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André Barcinski

Cinco filmes que inspiraram a "Nova Hollywood" de Coppola e Scorsese

Norman Bates em cena de "Psicose" - Reprodução
Norman Bates em cena de "Psicose" Imagem: Reprodução
André Barcinski

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da ?Folha de S. Paulo?. Escreveu sete livros, incluindo ?Barulho? (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV ?Zé do Caixão? (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário ?Maldito? (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental ?História Secreta do Pop Brasileiro?.

Colunista do UOL

27/10/2020 06h00

Resumo da notícia

  • A "Nova Hollywood" de Coppola, Scorsese e De Palma é uma das maiores gerações do cinema americano. Aqui vão 5 filmes que influenciaram esses gênios

A geração de cineastas surgida em Hollywood na virada dos anos 60 para os 70 é celebrada como uma das maiores da história: Coppola, Scorsese, Bogdanovich, Friedkin, Ashby, Penn, De Palma e outros reinventaram a gramática do cinema e fizeram filmes clássicos.

Nesse período de ouro, iniciado, segundo especialistas, com "Bonnie & Clyde" (Arthur Penn, 1967), o cinema hollywoodiano ficou mais sombrio e paranoico. Em meio à Guerra do Vietnã e ao escândalo de Watergate, esses cineastas criaram obras que exaltavam anti-heróis, traziam um intenso antagonismo ao governo e às instituições e contavam histórias sobre personagens marginalizados.

Essa geração foi muito marcada pela revolução estética e temática promovida pela Nouvelle Vague francesa de Godard e Truffaut, que tirou o cinema dos estúdios e o levou para as ruas. Depois de "Acossado" e "Os Incompreendidos", não era mais tão estranho sair correndo com uma câmera na mão por uma rua, ou editar um filme fora da ordem, com cortes abruptos e que seriam considerados pecaminosos alguns anos antes.

A Nouvelle Vague não influenciou apenas os cineastas norte-americanos, mas deixou sua marca em todo o mundo e gerou movimentos cinematográficos experimentalistas e inovadores em países como Hungria, Tcheco-Eslováquia, Polônia, Alemanha, e até no Brasil, com o Cinema Novo.

Mas é injusto creditar o surgimento da Nova Onda de Hollywood apenas à Nouvelle Vague. Dentro de Hollywood, desde os anos 1950, alguns cineastas fizeram experimentos cinematográficos marcantes e que tiveram grande influência sobre a geração de Coppola, Scorsese e amigos. Aqui vão cinco desses filmes pioneiros (em ordem cronológica):

Shadows (1959), de John Cassavettes

A história não importa tanto quanto a maneira como ela é contada: o primeiro longa de Cassavettes, se fosse falado em francês e rodado na França, teria inaugurado a Nouvelle Vague antes mesmo de Godard. É um filme inovador e criativo sobre três personagens - dois músicos e uma escritora - tentando sobreviver na efervescência beat de Nova York do fim dos 50. Não é à toa que Cassavettes é considerado o "pai" do cinema independente americano.

Psycho (Psicose, 1960), de Alfred Hitchcock

É impossível ver Norman Bates e não pensar como o personagem de Anthony Perkins - insano, paranoico, maquiavélico - influenciou tantos filmes da Nova Hollywood. Hitchcock sempre foi um experimentalista e tentou novas maneiras de contar histórias, mas em "Psicose" ele atinge o auge de sua criatividade, seja na celebrada edição da cena do chuveiro, ou na vertiginosa cena da morte de Arbogast na escadaria. É difícil imaginar o que seria da carreira de Brian De Palma sem ter visto esse filme. Basicamente, quase tudo que ele fez parece uma tentativa de se igualar a Hitchcock.

Shock Corridor (Paixões Que Alucinam, 1963), de Samuel Fuller

Fuller foi um dos maiores rebeldes do cinema, um cineasta de histórias inusitadas e estética sensacionalista típica dos tabloides policiais sangrentos que tanto o fascinavam. Em "Shock Corridor", Peter Breck faz um jornalista que, para investigar um assassinato cometido dentro de um sanatório, resolve se fingir de louco e é internado no local. Esse filme influenciou toda a Nova Hollywood, da paranoia de "A Conversação" (Coppola) e "A Trama" (Alan J. Pakula), chegando a produções mais recentes como "Ilha do Medo", de Scorsese, que parece um tributo a Fuller.

The Pawnbroker (O Homem do Prego, 1964), de Sidney Lumet

Rod Steiger faz Sol Nazerman, o solitário e taciturno dono de uma loja de penhores no Harlem, em Nova York. Sol é assombrado por lembranças de seus dias num campo de concentração nazista e trata seu funcionário, de origem latina, com desprezo. Na verdade, Sol odeia toda a raça humana e vê o mundo como um lugar escuro e sem esperança. Eu corto um braço se Paul Schrader não viu esse filme várias vezes enquanto escrevia "Taxi Driver", de Martin Scorsese.

Seconds (O Segundo Rosto, 1966), de John Frankenheimer

Último filme de uma série conhecida por "Trilogia da Paranoia" de Frankenheimer, depois de "The Manchurian Candidate" (1962) e "Seven Days in May" (1964), "Seconds" é um estranhíssimo e fascinante filme de mistério sobre um homem que aceita ganhar uma "nova vida" oferecida por uma empresa. O filme é tão impactante que, depois de assisti-lo, Brian Wilson, dos Beach Boys, teve um colapso nervoso, cancelou o lançamento do álbum "Smile", sua obra-prima, e só voltou a entrar num cinema 16 anos depois, para ver "ET".

Veja também:

"The Shooting" (1966), de Monte Hellman, "Ride the High Country" ("Pistoleiros do Entardecer", 1962) de Sam Peckinpah, "The Man With the Golden Arm" ("O Homem do Braço de Ouro", 1955), de Otto Preminger, "To Kill a Mockinbird" ("O Sol é Para Todos, 1962), de Robert Mulligan e "The Misfits" ("Os Desajustados, 1961), de John Huston.

Um ótima semana a todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.