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Rafael Reis


Em 1990, seleção perdeu para atletas de 4ª divisão e chegou à Copa em crise

Pôster da revista alemã Kicker mostra a seleção brasileira de 1990 - Reprodução
Pôster da revista alemã Kicker mostra a seleção brasileira de 1990 Imagem: Reprodução
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

02/05/2020 04h00

A participação brasileira na Copa do Mundo-1990 foi desastrosa.

Com um esquema tático ainda pouco disseminado na época (3-5-2) e vários jogadores que só chegariam ao auge quatro anos mais tarde (Taffarel, Dunga, Romário, Bebeto e Mazinho, entre outros), a seleção teve uma primeira fase com vitórias sofríveis sobre Suécia, Costa Rica e Escócia e foi eliminada já na estreia nos mata-matas.

A derrota por 1 a 0 para a arquirrival Argentina, nas oitavas de final, fez a equipe comandada por Sebastião Lazaroni terminar a competição na nona colocação. Esse ainda é o pior desempenho do país em Mundiais desde 1966, ou seja, em 13 edições da competição de futebol mais importante do planeta.

O que muita gente não sabe (ou já se esqueceu) é que a tragédia brasileira na Itália começou antes mesmo do apito inicial para a partida contra os suecos, a primeira do time canarinho no torneio.

Em 28 de maio de 1990, 13 dias antes da estreia na Copa, a seleção foi a campo para disputar amistoso contra um combinado de jogadores de três clubes da região da Úmbria: Perugia e Ternana, então na série C1 italiana (terceira divisão), além do Gubbio, que na época estava na C2, o quarto escalão do Calcio.

Até aí, tudo bem. Sempre antes dos Mundiais, o Brasil enfrenta adversários de qualidade técnica para lá de duvidosa. Essa é uma estratégia normal para que a equipe chegue à competição embalada por uma goleada sem a necessidade de grande esforço físico e psicológico.

Só que o feitiço virou contra o feiticeiro. A tão esperada vitória elástica para encher os jogadores de moral para a Copa deu lugar a uma catástrofe capaz de abalar até mesmo os atletas e torcedores mais confiantes.

Mesmo enfrentando adversários acostumados a jogar nas terceira e quarta divisões e que jamais haviam atuado juntos, o Brasil perdeu.

A vitória por 1 a 0 do Combinado da Úmbria sobre a seleção então tricampeã mundial foi decidida por um gol de Edoardo Artistico, atacante que defendia o Perugia na época e que passou a maior parte da carreira atuando nos escalões inferiores do futebol italiano.

E não pensem que o tropeço aconteceu porque Lazaroni resolveu poupar os titulares para a estreia na Copa. A escalação da derrota histórica foi exatamente a mesma que começou o Mundial: Taffarel; Mozer, Ricardo Gomes e Mauro Galvão; Jorginho, Alemão, Dunga, Valdo e Branco; Müller e Careca.

Ainda que o resultado tenha sido minimizado por jogadores e pelo treinador na época (falou-se muito que aquele era um jogo-treino, e não um amistoso), a derrota para a Úmbria mostrou que o Brasil não estava no caminho certo para o Mundial.

E isso foi sentido no mês seguinte. Com atuações abaixo da média e sem empolgar ninguém, o Brasil deu adeus à Copa-1990 depois de apenas quatro partidas e com míseros quatro gols marcados.

O sonho tetra teve que esperar até 1994.

Rafael Reis