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André Barcinski

Kraftwerk: mais influente que os Beatles?

André Barcinski

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da ?Folha de S. Paulo?. Escreveu sete livros, incluindo ?Barulho? (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV ?Zé do Caixão? (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário ?Maldito? (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental ?História Secreta do Pop Brasileiro?.

Colunista do UOL

06/05/2020 17h55

Em 2017, o crítico de música do jornal norte-americano LA Weekly, Tim Sommer, escreveu um ensaio provocativo: "Kraftwerk: mais influente que os Beatles?":

Dê uma olhada na música pop em 2017. Olhe bem. Você perceberá que os Beatles deixaram de ser a banda mais influente do mundo Ocidental. O posto, hoje, é do Kraftwerk

Antes que beatlemaníacos tenham uma síncope: isso NÃO É uma comparação da importância histórica das duas bandas. O que Sommer quis dizer é que a sonoridade criada pelo quarteto de Dusseldorf se faz mais presente no pop contemporâneo do que a influência dos quatro de Liverpool.

Se pensarmos em como a eletrônica hoje domina totalmente a música pop, é difícil não concordar com a teoria.

Pegue a lista dos artistas pop mais populares do mundo de 2019 da revista "Billboard": os cinco primeiros —Post Malone, Ariana Grande, Billie Eilish, Khalid e Drake— têm imensa influência de música eletrônica. Mesmo Khalid, que é, dos cinco, o mais ligado à soul music, tem uma óbvia pegada eletrônica nas batidas e na produção de suas faixas.

"Ah, mas o Drake é rapper".

Sim, buana, mas você sabe onde entra o Kraftwerk na história do rap?

Com a palavra, Afrika Bambaataa, pioneiro da cultura hip hop:

Quando ouvi (Kraftwerk), pensei: 'que merda doida é essa?' Era um som mecânico e funky, e quanto mais eu ouvia, mais eu pensava: 'Esses brancos sabem ser funky!'

Em 1981, um jovem Bambaataa estava na primeira fila do clube Ritz, em Nova York, vendo um show da banda alemã. Ao lado dele, o amigo Arthur Baker, outro pioneiro da cena hip hop.

No ano seguinte, Bambaataa e Baker lançaram a faixa "Planet Rock", que sampleava "Trans-Europe Express", do Kraftwerk, e se tornou uma referência não só para o hip hop, mas para todo tipo de música de base eletrônica, como technopop, new romantic, techno, synthpop, electro. E o rap, claro.

O Kraftwerk é uma das poucas bandas da história a ter criado um idioma musical, uma sonoridade tão única e revolucionária que hoje, 45 anos depois de "Autobahn" e "Radioactivity", muito do que existe no pop carrega a marca deles.

Eles não foram os primeiros a fazer música eletrônica, longe disso, mas conseguiram adicionar elementos pop a um gênero musical considerado pouco acessível. Assim, os alemães influenciaram meio mundo: de Bowie a Nick Cave, passando por Pet Shop Boys, Eminem, Nine Inch Nails, Moby e Madonna. Do metal agressivo de um Rammstein aos sons atmosféricos de Portishead e Massive Attack. Do pop mais comercial aos experimentalismos eletrônicos mais obscuros e inacessíveis, tudo tem um dedo de Florian Schneider e Ralf Hutter.

Hoje, 6 de maio de 2020, Florian Schneider se foi, aos 73 anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.