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Mulher Sem Vergonha

Me entendi lésbica na adolescência e meu maior obstáculo fui eu mesma

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
Ana Angélica Martins (Morango)

Ana Angélica Martins (Morango)

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colaboração para Universa

04/10/2019 04h00Atualizada em 11/10/2019 19h35

Minha avó, que hoje tem 83 anos de idade, sempre foi uma referência para mim. Além de ser uma das pessoas mais admiráveis que conheço, é bastante vaidosa, apesar de discreta.

Nascida e criada na fazenda, estudou só até a quarta série primária porque tinha que ajudar a cuidar da casa e dos irmãos menores, como tantas outras mulheres de sua geração. Não havia diálogo com os pais, havia hierarquia. Meu bisavô não admitia ser contestado, exigia ser obedecido. E a maior parte de suas restrições serviam para as quatro filhas mulheres; com os três filhos homens, ele era mais permissivo.

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Imagem: Arquivo Pessoal

Naquela época, era comum que os rapazes iniciassem suas vidas sexuais em prostíbulos. Às moças, era imposto o recato. Sexo antes das bodas era uma vergonha - para elas, apenas. A eles, sempre foram liberadas as transas antes e até fora do casamento.

Não era incomum que tivessem casos extraconjugais e até constituíssem outras famílias enquanto viviam com a primeira esposa. Meu bisavô não foi uma exceção. Meu avô, tampouco. As mulheres sempre sabiam, mas carregavam nas costas o dever de preservar o relacionamento.

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Autonomia, liberdade e empoderamento eram conceitos a léguas de distância naquele tempo e espaço. O que parece uma realidade de outro mundo, do século passado e de tantos séculos atrás, inacreditavelmente ainda reverbera. Mas isso está mudando.

Nunca existiram dois tipos de mulheres: as putas e as santas. O que havia era o interesse de segregar e limitar a atuação feminina. As revoluções políticas e sexuais que moldaram as estruturas atuais não foram um presente, mas uma conquista.

Não precisamos mais nos encaixar em padrões e ser isso ou aquilo. Podemos ser isso e aquilo. E mudar de ideia quando bem entendermos. Não há motivos para mantermos nossos desejos, sejam quais forem, em segredo.

Desde pequena eu me sentia diferente das outras meninas. Nunca admirei princesas e detestava cor-de-rosa, por exemplo. Nas brincadeiras de casinha, eu queria sempre ser o pai - que ficava lá do outro lado do quintal com os carrinhos, abrindo estradas no barro e cuidando da fazenda cheia de animais feitos de chuchu e manga.

Quem era a mãe tinha que ficar cuidando do bebê, varrendo a casa e fazendo comida. Só muito tempo depois entendi como a questão do machismo vai sendo impregnada na gente desde a infância. Por que o pai não poderia revezar as tarefas domésticas com a mãe? Por que a mãe não virava uma fazendeira e o pai, um chefe de cozinha? Aliás, por que sempre havia uma mãe e um pai e não um casal que simplesmente morasse junto e não tivesse filhos?! A ficha demora a cair.

A base da nossa educação, a formação dos nossos hábitos... Tudo é aprendido com a família. A tendência é reproduzirmos o que aprendemos.

O problema começa quando o que é ensinado não é compatível com quem verdadeiramente somos ou gostaríamos de ser. E começam as cobranças: "Arruma melhor o cabelo", "Senta igual mocinha", "E os namoradinhos?". A partir daí, entendi que não me encaixava nas expectativas que tinham de mim. Quem eu era, afinal?

Isso eu fui descobrindo devagarzinho, errando, acertando e sendo taxada como "estranha", "rebelde", "sapatona". Quem já sofreu esse tipo de bullying sabe que dói, mas a gente consegue dar a volta por cima quando abraça quem realmente é. "Sou, sim. Algum problema? Isso faz diferença aí na sua vida? Então um beijo, meu anjo."

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Claro que anos de conflitos externos e internos não se resolvem assim, magicamente. Tive problemas de autoimagem e autoestima, e o sexo já foi um grande tabu para mim.

Já tive vergonha do meu corpo e não me sentia nem um pouco atraente, sexy, desejável. Por todas essas inseguranças, tinha dificuldade de demonstrar interesse quando gostava de alguém. Um problema levava a outro e todos pareciam muito maiores e mais relevantes do que realmente eram.

Me entendi lésbica na adolescência, mas naquele período, há 20 anos, a internet era discada e ainda engatinhava. Eu também.

Sem muito acesso à informação, mergulhei em mim, nos resultados das minhas experiências pessoais, e nas histórias de vida dos amigos que enfrentavam questões semelhantes.

Entendi que não existe uma receita de bolo, uma solução que funcione para todo mundo. Descobri, olhando no espelho, que o meu maior obstáculo estava ali, de pé, olhando para mim. Decidimos fazer as pazes. E nos lembramos desse pacto todos os dias.

Mulher sem Vergonha é um espaço em que mulheres poderosas expressam suas ideias, desejos e confiança sem nenhum tipo de constrangimento. Para inspirar uma vida livre de padrões e julgamentos.

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