre mais difícil do que reproduzir modelos.

Ninguém precisa ser um prodígio para deduzir que as trabalhadoras acabam percorrendo caminhos mais tortuosos para triunfar profissionalmente do que seus pares varões. Antes de sonhar em conquistar um cargo executivo, por exemplo, a mulher precisa provar a si mesma, à sociedade aos recrutadores que suas responsabilidades profissionais serão compatíveis com a formação ou manutenção de uma família. Para muitas, o caminho é abdicar de formar uma família. Quem confia nos maridos para cuidar do lar em 2019? Eu adoraria, mas ainda não achei esse rapaz prendado (meninos, estou solteira e adoro trabalhar!).

Deboche à parte, ainda está para nascer o empregador que se preocupa pelo desempenho de um candidato que seja ou que pretenda ser pai. Se tudo der certo — e se a legislação trabalhista ajudar — a futura divisão de tarefas domésticas e afetivas pode fazer com que esse empregador preocupado com pais e mães de forma igualitária nasça mesmo.

Por enquanto, nossas colegas costumam viver soterradas por demandas estéticas, domésticas e familiares bem diferentes dos rapazes da firma. Palavra de quem tem um compromisso importante amanhã e acaba de lembrar que não fez as unhas: nunca faço manicure porque não me parece uma prioridade de vida ou um fator que interfira no meu desempenho -- mas seria uma gafe chegar num evento glamouroso "sem ter o cuidado de passar um esmalte".

Para muito além dos pequenos empecilhos de esmalte, escova no cabelo ou maquiagem, mulheres que emergem de um histórico de pobreza para abraçar carreiras ambiciosas precisam driblar o preconceito, as demandas da casa e do cuidado com a família (raramente atribuídas aos meninos) além da evidente falta de tempo para dedicar a si próprias antes de, finalmente, brilharem no mercado de trabalho. Muitas superam todos esses obstáculos e chegam lá. Como alguém ainda ousa questionar a habilidade dessas gladiadoras é a grande pergunta, mas o fato é que ainda ousam — e não é pouco.

Uma mulher que desafia todas as probabilidades e constrói uma carreira não deveria passar por tantas provações para, no auge profissional, ter que se comportar como se fosse um homem. Quando se é uma chefe mulher, qualquer atitude que possa evidenciar vulnerabilidades pessoais é ainda mais vexatória do que seria para um cara. O sacrifício da liderança feminina vai muito além da já batida culpa de precisar "equilibrar pratinhos": a cada ato profissional, lidamos com o risco de aparentar fraqueza.

Para quem passou por tantos filtros antes de conquistar o que sonhou, é natural e irônico que nosso último e pior inimigo seja a autocensura. Antes de temer as críticas de quem poderia apontar "fraquejadas" em nosso desempenho profissional, ainda podemos abraçar as soft skills — habilidades como dizer "não" sem ofender, fazer críticas sem atacar o colega, propor algo ousado sem parecer doido — como formas mais femininas (e por que não dizer agradáveis?) de liderar.

Nos últimos anos, as competências conhecidas como soft skills têm sido cada vez mais valorizadas e estimuladas pelos departamentos de Recursos Humanos em grandes empresas. Não parece coincidência que isso tenha acontecido no ápice da ascensão feminina às posições de gestão.

Enquanto todo mundo duvida do poder da sutileza, podemos colocar o modelo agressivo de liderança no bolso sutilmente.

Mulher sem Vergonha é um espaço em que mulheres poderosas expressam suas ideias, desejos e confiança sem nenhum tipo de constrangimento. Para inspirar uma vida livre de padrões e julgamentos.

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