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Opinião

Amores digitais: como identificar que vocês estão vivendo uma relação hoje?

Por conta das exigências profissionais ou de oportunidades acadêmicas e pela sorte dos aplicativos que criam amores à distância, muitos casais se veem obrigados a manter a relação à distância, um em cada país ou estado. Essa situação muitas vezes aflora a insegurança, aumenta as cobranças ou a carência e o ciúme.

O aumento da mobilidade pode assumir várias formas, desde os casais que passam a ter uma vida em estrutura de "encontro", por vezes morando na mesma cidade, mas com pouco tempo para o casal, até o distanciamento sistemático e repetitivo. Isso pode gerar alguns efeitos positivos como a percepção mais clara da saudade e da falta que o outro nos causa, bem como a valorização e intensificação dos momentos de encontro.

Contudo, o mais comum é que aconteçam reações adversas tais como:

  • O sentimento de injustiça combinada com abandono, atribuído ao cônjuge que se distancia mais;
  • Conversas que assumem como foco principal as ausências ou desencontros;
  • A intensificação de formas de controle, como exigências de "notificação" de posição e "relatórios" de vigilância.

Mas o principal efeito da perda substancial em uma vida comum, baseada em um cotidiano comum, é um declínio da intimidade e uma dispersão de projetos compartilhados.

A descoberta de que sobrevivemos sem o outro é um ganho importante, de autonomia e independência para cada qual, mas que colocará então, de forma mais aguda, quais sãos as razões e motivos para estar junto.

Há várias pequenas medidas paliativas.

  • Encarar, quando possível, que aquela distância é no fundo um sacrifício que ambos se impõem, portanto que ambos assumem, para que uma vida melhor possa ser colocada mais adiante. Isso estabelece um ponto de "retorno" e não faz da distância um meio de vida ela mesma. Como se a separação fosse uma longa viagem, da qual ambos retornarão com boas histórias para contar.
  • Estabelecer um prazo ou uma data para reconsiderar o estatuto do projeto que envolve ou que causa o distanciamento pode ser uma boa medida.
  • Não se intimidar com o sexo por Skype.
  • Abusar de mensagens triviais e às vezes irrelevantes sobre estados de ânimo e pequenas dificuldades ou ocasiões domésticas.
  • A reinvenção da escrita e da troca de cartas é um dos aspectos curiosamente interessantes deste novo modo de vida. Lembremos que antes do amor romântico, do século XVIII ou XIX, existia o amor trovadoresco e o amor provençal nas quais as cartas eram um veículo fundamental da descoberta de afetos, sentimentos e do compartilhamento criativo do amor.

Mas há alguns combinados que podem ser estabelecidos entre o casal para tentar manter a cumplicidade e a presença de um na vida do outro.

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  • Não despedir-se em estado de desagravo ou entrevero.
  • Fazer com que o tempo junto, que se tornará mais escasso, se intensifique e seja de melhor qualidade experiencial.
  • Não usar todo o tempo do reencontro para discutir os problemas derivados da distância.
  • Considerar que a intimidade é um forte indutor e condicionante do sexo, mas também que o sexo é um potente indutor e condicionante da intimidade.

Há muitos casais atualmente, principalmente quando trata-se do segundo ou terceiro casamento, que optam por não morarem juntos. O conflito se dá quando um deles têm essa necessidade e o outro não. Esta será sempre uma negociação difícil. Cada um tem graus e momentos específicos de "suportabilidade do outro". Outra pessoa é sempre outra vida dentro da nossa e isso representa confusão.

Há vários motivos para desejar a vida em separado, alguns melhores que outros. Quando se trata apenas de preservar a funcionalidade e a ordem que se construiu para si, tendo a desconfiar que haverá um preço elevado em dividir os "espaços". Com diz o filósofo esloveno Slavoj Zizek, podemos optar pelo chocolate sem gordura, podemos inventar o chocolate sem açúcar, podemos até preferir o chocolate sem cacau e com uma forma de produção menos industrializada e mais orgânica. Imaginemos um chocolate feito de brócolis e pepino processado. Bom, em algum momento temos que considerar que vamos cruzar a linha que separa o que é um chocolate de alguma outra coisa. Devemos aceitar que o que gostamos no chocolate é precisamente o seu coeficiente "obsceno" de gordura e açúcar.

