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Renato Maurício Prado


Renato Maurício Prado: Blasfêmia castigada

Jorge Jesus, do Flamengo, durante clássico contra o Fluminense - Thiago Ribeiro/AGIF
Jorge Jesus, do Flamengo, durante clássico contra o Fluminense Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

04/11/2019 04h00

Quando disse, na semana passada, que não via nada de novo no Flamengo de Jorge Jesus, Fábio Carille, sabidamente um dos treinadores mais defensivistas dos tempos de hoje, proferiu uma blasfêmia e cometeu um sacrilégio com o futebol. Mas, como bem diz Muricy Ramalho, a bola pune. Poucos dias depois, veio o confronto direto com o técnico português, e a surra que o seu Corinthians levou em campo se refletiu na derrota por goleada e lhe custou o cargo, demitido que foi, ainda no vestiário.

Registre-se: no atual campeonato, Jorge Jesus já provocou a demissão de dois treinadores de enorme prestígio por aqui, ambos campeões brasileiros recentes, Luiz Felipe Scolari, surrado com o Palmeiras, por 3 a 0, e agora Fábio Carille, goleado por 4 a 1. Se adicionarmos à lista partidas da Taça Libertadores, houve ainda o espancamento de outro técnico de ponta do Brasil, campeão da Libertadores: vide o 5 a 0, no Grêmio de Renato Gaúcho - que só sobreviveu, graças ao enorme (e justo) prestígio que tem no Tricolor gaúcho.

Diante da encantadora revolução tática que presenciamos, vinda de além-mar, é desanimador que se ouça patacoadas como a de Carille ou bazófias como a de Vanderlei Luxemburgo, que também disparou que não há nada de novo no futebol e que tudo que encanta no Flamengo que lidera o campeonato disparado, ele já fez pelos diversos clubes pelos quais passou. Em tempo: o Vasco de Vanderlei levou de 4 a 1 do time de Jesus.

Mas, sim, é verdade que muitos dos nossos melhores times em décadas passadas (inclusive alguns dirigidos por Luxemburgo) também jogavam bonito e pra frente, tendo como prioridade buscar o gol e não evitá-lo.

Só que, há alguns anos, a cultura da retranca (para garantir o emprego) se tornou quase um dogma nos nossos clubes - que o digam Carille, Felipão, Mano, Odair Hellmann, Abel e tantos outros, muitos deles vitoriosos, mas todos eternamente obcecados em evitar o gol a qualquer custo para só depois, quem sabe e se der, marcá-lo. Ah, e uma vez conseguida a vantagem, recuar logo para garantir o resultado. Quem não se lembra da época do bem-sucedido "empaTite" e dos inúmeros triunfos por 1 a 0?

Falando francamente, nem mesmo nos áureos tempos, as melhores equipes brasileiras (como o Flamengo de Zico, o São Paulo de Telê, o Palmeiras da Parmalat, o Cruzeiro de Alex etc.) chegaram a mostrar nos gramados a impressionante intensidade que vemos o rubro-negro praticar agora. O futebol mudou, evoluiu, é claro, mas por aqui parecia estacionado e estagnado. Como naquele famoso filme, "Dia da Marmota", onde o personagem principal dormia e acordava sempre no mesmo dia.

Quem costuma acompanhar a Premier League - há alguns anos, disparado, o melhor campeonato do mundo, em termos técnicos e táticos - pode atestar que a disposição em campo, a compactação, a movimentação permanente e o apetite ofensivo do Flamengo, sob o comando de Jorge Jesus, são da mesma escola dos melhores times ingleses (o que não quer dizer necessariamente que o rubro-negro brilharia por lá, pois a qualidade da maioria dos jogadores de gigantes como o Liverpool, Manchester City, Manchester United, Arsenal, Tottenham etc. é superior).

Independentemente disso, fato é que o sucesso de Jesus, sobremaneira se confirmadas as conquistas do Campeonato Brasileiro e da Libertadores, tem tudo para provocar uma revolução do bem no nosso futebol, abrindo as portas para novos treinadores do exterior e obrigando os técnicos tupiniquins a se oxigenarem, revendo conceitos arcaicos.

Justiça seja feita, além do português, merecem elogios por aqui o argentino Jorge Sampaoli (tomara que não vá embora), o próprio Renato Gaúcho, o ótimo Tiago Nunes, do Athletico, e vamos parando por aí. A maioria dos demais se preocupa, antes de mais nada, em "defender a casinha", enfeiando o espetáculo. A surpreendente e arrebatadora onda de Jesus, entretanto, fez a casa de todos eles cair. Aleluia!

Renato Maurício Prado