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André Barcinski

Angela Ro Rô torna o mundo menos chato

Angela Ro Ro em foto publicada sem seu perfil - Instagram
Angela Ro Ro em foto publicada sem seu perfil Imagem: Instagram
André Barcinski

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da ?Folha de S. Paulo?. Escreveu sete livros, incluindo ?Barulho? (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV ?Zé do Caixão? (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário ?Maldito? (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental ?História Secreta do Pop Brasileiro?.

Colunista do UOL

18/11/2020 08h40

Resumo da notícia

  • Angela Ro Rô não é só uma de nossas maiores cantoras, mas também uma das figuras mais divertidas e originais

"Sinto muito comunicar que a minha ex-namorada se contaminou com covid-19 ao fazer sexo com outra pessoa. Peço oração por sua saúde. Grata!"

Que artista seria capaz de divulgar uma nota dessas, senão a gloriosa Angela Ro Ro?

Há mais de 40 anos, Angela não é só uma de nossas maiores cantoras, mas uma persistente colecionadora de polêmicas e histórias curiosas. Eu simplesmente amo essa mulher.

Em 2013, ela me concedeu uma das entrevistas mais divertidas que fiz na vida. O resultado está em meu livro "Pavões Misteriosos":

Outra "veterana" da cena pop surgida imediatamente antes do BRock, apesar de ter pouco mais de trinta anos, foi Angela Ro Ro. No início dos anos 1980, os seus blues confessionais - "Amor, meu grande amor", "Simples carinho" - entraram em trilhas de novelas da Globo. Sua figura polêmica e escrachada estava por toda parte, especialmente depois da repercussão pública da briga com a cantora Zizi Possi.

Filha de um diretor da Polícia Federal, Angela - o apelido "Ro Ro" foi dado pelos moleques do bairro, que zombavam de sua voz rouca - cresceu em um ambiente careta de classe média alta do Rio de Janeiro. Logo se rebelou: lésbica assumida, foi expulsa da escola várias vezes, dizia ter sido molestada sexualmente por um tio, enchia a cara em botecos de Ipanema, morou em uma comunidade hippie em Copacabana e passou um bom tempo vagando pelo Nordeste, de carona em carona. Vivia nas areias do Posto Nove, louca de Mandrix. "Era um horror", ela conta. "As pessoas ficavam trôpegas, disléxicas. Eu ia pra praia com a turma, a gente se esticava numa canga, todo mundo 'dragão', esparramado na toalhinha. Tinha até uma piada: 'Vamos dar uma caidinha?'. Então, todo mundo ficava de pé e a gente dizia: 'Agora, uma caidinha...'. E a turma inteira caía no chão ao mesmo tempo."

Em 1970, Angela foi para a Europa. "Meu pai me deu passagem só de ida, eu nunca soube se ele estava duro ou se não queria que eu voltasse." Na Itália, encontrou o cineasta Glauber Rocha. "Ele queria me comer de qualquer jeito, queria ter filhos comigo. Era impressionante, só de ele olhar pra mim eu já me sentia grávida." Em uma festa de cineastas, em Roma, Angela bateu papo com Federico Fellini e Giulietta Masina e deu um fora em Michelangelo Antonioni: "O Michelangelo ficou dizendo que queria que eu atuasse em um filme, que eu era belíssima, que ia pagar pra consertar meu dente da frente, que é quebrado, e eu fiquei de saco cheio. Disse: 'Che noia, Michelangelo!'. Ele ficou sem graça. O Glauber disse pra ele que não adiantava nem tentar, que eu era muito ruim de jogo".

Angela passou quatro anos na Inglaterra, onde trabalhou como faxineira em hospitais, lavou pratos em bares e arrumou uma namorada inglesa. Um dia, entrou em um pub, pediu licença para usar o piano e cantou "Summertime". Ganhou mais dinheiro do que em uma semana de limpeza no hospital. "Modéstia à parte, eu tinha um vozeirão, era muito bonita - tenho fotos pra provar - e impressionava. Comecei a cantar Cat Stevens, 'Hey Joe', do Jimi Hendrix, e mandava até um 'Asa branca' de vez em quando. Eu levava uma caneca e dizia para o público: 'Estou cansada do tilintar das moedas, agora quero ouvir o farfalhar das cédulas!'."

Angela morava em um subúrbio de Londres - "tipo Bangu ou Realengo" -, trabalhava de dia e cantava à noite nos pubs de King's Road. Andava com hippies e squatters e frequentava festinhas de arromba. Depois de uma delas, ao acordar, viu-se sozinha em um apartamento imenso. De repente, ouviu o choro de uma criança. O bebê dormia na gaveta de uma cômoda, ao lado de uma nota de cinco libras e um bilhete: "Angie, querida, fui pra Istambul, por favor tome conta do baby". Angela foi convidada por Malcolm McLaren - que depois inventaria o grupo punk Sex Pistols - a gravar um disco de blues, mas o projeto não vingou. Em 1972, tocou gaita na faixa "Nostalgia (That's What Rock'n'Roll is All About)", do disco Transa, de Caetano Veloso, gravado em Londres.

Na Inglaterra, Angela começou a compor. Escreveu uma canção em inglês, "The Split Up Song Number One" ["Canção da separação número um"], que gravaria em 1979, já no Brasil, com o nome de "Amor, meu grande amor". Teve músicas gravadas por Marina Lima ("Não há cabeça"), Maria Bethânia ("Gota de sangue") e Ney Matogrosso ("Balada da arrasada"). Quando lançou seu primeiro disco, Angela Ro Ro, em 1979, já era uma artista cultuada na cena alternativa carioca. O lp é uma obra-prima, uma coleção de blues e baladas dramáticas sobre amores fracassados e corações partidos. Ro Ro se revelou uma Maysa para os novos tempos (a Fossa Nova?), em letras confessionais sobre bebida, namoradas e noites em claro.

Uma ótima semana a todos.