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Blog do Dunker

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Faz sentido acreditar que a genética explica nossas emoções e até o amor?

Schäferle/ Pixabay
Imagem: Schäferle/ Pixabay
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

07/05/2021 04h00

O livro de Susan McKinnon "Genética Neoliberal: mitos e moralidades", recém-editado pela Ubu, tem um título que talvez mereça alguns ajustes para sua recepção ao público brasileiro. A começar pelo fato de que não se trata de um livro de economia, mas de uma crítica apoiada pela antropologia do que se poderia chamar "ideologia genética".

Seu alvo é a generalização dos argumentos genéticos para explicar desde a escolha de parceiros amorosos até o sucesso profissional. A genética neoliberal é uma espécie de acomodação semicientífica de conceitos e discursos derivados da teoria da evolução darwiniana, mas aplicados de forma inconsequente, do ponto de vista epistemológico e perigosa do ponto de vista ético-político.

Um bom exemplo disso é a psicoterapia do parentesco evolucionista que envolve comparar as situações de vida ancestrais da espécie humana com as condições reais da forma de vida daquela pessoa e em seguida promover "ajustes adaptativos".

Steven Pinker é um grande exemplo desta espécie de divulgação prática da teoria da Darwin, para quem aqueles que se opõem às explicações genéticas são simplesmente lunáticos, loucos, delirantes que ainda sofrem dos "disparates românticos".

O livro chega em boa hora, quando discutimos a importância da ciência, mas também das "parasitagens ideológicas" das ciências, incluindo aí o que venho chamando de fake news científicas. Neste caso, frequentemente passamos de conceitos sólidos e demonstrações consensuais de aspiração universalista para aplicações erráticas e insólitas. Ao final somos confrontados com o dilema retórico: mas afinal, você está com Darwin ou não?

Sim, estou com Darwin, não só o de "A Origem das Espécies", quanto com o autor de "A Expressão das Emoções em Homens e Animais", fiz meu mestrado em psicologia comparada e animal e estudei a fundo os argumentos da etologia.

Mas já no início dos anos 1990 estudávamos os desastres e imperícias da sociobiologia de Edward Wilson e a sistemática tentação de atribuir a genética um papel de determinação causal direta de comportamentos.

Como mostrou Stephen Jay Gould, a história do darwinismo —desde o retardo da divulgação de seus achados iniciais até a incorporação alemã por Huxley e a incorporação francesa pelos positivistas e spencerianos— é o protótipo da ideologização de uma ideia quando ela cruza desavisadamente a linha que separa as ciências naturais das ciências humanas.

Um exemplo básico. Já que o genoma humano é uno seria justo imaginar que exista uma espécie de "mentalidade central" (core mindset) subjacente à diversidade da cultura humana e que, portanto, as relações de parentesco e todas as relações sociais são resultado de cálculos genéticos.

O raciocínio consiste em distribuir numa reta real um ponto chamado natureza e outro chamado cultura, depois que você opôs o inato ao adquirido, o que vem de fábrica e o que colocamos em cima como acessórios, o que é o hardware de nosso computador, sobre o qual se apoia o software, tudo fica fácil de explicar. Uma mistura de ambos, certamente trará para toda reta o famoso "componente genético".

Nem sempre se consegue explicar exatamente o ciclo desenvolvimental pelo qual passamos da produção de proteínas, que é o que os genes fazem (além de se relacionar com outros genes), para fenótipos (tipos aparenciais de organismos) e destes para reflexos, comportamentos e esquemas de ação. Neste espaço do "ainda não explicado" intervém a hipótese genética, a ser demonstrada pela detecção exata do gene responsável.

Em meus cursos de psicologia comparada estudávamos a exaustão que a função nunca deve ser confundida com a causa. A função tem que ver com a evolução da espécie e sua história filogenética, a causa por interferir no desenvolvimento ontogenético, ou seja, da história daquele espécime.

Mas agora, noções elementares parecem ter sido suspensas e temos que conviver, abertamente, com genes da fidelidade, do altruísmo, da formação de grupos, genes que nos predispõem a brincadeiras, que retribuem bondade com bondade, genes da submissão, da ambição e da competitividade, do macho traído, da ajuda a parentes, da resistência a papéis sociais.

Outro erro básico é tentar humanizar os animais lendo suas funções e causas como se fossem sempre análogas ou homólogas às nossas.

Apenas para nos mantermos nos exemplos recolhidos por McKinnon, existiria genes que levam um chimpanzé a dar 60 gramas de carne para seu irmão (e não mais que isso), genes que aconselham os macacos a amarem outros macacos que mamaram nos seios de suas mães, genes que fazem com que uma criança assassinasse sua irmã recém-nascida, genes que fazem uma jovem de quinze anos querer cuidar de um bebê e o soberano e problemático gene que faz com que um macho fecunde (ou queira fecundar) todas as fêmeas.

Quando aprendi genética evolutiva os genes eram apenas sequências de nucleotídeos dispostos em forma helicoidal, que reproduziam e continham a regras de ação sobre moléculas.

Ilustração - Evolução teoria evolucionismo darwinismo - Gerd Altmann/ Pixabay - Gerd Altmann/ Pixabay
Imagem: Gerd Altmann/ Pixabay

Hoje eles se tornaram "quase pessoas" que têm ímpetos como ambição ou competitividade e sentimentos como vergonha ou orgulho. Hoje eles possuem "perspectivas e "pontos de vista"; "querem" e "fazem valer sua vontade", "calculam", "controlam", "selecionam", "falam" conosco e "se disseminam".

