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OPINIÃO

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Acabou? Psicanálise mostra o processo mental para marcar fim da pandemia

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Imagem: Pixabay
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Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

26/11/2021 04h00

Muitos estão se perguntando quando exatamente termina a pandemia, como que a demandar um marco temporal simbólico para esta longa travessia que estamos ainda a realizar.

O mais certo seria responder com uma pergunta: para ser quando termina é preciso decidir onde começa.

Diga-me então quando começou a pandemia? Quando tivemos as primeiras notícias de Wuhan? Ou quando o primeiro caso, de um brasileiro em visita à Itália, regressou ao Brasil? Quanto tivemos o primeiro óbito? Quando a curva de casos chegou a um determinado patamar epidemiológico que, tecnicamente, permitiu dizer que "entramos em estado sanitário de epidemia"?

A pergunta pode ser ociosa, mas ela é de grande importância psíquica quando consideramos as vidas contemporâneas cada vez mais regradas pela aceleração, pelo cansaço e pela estrutura do cotidiano em forma de listas.

Uma civilização concentrada cada vez mais em metas, objetivos e resultados tangíveis, os únicos que podem ser bem "precificados", e que respeita cada vez menos os processos e modos pelos quais as coisas são feitas — por exemplo "com amor e carinho" ou "com ou sem emoção"— será uma presa fácil para a obsessão de terminar.

Cada término é um "ponto de entrega", um pequeno resultado e, logo, uma diminuta satisfação. E de grama em grama de satisfação vamos enganando uma vida que, olhada em seu conjunto e totalidade, pode ser insuportável. Como aquela imagem que usamos tantas vezes ao longo da pandemia de covid-19.

Não pergunte quanto tempo falta, pense um dia depois do outro, uma hora a viagem termina.

Mas nem sempre o término equivale ao fim, assim como há amores que terminam, mas não acabam.

E o mais incrível é que a gente só os percebe quando vemos o outro começando outro amor ou concluindo-o em um ato público de reconhecimento.

Como aquele analisante que suspira ao dizer: quando vi que ela mudou o status dela no Facebook, senti que só agora tinha realmente terminado.

Cada um destes termos "encerrativos" parece ter um antônimo à altura: "minha sessão começou na sala de espera pois estava pensando que ..." ou também quando os namorados têm que decidir, retrospectivamente, "quando começou". No primeiro beijo, na primeira troca de WhatsApp, na primeira marcada no Insta? Quando ficamos naquela festa ou quando decidimos que iríamos "fechar" entre nós dois "na exclusividade" ... por hora.

O psicanalista Jacques Lacan tentou apreender esta lógica temporal subjetiva separando-a da lógica temporal cronológica do mundo das coisas.

Aliás, um problema central para a saúde mental coletiva e individual decorre de nos comportarmos em desrespeito franco a nossa lógica temporal subjetiva. É o caso óbvio do luto, que quando é apressado geralmente evolui para processo depressivos, mas também é o que vemos nas ansiedades crônicas e agudas, quando o sujeito se estabelece em anterioridade e desligamento diante da temporalidade do Outro.

Apressar coisas faz a gente produzir mais, apressar pessoas pode redundar em quebrar a subjetividade. Isso vale para os processos de lentificação, adiamento ou procrastinação, ou seja, o tempo lógico do sujeito não é "o tempo que você acha ideal".

Aprendemos com a neurose obsessiva que aquela pessoa que precisa "só de mais cinco minutos" ou de "só mais duas semanas para entregar a tal tese" provavelmente desperdiçará todo tempo que lhe dermos a mais e se afundará em nossos prazos.

Finalizar tem que ver com fim. Muitos precisam jogar vídeo game para ter a sensação de que existem processos com início, meio e fim, tipo Gênesis inicial e Apocalipse final, para sentir aquela experiência irresistível de júbilo com o completamento da tarefa. Aqui temos um tempo irreversível e contínuo, em estrutura de reta.

Terminus era um deus grego protetor dos limites, representado a princípio sob a forma de um simples bloco de pedra ao que, depois, acrescentava-se somente cabeça e braços. Portanto, o término é um conceito extensional, definido pela ultrapassagem para outra coisa, outro lugar, outro território.

Terminus marca o limite entre eu e o outro, entre o domínio da vida e o da morte, o dos deuses e o dos homens.

Finis também remete a limite e fronteira, mas acrescenta a isso a noção de cúmulo, apogeu, de objetivo ou meta e ainda de objetivo ou alvo.

Daí que finitimus refira-se a vizinho, semelhante ou misturado com. Portanto, a noção de fim parece incluir a de término, acrescentando ao seu conceito espacial a dimensão temporal.

