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André Barcinski

Filme-concerto de Nils Frahm é um dos grandes eventos musicais do ano

O músico Nils Frahm                          - Divulgação
O músico Nils Frahm Imagem: Divulgação
André Barcinski

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da ?Folha de S. Paulo?. Escreveu sete livros, incluindo ?Barulho? (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV ?Zé do Caixão? (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário ?Maldito? (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental ?História Secreta do Pop Brasileiro?.

Colunista do UOL

01/12/2020 06h00

Resumo da notícia

  • No dia 3/12, a plataforma MUBI estreia "Tripping With Nils Frahm", um extraordinário filme-concerto do pianista alemão Nils Frahm

Quinta-feira, 3 de dezembro, a plataforma de streaming MUBI começa a exibir o filme-concerto "Tripping With Nils Frahm. No mesmo dia, chegam às lojas (alguém ainda se lembra delas?) e aos serviços de streaming o disco com a gravação do concerto.

Filmado em quatro noites no lendário Funkhaus, em Berlim, em dezembro de 2018, "Tripping With Nils Frahm" é um deleite para olhos e ouvidos. Veja o trailer:

No palco do Funkhaus, cercado pelo público, Frahm pilota, sozinho, uma verdadeira usina de som. São pianos, sintetizadores, órgãos, baterias eletrônicas, mesas de mixagem e pedais de efeitos, com os quais ele cria sons que misturam o erudito e o eletrônico, formando uma música arrebatadora, cheia de texturas e atmosferas.

É difícil classificar a música de Nils Frahm. Esse alemão de 38 anos lançou seu primeiro disco em 2005 e é presença constante nos maiores festivais de jazz e música experimental do mundo. Felizmente, seus discos não sofrem da "cabecice" e ortodoxia que costumam afastar o grande público de uma música mais ousada e "diferente", mas são experiências sonoras empolgantes, que têm atraído um público jovem e fãs de música eletrônica.

Hollywood também está batendo à porta de Frahm: algumas de suas músicas foram usadas na trilha da ficção-científica "Ad Astra" (2019), estrelada por Brad Pitt. Pitt gostou tanto do trabalho de Frahm que foi um dos produtores executivos de "Tripping With Nils Frahm".

De Berlim, onde vive e tem seu estúdio, Frahm falou comigo sobre o disco/filme. Contou que o projeto foi resultado de dois anos de preparação e ensaios antes da turnê, que começou em janeiro de 2018 e se estendeu até o fim de 2019, totalizando 180 concertos.

Nos concertos, Frahm parte de um set list fixo, mas se aventura em longas improvisações: "Tenho algumas músicas definidas, mas elas têm trechos com ambiências e atmosferas que me permitem viajar nelas". O nome do filme, "Viajando com Nils Frahm", não deixa dúvidas sobre o caráter exploratório da obra.

Veja aqui uma das canções do filme, "Fundamental Values":

No palco, Frahm está sozinho, mas isso não quer dizer que seus shows são simples. Somando técnicos de som, luz e montadores, sua equipe na estrada chega a 11 pessoas. "Meu show é baseado na qualidade do som, por isso tomamos um cuidado extremo com a montagem em cada lugar que visitamos".

Frahm usa uma analogia interessante para explicar sua filosofia em relação à busca obsessiva pelo som perfeito: "Imagine que você precisa pegar água num rio e levá-lo até uma vila. Nosso trabalho é não deixar que nenhuma gota se perca no caminho".

"Às vezes, chegamos a uma sala de concertos e, durante a passagem de som, descobrimos que uma determinada frequência de um determinado sintetizador faz vibrar uma lâmpada a 20 metros de altura, e isso causa um ruído chato", contra o músico. "Um de nossos técnicos é um verdadeiro MacGyver, ele sabe exatamente o que fazer para resolver a situação".

Antes de começar sua carreira como instrumentista, Frahm já era obcecado com a qualidade de som. Ele produziu bandas de rock e pop e trabalhou como consultor na prensagem e masterização de discos de vinil.

Perguntei como um músico tão preocupado com a perfeição sonora se sente ao saber que boa parte de seus fãs o ouvem em headphones vagabundos e telefones celulares: "Isso, hoje, é inevitável", ele diz. "Eu tento aprender com as pessoas que estão criando a moderna música pop. Fico espantado como alguém pode trabalhar apenas em um computador e fazer canções que são ouvidas centenas de milhões de vezes. É uma maneira de trabalho muito diferente da minha, mas acho fascinante. Claro que só ouço essas canções no laptop ou no Youtube, porque elas foram criadas para ser ouvidas nesses meios".

Frahm considera os anos 1950 o auge da alta fidelidade. "Depois, já nos anos 60, as empresas de som passaram a investir em produtos cada vez mais baratos. Isso popularizou os aparelhos, mas fez a qualidade cair muito".

Um gênero musical que o fascina, tanto pela qualidade sonora quanto pela "textura" da música, é a bossa nova: "Ouvindo os discos de João e Astrud Gilberto, é incrível como aquela música transporta o ouvinte para um lugar especial. É música que só pode vir de lá [do Brasil], é uma joia".

Sobre o futuro, planeja usar o mesmo improviso que caracteriza seus shows: "Se aprendi algo em meio a essa pandemia, foi não me preocupar tanto com o futuro. Não sei o que vou fazer agora, e não estou aflito com isso. Quero aproveitar o hoje".

Uma ótima semana a todos.