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Filho de princesa, 1º jogador profissional negro foi vetado na seleção

Estátua de Arthur Wharton, no CT da seleção inglesa - Getty Images
Estátua de Arthur Wharton, no CT da seleção inglesa Imagem: Getty Images
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

14/04/2020 04h00

Quem visita o centro de treinamentos de St. George's Park, que é utilizado pela seleção inglesa, e lá se depara com a estátua de um goleiro talvez não tenha noção da relevância histórica daquele personagem retratado em um salto, com os braços esticados em busca de uma bola que tenta encobri-lo.

Em uma época em que futebol era um passatempo quase que exclusivo de brancos aristocráticos, Arthur Wharton foi o primeiro negro (ou mulato, para ser mais preciso) a se tornar jogador profissional da modalidade que conquistaria ricos e pobres no mundo inteiro.

Não que o goleiro - que de vez em quando também quebrava o galho atuando como atacante, algo muito comum nos tempos em que as táticas do jogo ainda davam seus primeiros passos - não tivesse sangue azul correndo nas veias.

Wharton nasceu no território onde hoje é Gana, então parte do Império Britânico, em 1865. Sua mãe era princesa de uma das várias tribos que compunham o povo africano e se casou com um reverendo metodista.

O plano da família era que ele seguisse os passos do pai e também tivesse uma carreira missionária. Por isso, quando tinha dez anos, foi enviado à metrópole para iniciar os estudos necessários à vida eclesiástica.

Mas, nas escolas da Inglaterra, Wharton começou a se destacar pelos dotes físicos e pelo desenvolvimento atlético. Ainda adolescente, bateu o recorde mundial da corrida de 100 jardas (pouco mais de 90 metros).

O feito digno de um "Usain Bolt do final do século 19" chamou a atenção do Darlington, que convidou para jogar futebol, e, posteriormente, do Preston North End, uma das equipes mais poderosas da época.

Foi pelo Preston que ele disputou (e ganhou) a primeira edição do Campeonato Inglês, disputada entre 1888 e 1889. Na temporada seguinte, transferiu-se para o Rotherham, que lhe ofereceu um contrato como profissional, o primeiro para um negro no futebol.

Arthur Wharton - Reprodução/Fifa - Reprodução/Fifa
Imagem: Reprodução/Fifa

Recebendo salário para jogar, Wharton atuou até 1902, quando já tinha 37 anos, e defendeu outros quatro times: Sheffield United, Stalybridge Rovers, Ashton North End e Stockport County. Na maioria das partidas, ficava no gol. Mas, quando faltava algum jogador de linha, aventurava-se nas pontas direita e esquerda.

O sucesso feito pelo filho da princesa ganense quase o levou à seleção inglesa. Houve campanhas de torcedores e dirigentes para que ele fosse convocado, mas o preconceito venceu - só em 1978 um negro jogaria pela equipe principal do English Team.

Após abandonar o futebol, Wharton passou a trabalhar em minas de carvão e se entregou de vez ao alcoolismo. Quando morreu, em 1930, aos 65 anos, o ex-goleiro estava falido e morava em um sanatório para idosos.

Sua história ficou relativamente esquecida até os anos 1990, quando uma campanha antirracismo no futebol tratou de restaurar seu nome e legado. Em 2003, ele entrou para o Hall da Fama do Futebol Inglês.

E, já nesta década, Wharton foi homenageado com duas estátuas: um pequeno busto na sede da Fifa, em Zurique (Suíça), e a grande estátua em local de destaque no CT da seleção inglesa, que ele jamais teve a chance de defender.