Café sem cafeína, guerra sem baixas, paixão sem risco podem ser ilusões que criamos para imaginar uma vida sem perdas, feita de acordos ganha-ganha, permanentemente.

Relacionamento sem intimidade, sem mistura, com espaços e territórios totalmente definidos, com regras e contratos bem feitos e com projetos reduzidos a objetivos não é bem um relacionamento, é a administração compartilhada de um condomínio.

Por outro lado, há pessoas que vivem em casas separadas e se veem menos do que outros, mas têm relações absolutamente intensas e qualitativamente ricas. Mas isso em geral significa que a distância e a renúncia ao território comum não estão baseadas em táticas de defesa contra o Outro e sua irredutível intrusividade de gostos, de costumes e de diferenças, em suma, sua "estrangeiridade" que ... no começo, nos fez amá-lo.

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Respondendo a pergunta: aquele que demanda distância deve oferece algo em troca, em termos de real intimidade. Caso contrário: café sem cafeína, chocolate sem gordura ....

Quando se tem condições para fazer experiências vale a pena examinar as dificuldades que se colocam no caminho.

Tem medo de ter a privacidade invadida? Experimente uma viagem mais longa com seu parceiro.

Tem medo que a rotina dilua o desejo? Experimente passar uma "temporada de ensaio" da casa de um ou do outro.

Tem medo que as famílias respectivas se intrometam demais? Crie zonas de exclusão.

Muitas vezes o temor de morar junto se apoia na fantasia de que o outro nos assediará como um "stalker" adentrando nossa vida de modo "grudento" e "excessivo". E dizer "vai um pouco mais para lá" é uma das coisas mais difíceis de dizer para alguém de quem se gosta. Contudo, isso é uma prova mesma que deve ser enfrentada pelos que precisam de seus "espaços inegociáveis".

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A troca aqui é bastante arriscada e frequentemente leva uma relação ao óbito: vamos ver quem precisa menos de quem? Dificilmente esta negociação será feita a céu aberto e com palavras ostensivas. Mas isso não significa que ela não acontecerá: entre silêncios, afastamentos e, no melhor dos casos ... retornos.

O casamento como união heterossexual compulsória, tendente a filhos, tornou-se apenas uma entre outras modalidades de vida comum. Felizmente. Mas os nossos desejos de emancipação e autonomia nem sempre querem pagar a conta de indeterminação e anomia que vem junto com este processo.

A reputabilidade do casamento ainda é grande, justamente porque ele significa que você venceu mais barreiras do que antes e está arriscando o pescoço mais do que outros. Isso tem que ver com um valor que cresce a medida que avançamos etariamente: o controle social como fator de segurança subjetiva.

O casamento é ainda um grande valor, entre outras coisas, porque é complicado desfazê-lo, e quanto mais pessoas, famílias e bens envolvidos, pior fica.

Clinicamente desconfio dos que dizem "somos casados porque moramos juntos e nos sentimos casados". Se fosse a mesma coisa não teriam nomes diferentes. Nem sempre e não para todos, mas subjetivamente percebe-se que faz diferença uma união estável ou um casamento, como faz diferença uma pegação ou uma ficada, um namoro de um noivado.

Dar um nome é como encontrar um diagnóstico, o que não significa que teremos o antídoto para a coisa.

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Como psicanalista me apego a palavras. Entendo que atos como mudar de nome, selar atos simbólicos e jurídicos, fazer reconhecer sua relação pelos outros, comprometer bens e famílias são uma espécie de "perversão consentida". Uma perversão que nos faz tratar pessoas como coisas, sobre as quais nos responsabilizamos em pontos futuros improváveis, por meio de um contrato improvável.

Mas, por outro lado, uma relação "saudável" até onde podemos usar esta metáfora, depende cada vez menos do nome que encontramos para ela. Ela se mede cada vez mais pela sua capacidade de se reconstituir e cada vez menos pela sua estabilidade intrínseca, supostamente garantida pela vida coercitivamente próxima, com nomes claros e distintos com suas garantias sempre tão precárias.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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