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Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Criptomoeda usada pela China ameaça domínio do dólar no comércio mundial?

Disrupção profunda: blockchain pode alterar uso histórico do dólar - Liam Ortiz/ Pixabay
Disrupção profunda: blockchain pode alterar uso histórico do dólar Imagem: Liam Ortiz/ Pixabay
Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

31/03/2021 04h00

Quando um fazendeiro em Hunan, interior da China, negocia a compra de sacas de soja com um agricultor no Pará, o faz em dólares americanos, ainda que nenhuma das duas pontas envolvidas na negociação poupe na moeda americana.

O mesmo vale para uma fábrica de carros na Turquia, por exemplo, que importa suas peças do Japão. Nada será acertado em ienes ou liras, mas (de novo) na referência de moeda utilizada nos Estados Unidos.

Muitas transferências internacionais, aliás, passam por bancos americanos, mesmo que a transação em nada envolva o país do América do Norte.

O fato de o comércio mundial girar em torno da "referência dólar" dá aos Estados Unidos enorme vantagem competitiva, já que este é o único país que pode controlar a emissão da "moeda internacional", bem como exercer políticas monetárias em torno dela —ora expansivas, ora austeras, a depender dos objetivos da vez.

O advento das criptomoedas, como o Bitcoin e Ethereum, tende a diminuir o poder dos bancos centrais e, consequentemente, dos Estados nacionais. Afinal, pode-se fazer comércio e ter a "liberdade de trocar dinheiro" (no jargão dos rebeldes do blockchain) sem a interferência de um burocrata, o que é bom e ruim.

O lado bom é que comprar (ou vender) deste modo é simples, seguro, rápido e (quase sempre) sem taxas. O lado ruim é que burocratas podem ser úteis em caso de especulação ou crise que afetem o valor de uma moeda. Bitcoin, como sabemos, tem o valor que se acredita que ele tenha. Não há uma única instituição a lhe dar lastro, a garantir seu poder de compra.

Há seis meses, a China, maior potência comercial do mundo, testa no mercado doméstico o "e-RMB" ou reminbi (nome da moeda chinesa) digital, emitido pelo Banco Central da China (chamado de Banco do Povo).

Trata-se de uma substituição simplíssima: ao invés de emitir papel, emite-se um código de computador. Naturalmente, com valor de face garantido pelo Tesouro de Pequim, tal qual as notas impressas em celulose com a imagem do timoneiro Mao.

Do ponto de vista técnico, é mais barato emitir dinheiro digital, é mais seguro de transacionar (esqueçam os carros fortes), é melhor para a saúde (dinheiro virtual não passa covid de mão em mão) e eleva a eficiência da economia. Afinal, simplifica-se também a coleta de impostos, o processamento de folha de pagamento nas empresas e toda gestão financeira.

Atualmente, seis províncias chinesas pagam salários a seus funcionários por e-RMB. Se quiserem, podem ir a um caixa eletrônico sacar o pagamento em papel o que, na China, seria uma inutilidade, já que a sociedade local vive à base de digital wallets há ao menos cinco anos. Muitas cidades promovem loterias que "dão dinheiro" a seus cidadãos, como forma de forçá-los a usar o e-RMB.

A tecnologia, como quase todas as outras inventadas pelo homem, tem grande potencial totalitário. Como a criptomoeda permite deixar gravada, em si, o caminho pelo qual passou, em tese seria possível saber o que cada cidadão faz com seu dinheiro.

Pequim afirma que assegurará o anonimato de seus usuários em transações de baixo valor. Mas admite usar features de rastreamento para combater lavagem de dinheiro, financiamento ao terror ou sonegação de impostos.

O pulo do gato —ou do boi, para fazer referência ao atual ano no zodíaco chinês— é que a criptomoeda chinesa, usada internacionalmente, permitirá que o vendedor de soja em Goiás e o comprador em Hubei negociem diretamente entre si, sem pagar taxas elevadas aos bancos e, mais importante, sem influência sobre o que Federal Reserve planeja para a cotação internacional do dólar.

Comércio baseado em criptomoeda, sabe-se, é mais rápido (compensação imediata), mais seguro (você não precisa mandar uma mercadoria sem ter certeza de que o dinheiro chegou ao banco) e mais econômico (tem menos taxas).

Estes fatores podem fazer a China tirar boa parte do protagonismo do dólar no mundo, ao menos nas transações entre ela, China, e o resto do mundo —o que não é pouco.

Mais do que isso, o exemplo chinês, se bem-sucedido, acelerará testes similares em curso no Japão, Turquia e Noruega, países que testam suas criptomoedas soberanas.

Não se profetiza aqui o fim do império do dólar, mas a face de George Washington, estampada na moeda americana, já não parece sorrir tão esplendidamente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL