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Rafael Reis

REPORTAGEM

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Ex-Palmeiras é ídolo no "Brasil da África", mas ainda sofre com dialetos

Ricardo Nascimento é o único brasileiro no futebol sul-africano - Divulgação
Ricardo Nascimento é o único brasileiro no futebol sul-africano Imagem: Divulgação
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

24/10/2021 04h00

Desde 2016, Ricardo Nascimento veste semanalmente camisas amarelas, calções azuis e mais brancas para jogar futebol. Quem o vê de longe com esse uniforme talvez até chegue a imaginar que ele está se preparando para uma partida da seleção brasileira.

Mas a seleção do zagueiro baiano de 34 anos, que já passou pelo Palmeiras, é outra. Ele disputa atualmente a sexta temporada pelo Mamelodi Sundowns, clube da África do Sul conhecido como "The Brazilians" (Os Brasileiros, em inglês) justamente pela vestimenta inspirada na equipe pentacampeã mundial.

"No começo, essa semelhança com o uniforme do Brasil me ajudou demais. Eu era o brasileiro do time brasileiro da África do Sul. Acho que até por isso fui muito bem acolhido por todos", disse o defensor, em entrevista por telefone ao "Blog do Rafael Reis".

Os Sundowns são o clube mais poderoso e vitorioso do futebol sul-africano. A equipe tem 14 títulos nacionais no currículo, oito só neste século, e venceu as quatro últimas temporadas da Premier Division, a primeira divisão do país.

A possibilidade de atuar em um clube de elite foi, aliás, o motivo pelo qual Ricardo Nascimento deixou de lado uma carreira na Europa para ser o único jogador brasileiro atuando profissionalmente na África do Sul.

O primeiro convite para trocar a Acadêmica, clube tradicional de Portugal, pelos Sundows veio em 2015 e foi recusado. No ano seguinte, com o time bem cotado para ganhar a Liga dos Campeões da África (o que acabou acontecendo) e disputar o Mundial de Clubes, o zagueiro brasileiro não resistiu.

"Eu tinha esse sonho de jogar o Mundial. Mas, a princípio, não queria me mudar para a África. Saí de férias e resolvi aproveitar para conhecer o clube. Acabei ficando, Foi a decisão mais correta da minha vida", afirmou o jogador, que participou de duas partidas do torneio da Fifa (derrotas para Kashima Antlers e Jeonbuk Hyundai).

E não há mesmo motivos para Ricardo Nascimento se arrepender dessa escolha. Já são mais de 140 partidas e oito títulos conquistados pelo Sundowns. O brasileiro tem tanto moral no seu clube que não é raro que ele use a braçadeira de capitão.

"Só não consigo me comunicar muito bem. Aqui, só falar inglês não resolve. São muitos dialetos", confessou.

O sucesso na terra que sediou a Copa do Mundo de 2010 fez o zagueiro até pensar em jogar pela seleção sul-africana. Ele está em processo de naturalização, mas admite que perdeu um pouco de vontade de defender os Bafana Bafana depois da saída do técnico Molefi Ntseki, em março.

"Já tive mais vontade [de defender a seleção]. Hoje, posso falar que virei torcedor e que estou na torcida para eles se classificarem para a próxima Copa. Mas é claro que, se aparecer a oportunidade, estou aqui para ajudar."

Outro desejo que ficou pelo caminho foi o de retornar ao Brasil, onde jogou pela última vez em 2012, no Olé Brasil, após passagens por Comercial de Ribeirão Preto e pelo time B do Palmeiras.

"Por causa da idade, acho que não volto mais. Em princípio, a ideia é aposentar por aqui, onde construí uma trajetória linda", completa Ricardo Nascimento.