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Rafael Reis


Luxemburgo transformou Sergio Ramos em zagueiro: verdade ou lenda?

Sérgio Ramos, zagueiro e capitão do Real Madrid - Ander Gillenea/AFP
Sérgio Ramos, zagueiro e capitão do Real Madrid Imagem: Ander Gillenea/AFP
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

16/04/2020 04h00

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Capitão do Real Madrid, o clube mais poderoso do planeta, Sergio Ramos tem no currículo quatro títulos da Liga dos Campeões, duas Eurocopas (2008 e 2012) e uma Copa do Mundo (2010). Aos 34 anos, o espanhol é um dos zagueiros mais vitoriosos e admirados desta década.

Mas o camisa 4 do clube merengue só foi para o miolo de zaga por causa de um brasileiro. Foi Vanderlei Luxemburgo, hoje técnico do Palmeiras, que decidiu tirá-lo da lateral direita para escalá-lo na posição onde ele se consagrou.

Bem, pelo menos é essa a história que circula há anos aqui no país, que faz sucesso nas redes sociais e que era frequentemente reproduzida pelo narrador Galvão Bueno na época em que a Globo transmitia partidas da Champions e atestava o sucesso do defensor.

Mas será que usar Sergio Ramos como zagueiro realmente foi ideia de Luxa ou essa é apenas mais uma das inúmeras lendas urbanas que tanto sucesso fazem no mundo do futebol, como como o autismo de Lionel Messi e a transexualidade de Marco Verratti?

O defensor foi contratado do Sevilla pelo Real no encerramento da janela de transferências da temporada 20052006, durante a gestão do treinador brasileiro, e custou 27 milhões de euros (R$ 154,2 milhões).

Logo na sua partida de estreia pelo novo clube, já foi utilizado como zagueiro - substituiu o também beque Francisco Pavón no segundo tempo da derrota por 3 a 2 para o Celta de Vigo, pelo Campeonato Espanhol.

"O presidente queria contratar jogadores espanhóis, e precisávamos de um lateral ou zagueiro. O nome que pintava na Espanha era o Sergio Ramos, só que jogava como lateral. Eu conversei com ele: 'Meu camarada, o teu negócio aqui é vir para dentro, que aqui é teu espaço'. Ele aceitou jogar como zagueiro e foi embora", afirmou Luxemburgo, no ano passado, à ESPN.

Só que, ao contrário do que o treinador costuma dizer e da lenda que se alastrou pelas redes sociais no Brasil, o hoje capitão merengue já estava acostumado a atuar no miolo de zaga antes de desembarcar em Madri.

Apesar de ser lateral direito de origem e de ter sido escalado várias vezes nessa função durante o tempo em que vestiu camisa do Sevilla, Sergio Ramos também jogava eventualmente como zagueiro na equipe andaluz, onde iniciou sua carreira como profissional.

Duas partidas da última temporada do jogador antes da transferência para o gigante espanhol são emblemáticas. Em 2004/2005, ele atuou como zagueiro em dois duelos com Barcelona e Real Madrid.

No dia 11 de setembro de 2004, na derrota por 2 a 0 sofrida pelo Sevilla antes os catalães, Sergio Ramos compôs o miolo de zaga e deixou a lateral direita para Juan Luis Redondo.

Já no empate por 2 a 2 com o Real, em 14 de maio do ano seguinte, quem ocupou o lado da defesa foi Daniel Alves. O camisa 4 (que na época vestia a 5) foi zagueiro e até balançou as redes. Luxa certamente viu esse jogo, já que estava no banco de reservas comandando o time da capital.

Até mesmo em sua despedida do Sevilla Sergio Ramos foi zagueiro. Na vitória por 1 a 0 sobre o Racing Santander, três dias antes da transação que o levou para o Santiago Bernabéu, ele compôs a linha defensiva com Daniel Alves (lateral direito), Aitor Ocio (zagueiro) e David Casteldo (lateral esquerdo).

Ou seja, Luxemburgo não inventou o zagueiro que se tornaria ídolo do Real Madrid. O técnico, no máximo, ajudou a consolidá-lo em uma posição que só seria assumida de vez pelo jogador em 2011, quando ele abandonou de vez a lateral direita e o brasileiro já estava bem longe da Espanha.

Rafael Reis