A seleção natural era um processo de gigantescas proporções temporais envolvendo sistemas ambientais, eras geológicas, mudanças climáticas, mudanças imprevisíveis nas relações entre espécie.

Aprendi que o ponto central desta história era a diversidade e a contingência.

Hoje, isso tudo parece ter ficado mais simples e ela passou a ser:

(...) concebida como "titereira", "legisladora", "programadora cega" e engenheira que "projeta" organismos, órgãos mentais e adaptações cujo propósito é maximizar a proliferação dos genes. Como administradora final da produtividade genética, a "seleção natural se encarrega do pensamento", tem "metas" e "estratégias", "faz valer sua vontade" e "executa suas políticas". A seleção natural possui tanto desejos quanto a força para realizá-los: ela "quer" e "faz com que" os humanos façam certas coisas - como, por exemplo, serem "bondosos com seus irmãos", mas apenas "aparentarem ser bondosos" com amigos."

Os argumentos de McKinnon para mostrar como a ascensão do discurso genético são congruentes com a ascensão do neoliberalismo, são curiosamente análogos aos que desenvolvemos, no interior do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, para mostrar como o neoliberalismo desenvolveu uma espécie de política global para fazer a gestão do sofrimento humano, dobrando-o segundo uma única lei, uma única forma de entender economia, uma única maneira de fazer ciência e justificar conhecimento.

Penso que uma parte da indignação das pessoas comuns com a ciência e com a universidade, consequentemente seu engajamento, tantas vezes reativo ao negacionismo, que nos afeta tão brutalmente no enfrentamento da covid-19, decorre do uso excessivo da ciência para justificar políticas, notadamente quando se trata de economia.

Steven Pinker, sociobiólogos e psicólogos evolutivos perdem a razão quando extrapolam a aplicação do darwinismo desconhecendo seus limites e introduzindo um finalismo onde tudo está a serviço da proliferação de genes.

As emoções, por exemplo, são invenções genéticas a serviço da perpetuação dos genes, pois "nossos objetivos são subobjetivos do supremo objetivo dos genes, replicar-se".

O amor e a amizade não passam de "garantias de crédito".

A compreensão é "só uma recomendação de investimento bastante disfarçada".

Cuidar bem dos próprios filhos, no fim das contas, é uma forma muito perspicaz de organização de portifólio.

A compaixão é apenas um outro nome para "nossa melhor forma de pechincha".

Os genes estão orientados para a "produção de resultados" na forma do comportamento apropriado.

Observemos como o vocabulário retórico deste tipo de ciência vai importando cada vez mais significantes da economia: investimento, pechincha, portfólio, crédito, produção.

Mas será que é a economia que justifica este entendimento da teoria da evolução ou é a psicologia evolutiva que está sendo usada para justificar e universalizar o neoliberalismo como nossa verdade genética última?

Contudo, o mais curioso nesta generalização ideológica é que elevado à condição de uma máquina que tem intenções desconhecidas da consciência individual, capaz de veicular interesses desconhecidos dos agentes sobre os quais incide, que explica quase tudo e especialmente nossas relações amorosas e emoções, que apela para a demonstração futura das hipóteses levantadas, uma genética deste tipo assemelha-se em tudo ao inconsciente.

Não ao inconsciente freudiano, mas à sua popularização discursiva, que foi tão pujante justamente antes da entrada do neoliberalismo em cena.

Freud chamaria esta forma pré-psicanalítica de inconsciente de "inconsciência" ou "inconsciente descritivo", bem exemplificado aqui:

Os humanos pensam, decidem e escolhem, resolvem problemas e pesam custos e benefícios da mesma forma que suas glândulas sudoríparas controlam a regulação térmica: sem precisar estar conscientes do processo."

Isso explicaria, aliás porque tal psicologia evolutiva precisa derrogar a psicanálise. Afinal, Freud leitor de Darwin, formado na biologia evolucionista de Haeckel e Brücke, atravessado por teses sobre a vida e sua seleção natural, teve que ser evacuado das ciências, para que esta nova ciência psicológica emergisse.

Ou seja, nos dois casos, tanto o da psicanálise como teoria social generalizada quanto na psicologia da evolução sofremos com uma espécie de excesso de inconsciente e não com a sua ausência.

Este inconsciente subterrâneo, arquivo morto infinito de comportamentos e conteúdos históricos foi justamente o objeto da crítica de Lacan. Ou seja, o excesso de inconsciente na ideologia do neoliberalismo tem por condição que se exclua justamente o conceito correto e rigoroso de inconsciente, assim como o uso da genética como força misteriosa que temos que aceitar, ainda que suas razões sejam opacas, que temos que utilizar, ainda que seus resultados sejam pífios, da mesma forma que a "mão invisível" de Adam Smith.

As políticas de austeridade, a redução do Estado, a financeirização da economia, a acumulação flexível, o endividamento generalizado, com o rígido controle contábil e monetário do governo, o egoísmo da luta de todos contra todos, tudo isso que temos visto produzir mais pobreza e desigualdade social, deveria ser aceito porque não há alternativa aos olhos da ciência?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL