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Carro sem motorista e compra interativa: 5G vai impactar hábitos de consumo

Felipe Oliveira

Colaboração para Tilt, em São Paulo

12/08/2021 04h00

Imagine poder consultar e comprar algo em qualquer lugar sem precisar se preocupar com a lentidão da internet ou com o sinal ruim. Com o leilão do 5G cada vez mais perto de acontecer, a esperança de que esse tipo de preocupação acabe só cresce. Em meio a isso, surge uma curiosidade: como uma tecnologia que promete até 10 vezes mais velocidade de conexão mudará os nossos hábitos de consumo?

Bom, a evolução do 5G traz como diferencial não apenas a rapidez da internet, mas também outras revoluções que podem modificar a sociedade com a possibilidade de eletrônicos com inteligência artificial e cidades conectadas dominarem a nossa vida. Para tornar mais concreto esse futuro "universo do 5G", Tilt conversou com especialistas para listar quais serão os possíveis impactos da tecnologia em nossa forma de consumir produtos e serviços.

"Há uma grande expectativa geral com a chegada do 5G, como mais estabilidade e cobertura [de conexão de internet], a princípio. Ao falarmos de hábitos do consumidor, é importante ter em mente que já há uma profunda mudança em curso, que se potencializou principalmente após o início da pandemia [com mais pessoas conectadas]", destaca Alessandra Andrade, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e coordenadora do Conselho de Inovação da entidade.

1. Internet em mais lugares

A tecnologia mais rápida e estável do 5G poderá ser uma alternativa eficiente para fazer com que a internet chegue a mais pessoas. Nunca é demais lembrar que hoje nem o 4G funciona em todas as regiões do Brasil. No país, 28% dos domicílios não têm acesso à internet (fixa ou móvel), o que representa 20 milhões de famílias, de acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2019.

As expectativas são que o acesso à internet com o avanço do 5G seja menos excludente.

2. TVs e filmes

O streaming (transmissão online) já faz parte da vida de muita gente com acesso à internet. Com a evolução do 5G, a tendência é que a oferta de programas de televisão, música e plataformas de entretenimento se consolide ainda mais. A alta velocidade irá permitir mais qualidade de transmissão e menos problemas com travamentos durante a exibição dos conteúdos pela internet.

Se voltarmos um pouco no tempo, vamos lembrar que a chegada da internet como conhecemos hoje evoluiu, por exemplo, a forma como as pessoas consumiam música. Se antes era necessário comprar fitas e CDs, hoje não é preciso esperar horas para baixar diversas músicas no computador, no celular.

Ou seja, o impacto da velocidade do 5G deve trazer mais uma mudança na forma com que consumimos serviços de vídeo e música. Isso porque os consumidores poderão fazer streaming de vídeos em 4K, tecnologia de ultra definição de imagens, em qualquer lugar do mundo, o que significa que não será mais necessário baixar arquivos para acompanhar filmes. O acesso às plataformas como Netflix, Amazon Prime, Disney+, HBO Max e UOL Play, por exemplo, estará disponível a qualquer momento a uma velocidade rápida de transmissão.

"O streaming vai ficar muito mais amplo. Atualmente, a gente assiste normalmente em casa. Podendo assistir em qualquer lugar, com bastante tranquilidade e qualidade, a tendência é que isso amplie bastante", explica César Alexandre de Souza, doutor em administração e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (Universidade de São Paulo).

O docente, que pesquisa o impacto das tecnologias digitais nas empresas e na sociedade, pondera que isso, claro, vai depender da cobertura do 5G no país. "Se o projeto de disponibilizar a internet para todos de fato se concretizar, vai haver uma transformação grande para esses serviços de streaming", diz Souza.

3. Jogos e smartphones

Quem deve começar a pensar mais profundo sobre alternativas para conseguir atender a demanda dos consumidores são as fabricantes de consoles de videogames e computadores voltados a jogos. Isso porque a tecnologia de quinta geração deve permitir que os gamers joguem em qualquer lugar e em qualquer dispositivo, destaca o professor da USP.

Além disso, muitas pessoas já são atraídas atualmente por jogos exclusivos para celulares. O 5G deve fazer com que as fabricantes prestem ainda mais atenção nesses consumidores, avalia Souza.

Um grande fator que destaca o potencial do 5G no cenário de jogos online é que os gamers irão jogar com menos atraso entre um comando e outro, já que a tecnologia conta com menor latência (tempo de resposta entre um comando feito e sua execução). Essa característica também é importante para que eletrônicos com inteligência artificial possam se manter conectados ao mesmo tempo. Esse tempo menor de resposta permitirá até que carros andem sem motorista, por exemplo. É a deixa para o próximo tópico.

4. Automóveis e compras

A relação dos consumidores com os automóveis também pode mudar porque a conexão mais rápida e abrangente pode transformar os carros em uma grande plataforma de aplicativos. Sem contar a capacidade dos veículos se deslocarem sem a necessidade pessoas humanas no volante. O acesso à estabilidade da rede facilitará a vida dos sistemas de inteligência artificial que dependem disso para ter respostas autônomas.

O professor da USP acredita que o 5G vai facilitar a comunicação no trânsito como um todo. Alguns exemplos são: carros e semáforos que usam a IA para funcionar.

Outra melhoria envolve os assistentes virtuais de voz, que devem estar cada vez mais presentes, o que diminuirá o uso do telefone ao volante. Precisa de algo? Fale com seu veículo. "É uma grande oportunidade para o desenvolvimento de novas interfaces como a voz, interfaces utilizando Internet das Coisas [dispositivos eletrônicos conectados ao mesmo tempo)", diz Souza.

"À medida que as pessoas vão se acostumando com assistentes virtuais, muda o hábito de compra. Imagina a pessoa comprando de dentro do seu carro, enquanto dirige, apenas conversando com o assistente", acrescenta.

5. Lives e comércio online

A pandemia de covid-19 fez muita gente se acostumar como uma nova forma de assistir a shows, peças teatrais e outras formas de entretenimento: por meio das lives. Aproveitando esse sucesso, empresas começaram a usar mais os eventos de transmissão ao vivo para vender produtos, na chamada live commerce. Muitos deles contaram com um aliado tecnológico para isso: o QR Code, uma evolução do código de barras.

A tendência com a disseminação do 5G é que essa combinação se integre mais no cenário de consumo. O investimento nesse tipo de ação será parte da estratégia de mercado. "Pessoas comprando durante as lives podem crescer porque as pessoas vão poder assistir aos vídeos de qualquer lugar e interagir. Vai ser um excelente momento para quem gosta desse tipo de interação", destaca.

6. Interatividade na compra em lojas físicas

Quem pensa que as lojas físicas não serão afetadas pela chegada do 5G está completamente enganado. A velocidade da internet vai permitir que os consumidores tenham uma maior interatividade com aquilo que está sendo comercializado.

Você já deve ter assistido a algum filme ou desenho no qual um personagem utiliza um computador para decifrar as informações do inimigo — o Homem de Ferro é um grande exemplo. Claro, você não vai sair voando em um traje com superpoderes, mas poderá apontar seu smartphone para a porta de uma loja dentro de um shopping e ele irá exibir informações sobre promoções, objetos vendidos, etc.

"É possível que a gente utilize os smartphones para interagir com as lojas físicas. O consumidor entra no app da loja e 'filmando' consegue ver ofertas, origem dos produtos, a marca, etc. É uma coisa que até já existe, mas temos o limite da velocidade do acesso. Com o 5G isso pode ser ampliado", ressalta o docente.

Mas o comércio está preparado?

A resposta da coordenadora do Conselho de Inovação da ACSP, Alessandra Andrade, é que o crescimento do comércio online traz muitos desafios e incertezas, principalmente porque o consumidor está cada vez mais exigente. Contudo, ela diz que as empresas já estão atentas às possíveis mudanças.

"Muitos ecommerces já estão investindo no m-commerce [comércio via dispositivos móveis], no tempo de carregamento do site, na otimização das buscas, na logística e, claro, na experiência de compra", explica Andrade.

Ela acredita que o 5G irá ajudar a melhorar a infraestrutura e a comunicação dos processos de uma empresa, conectando pontos de distribuição com seus estoques, impactando em mais agilidade para entrega ou retirada de itens. O desafio, segundo a coordenadora, será avançar em práticas que já são importantes, como fortalecer os sistemas antifraude e contra vazamento de dados.

"As mudanças são inevitáveis e a pandemia só acelerou esse processo. (...) Atendimento integrado, poucos cliques, frete facilitado, formas de pagamento diferenciadas são situações que favorecem a experiência de compra e fidelizam o consumidor. É sobre tecnologia, mas também é sobre pessoas", conclui a coordenadora.