Temos então a reta infinita do espaço e do tempo natural das coisas, cruzada com finitude do tempo humano e das suas relações.

Finito se opõe a infinito. Se admitimos que entre dois pontos, ou dois territórios há sempre infinitos pontos intermediários podemos perceber como a cada vez que finalizamos algo é como se cruzássemos um infinito.

Há um infinito dentro de cada amor, de cada encontro, de cada sonho (aliás como dizia Freud), assim como há também um ponto não enumerável, um ponto não discernível, não interpretável (ao qual Freud chamava de umbigo do sonho).

Por isso verdadeiros amores, assim como verdadeiros lutos, são finitos e também são infinitos. Para eles existe o cálculo diferencial e integral.

Acabar, por sua vez, procede do latim caput, cabeça, ou seja, parte final que permitia o acabamento de uma escultura.

Caput é cabeça, mas também o que representa uma pessoa ou indivíduo. Pode ser o que manda ou a parte superior de um objeto, como uma montanha, a parte principal ou essencial de algo.

Aqui se trata de fechar um círculo e delimitar um conjunto. Quando digo que "está tudo acabado entre nós", quero dizer que a história se encerra como uma totalidade no tempo e no espaço mas também que ela pode ser comparada com outras histórias enquanto produto de uma fabricação humana.

Quando se constrói uma casa existe a fase do acabamento, ou seja, ela já é uma casa, está habitável e funcional, é possível ver suas fronteiras com outras moradias, mas ela ainda não está integralizada como uma unidade.

O círculo é a melhor figura para expressar este conceito tanto porque ele compreende limites e fronteiras, com o que está dentro ou fora, quanto porque ele é produzido a partir de um único ponto equidistante do perímetro e ainda porque o perímetro não apresenta descontinuidades.

Isso está em jogo também na imprecação "vou acabar com você", no sentido de concluir sua extensão e seu ser em uma caixa, conjunto ou continente.

Finalmente, a noção de conclusão é mais ampla e parece reunir todas as anteriores dentro de si. Ela advém de concludo, ou seja, encerrar, enclausurar, fechar, conter. Remete na retórica a parte final do discurso e na teoria da guerra ao cerco que se ergue contra uma cidade.

Concluir é a ação de passar das premissas para as consequências, ou seja, não aponta apenas para a infinitude possível de suposições (terminus), nem para a quantidade enumerável de evidências (finis), ou para a unidade harmônica do conjunto (caput) mas para o fato de que existe uma verdade em curso no processo da qual podemos enunciar, ao menos um aspecto.

Para Lacan, o momento subjetivo de conclusão incorpora o fim como um ponto (como se diz, o ponto final), o acabamento do tempo de compreensão (como as reticências que permitem imaginar sempre um término mais perfeito ainda).

Mas no momento de conclusão há sempre um parêntesis, uma dúvida que respeita o temor de encerramento diante de qualquer juízo relevante.

Por isso, a melhor representação desta forma temporal é a espiral. Quando olhada verticalmente a espiral se apresenta como uma sucessão de andares descontínuos, mas quando recuamos nossa perspectiva percebemos que ela é formada por um contínuo submetido a uma torção.

São saltos que chamam a noção de decisão. Quando um processo humano de trabalho, desejo ou linguagem chega ao fim? Quando é a hora de mudar de emprego ou de empresa? Isso não acontece sem este hiato ou esta escansão pela qual sentimos que demos um salto, quando por outro lado parece apenas a continuação de uma acumulação gradual, assim como o copo que transborda quando colocamos nele uma gota a mais. Quando é a hora de casar e quando é a hora de separar? Quando ter filhos ou quando mudar de casa?

Tenho observado as múltiplas montagens desta constelação de fins, términos, acabamentos e conclusões quando se trata deste momento de saída da covid.

Alguns decidem-se precipitadamente por si mesmos, outros permanecem petrificados a espera da libertação, outros ainda estão confusos no meio desta combinação de ordens médicas, cuidados sanitários e decisões éticas.

Poucos percebem que a conclusão da pandemia, ainda que seja a da sua versão brasileira, depende de um gesto simbólico e não se identifica absolutamente com as disciplinas protetivas, que vem permanecer ainda por longo tempo, mas que adquirem cada vez mais um estatuto contingente e adaptado às exigências diferenciais de cuidado consigo e com os nossos próximos.

O fim lógico é coletivo. Sem deixar de ser individual na sua conclusão, ele exige certos marcos simbólicos, como os terminus gregos, mas também comemoração e reinício.

Ele não precisa ser uma nova era de liberdade gratuita, mas pode reter pelo menos um pouco do valor que adquirimos por meio da liberdade perdida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL