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60 anos de balcão, caipirinha e drinques recordistas: Salvatore é tudo isso

Não lembro onde parei que alguém me disse que as pessoas não queriam saber de "historinha" de bartenders, coquetéis e bares. Eu, obviamente, não concordo. Não fosse o "além do copo", não existiria o Siga o Copo.

E é com esse espírito que um release sobre um novo menu de um bar em Londres me apresentou não uma história, mas uma inspiração - quem dera a capital inglesa fosse tão perto que os olhos pudessem presenciar isso in loco.

Quem não conhece Salvatore Calabrese, deveria. Quase 60 anos no mundo da mixologia fizeram dele uma verdadeira enciclopédia do setor. E hoje, aos 70 anos, o "Maestro" viu, de balcões prestigiados pelo mundo, o mundo se transformar.

À coluna, o italiano revela que além de trabalho e bons contatos, ele teve muita sorte para se tornar uma referência que atravessa gerações - tanto que exibe nada mais nada menos que 155 mil seguidores em seu Instagram (@cocktailmaestro).

Salvatore Calabrese no Donovan Bar, de Londres
Salvatore Calabrese no Donovan Bar, de Londres Imagem: Divulgação

Detentor de prêmios e recordes (como autoria do que foi, até 2012, o drinque mais caro do mundo, vendido a 5,5 mil libras e o mais 'antigo do mundo', em 2015, cuja combinação de ingredientes somava 730 anos de história), Salvatore impressiona.

Ah, e a conta não está errada: toda a história começou bem cedo:

"Fui muito afortunado em ter sido exposto à magia e teatro do bar bem jovem, aos 11 anos, na Itália", relembra. Em 1966, ele viu o auge de "La Doce Vita" e toda a influência que o clássico de Fellini representou para o charme italiano - inclusive no bar em Maiori, uma cidadezinha na Costa Amalfitana.

Eu lembro a moda, a elegância, as personalidades, os Negronis, os Martinis. Todo mundo sabia exatamente o que eles queriam beber e isso normalmente acontecia depois de um bom café, conta.

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"Era um tempo mágico e gostaria que fosse assim até hoje", deseja nostálgico.

Menino do Americano, mestre do Breakfast Martini

Salvatore é mesmo uma enciclopédia de coquetelaria e quando se trata das misturas da "Bota" ele se recorda até mesmo de suas primeiras combinações. "Meu primeiro drinque foi um Americano, com 12 anos, o único que me deixavam fazer", conta.

Mas foi mesmo com o clássico Negroni que recebeu sua primeira lição:

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"Aos 13 anos, tentei fazer um Negroni, mas levei uma bronca do Signor Raffaello, meu mentor na época, que disse que eu não deveria ser desrespeitoso, que Negroni era um drinque sério e que não era pra brincar com isso".

Depois do pito, ele se dedicou aos estudos da arte de fazer mesmo um bom Americano.

Breakfast Martini
Breakfast Martini Imagem: Divulgação

Com uma senhora trajetória ele tem até um clássico moderno para chamar de seu: há 25 anos nascia o Breakfast Martini.

Quando um coquetel se estabelece nesse patamar, não some mais. Afinal, qual é o maior sonho de qualquer bartender? Se imortalizar em uma grande criação que as pessoas ainda vão estar pedindo daqui 100 anos, celebra.

Ao lado do Negroni, é esta variação do Martini - com marmelada inglesa de laranja - um dos mais pedidos do Donovan Bar, casa de Salvatore em Londres desde 1980.

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A história do drinque é curiosa. Como um bom italiano, Salvatore só está mesmo pronto para começar o dia depois de um bom espresso. Eis que um dia sua esposa, ingles, o fez comer a bendita marmelada logo cedo e veio a ideia: um Martini de café da manhã.

Sua criação mais conhecida o acompanha onde quer ele vá e permanece no menu do Donovan mesmo com lançamento recente de uma nova carta, que, aliás, passeia pela trajetória de Salvatore. Batizada de EVOKE, ela, claro, evoca uma fase da vida do Maestro.

"O primeiro gole me lembra a infância, ao percorrer minha paleta me lembro da minha adolescência. Mas o mais importante é o gosto residual - a experiência que a idade traz, a sabedoria e quem eu sou agora", conta.

Escape From Reality
Escape From Reality Imagem: Divulgação

Um deles, chamado Escape From Reality, é servido em um copo que é a cabeça de Salvatore.

De London ao Rio

E é da terra da rainha (agora do rei) que ele observa novas gerações de bartenders fazendo bonito.

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"Trabalhei muito tempo com Federico Pavan, diretor de mixologia do Donovan Bar, e acredito de coração que ele é um dos melhores de toda a indústria", aponta o veterano sobre seu colega de.

Ainda que veterano da casa inglesa, ele não nega que para os melhores drinques ele se volta mesmo à terra-natal. "É onde me sinto em casa e relaxado", conta.

Quando a história é falar especificamente de drinques, Salvatore é quase evasivo e festeja a versatilidade dos sour, que podem ser explorados de tantas formas quanto a imaginação e a criatividade permitirem. "Eles podem ser feitos com destilados claros ou escuros, como o Daiquiri, Margarita ou o Whiskey sour, por exemplo."

E, sim, Salvatore conhece o Brasil e nossa inesquecível cachaça - cujo dia nacional foi nesta quarta (13).

Lembro a primeira vez que fui ao Rio e pedi uma Caipirinha feita da forma correta e ela segue como um dos meus drinques brasileiros favoritos até hoje.

Diante de tantos olhares para os jovens talentos, as influências presentes e as tendências futuras, o mundo da coquetelaria felizmente se recorda e aplaude mestres e maestros. De Derivan a Salvatore, erguemos nossas taças e brindamos: salute! saúde! cheers!

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*Trilha sugerida de harmonização com essa coluna: That's Amore, de Dean Martin.

Quem quiser bater um papinho, sou a @sigaocopo no Instagram.

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Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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