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Rafael Reis

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como Qatar usa PSG e Neymar como "escudo" em violações de direitos humanos

Neymar e o CEO da Qatar Airways, uma das empresas que bancam o "projeto PSG" - AFP
Neymar e o CEO da Qatar Airways, uma das empresas que bancam o "projeto PSG" Imagem: AFP
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

12/04/2021 04h00

Na última Data Fifa, as seleções de Alemanha, Noruega e Holanda aproveitaram o pontapé inicial das Eliminatórias Europeias da Copa do Mundo 2022 para protestar contra o país que vai sediar a competição de futebol mais importante do planeta no próximo ano.

As equipes utilizaram estrelas do porte de Erling Haaland, Matthijs de Ligt e Kai Havertz para enviar mensagens contra as inúmeras violações aos direitos humanos cometidas pela nação árabe, entre elas a utilização de trabalho análogo à escravidão nas obras do Mundial.

Não é de hoje que o Qatar apanha da opinião pública por não respeitar ideias básicas de diversidade e igualdade de gêneros, etnias e orientações sexuais. E, curiosamente, sua resposta a essas críticas também costuma ser dada dentro de campo.

A família Al Thani, que comanda o país desde sua independência, ainda no século 19, não comprou o Paris Saint-Germain e investiu uma fortuna na contratação de Neymar, Kylian Mbappé e cia. porque sonhava em conquistar títulos no futebol ou por achar que o Mercado da Bola é uma boa forma de ganhar ainda mais dinheiro.

O motivo principal da existência da parceria PSG/Qatar é outro: utilizar o esporte para tentar melhorar a imagem da nação árabe no cenário internacional.

Esse conceito é conhecido como "Sportswashing" (uma espécie de "lavagem cerebral esportiva", em tradução livre para o português) e está longe de ser uma novidade. Na década de 1930, Adolf Hitler já se utilizava dessa prática na Alemanha nazista.

Desde então, praticamente todos os governos autoritários de países com condições financeiras minimamente razoáveis passaram a investir no esporte como instrumento de propaganda e ferramenta de marketing.

Com a grana colocada no futebol, o emir do Qatar e seus funcionários de alto escalão esperam que as pessoas de outros países associem primeiramente a nação árabe aos títulos conquistados pelo PSG, aos dribles desconcertantes de Neymar, aos gols de Mbappé e à realização da Copa do Mundo, não mais à exploração de trabalho escravo e a outros ataques aos direitos humanos.

Quando bem executada, essa política ajuda no desenvolvimento do turismo e também no aumento dos investimentos externos na região. Afinal, quase ninguém quer ser cúmplice de quem viola os respeitos básicos à humanidade, mas pega muito bem se aliar a quem faz sucesso no esporte.

Por isso, os donos do PSG sonham tanto com a conquista inédita da Liga dos Campeões da Europa, adorariam ver um dos seus jogadores ser eleito o melhor do mundo, têm feito de tudo para renovar o contrato de Neymar e buscam desesperadamente novos reforços de peso e marketing pesado para a próxima temporada, como Lionel Messi e Sergio Ramos.

O projeto franco-árabe está próximo de atingir sua segunda semifinal consecutiva de Champions. Graças à vitória por 3 a 2 obtida na semana passada, o PSG pode até perder por 1 a 0 ou 2 a 1 na partida de volta do confronto contra o Bayern de Munique, amanhã (13), em Paris, que estará entre os quatro melhores times da Europa na temporada.

O penúltimo dia das quartas terá também o confronto entre Chelsea e Porto, na Espanha. Na quarta-feira (14), Borussia Dortmund x Manchester City e Liverpool x Real Madrid definem as duas últimas vagas para a reta final da competição interclubes mais rica e badalada do planeta.

A decisão do torneio está agendada para dia 29 de maio e será disputada no Olímpico Atatürk, em Istambul (Turquia). O estádio originalmente seria palco da final do ano passado, que precisou ser alterada por causa da pandemia de covid-19.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL