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Mulher Sem Vergonha

Por que aos 40, 50, 60 anos a gente não poderia fazer o que sempre fez?

Madonna, 61, em sua performance no Billboard Music Awards 2019 - Kevin Mazur/Getty Images
Madonna, 61, em sua performance no Billboard Music Awards 2019 Imagem: Kevin Mazur/Getty Images
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora, tem 46 anos e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colaboração para Universa

30/09/2019 04h00

Eu devia ter uns 37 anos. Meu cabelo estava batendo no ombro e fui pintar em um salão do Rio de Janeiro. Estava tudo bem. Até que a cabeleireira, sem nenhuma má intenção, me disse: "bom você aproveitar o cabelo grande agora, né? Porque logo você não vai mais poder ter". Demorei um tempo para entender ao que ela se referia. Quando entendi, fiquei atônita e com vontade de chorar. Era isso. Eu estava entrando na era do: "não pode". A razão? Eu estava me aproximando dos 40 anos.
Sim, não faz o menor sentido. Com o passar dos anos, você fica mais consciente e esperta, deveria significar que você tem coragem de fazer mais coisas, não?

Faz dez anos que isso aconteceu. Agora, me aproximo dos 50. Meu cabelo não está comprido porque eu não quero (agora, que sabe ano que vem?). Mas foi ali, no salão de Botafogo, que decidi que iria envelhecer sem seguir nenhuma dessas regras. E que, ai, "deles" se tentassem me enquadrar!

Sim, existe essa violência que é as pessoas falarem para uma mulher que existe "idade" para usar uma certa roupa. "Idade para usar biquíni." É como se quisessem que a gente botasse uma burca. Se esperavam isso, vão ficar querendo.

Quando pensei "comigo não" há dez anos eu ainda não sabia que Madonna, hoje com 61 anos, viraria uma ídola mundial da luta contra o ageismo (preconceito contra idade) e nem conhecia esse termo. "Nunca ouse envelhecer. Isso é considerado um pecado", disse a cantora certa vez, em um discurso brilhante.
Madonna, e muitas mulheres do meu tempo, resolveram que iam ousar sim.

Me deixa orgulhosa ver mulheres da minha geração envelhecendo sendo maravilhosamente elas, como Alessandra Negrini, Marina Lima... são tantas! Vamos, sim, mudar as coisas. Que, inclusive, graças a nós, já estão bem melhores. O que queremos é muito simples, é apenas o direito de continuar sendo a gente mesma.

Sim, porque idade é assim. Você não acorda um dia e envelheceu. Isso vai acontecendo aos poucos. E, surpresa, você continua sendo a mesma pessoa! Sim, o seu gosto musical permanece o mesmo, assim como seus ídolos, escritores e amigos.

A diferença é que, assim, como seus ídolos, vocês não são mais jovens. E daí? As rugas vão aparecer. Mas já amadurecemos o suficiente para saber que o contrário do envelhecimento é a morte, certo?

E, pensa bem, que diferença prática uma ruga que não dá para esconder mesmo com make (e filtro de celular) vai fazer na sua vida? Nenhuma. Absolutamente nenhuma. Quanto menos você se preocupar com elas, as rugas, menos vão existir na sua vida. Sim, é só não ficar procurando, obcecadamente, por linhas de expressão e viver.

Uma das coisas que a gente aprende com o tempo é que existem muitas coisas importantes na vida. E que, citando Renato Russo, não temos, apesar de não sermos tão jovens, "tempo a perder".

Deixar de aproveitar um dia de praia de biquíni por paranoia com o corpo flácido? É com muito orgulho que digo que nenhuma das minhas amigas na faixa dos 50 (ou mais) cometeria uma insanidade dessas. Jamais.

Todas se aceitam. E o envelhecimento não ocupa nem 1% das nossas conversas. Claro, às vezes falamos de um creme, de voltar a malhar. Mas como qualquer mulher de 30.

Diz aí, as coisas estão ou não estão mudando? E, ah, viva as mulheres de mais de 50 de cabelo comprido. :-)

Mulher sem Vergonha é um espaço em que mulheres poderosas expressam suas ideias, desejos e confiança sem nenhum tipo de constrangimento. Para inspirar uma vida livre de padrões e julgamentos.

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