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Antero Greco


Jesus derruba o mito de rodízio de titulares

Jorge Jesus acena para torcida após vitória do Flamengo sobre a Chapecoense - Renato Padilha/AGIF
Jorge Jesus acena para torcida após vitória do Flamengo sobre a Chapecoense Imagem: Renato Padilha/AGIF
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

18/10/2019 04h00

Caro amigo que dedica alguns minutos semanais para ler o que escrevo neste espaço, quero lhe dizer uma coisa. (Antes de continuar, obrigado pela gentil atenção nestes meses. O UOL é forte pra caramba!)

Depois dos parênteses obsequiosos e cheios de média (sincera), voltemos ao tema. O que eu ia falar? Ah, sim, iria revelar-lhe algo. É o seguinte: virei fã do Jorge Jesus. Conto por quê.

O português chegou aqui no meio do ano e o início do trabalho no Flamengo não chamou muito a atenção, pois era tempo de Copa América. O que foi ótimo pra ele, porque teve calma para conhecer o grupo, o ambiente, o Rio.

Assim que a bola voltou a rolar nos torneios de clubes, em pouco tempo o patrício de Camões, Cabral e Cristiano Ronaldo virou destaque, por fazer o time jogar o fino. Não importa se ganhará algo ou não (e vai ganhar), mas hoje a equipe dele é a melhor do Brasil. Está redondinha, joga por música. Até rivais históricos reconhecem.

Jesus tem um quê de posudo, de marra como diz a rapaziada. Vez ou outra, arruma um jeito de mostrar o quanto é astuto, avançado, destemido, etc e tal. Nada muito diferente da postura de outros colegas - né mesmo, querido Renato Gaúcho? Porém, ele pode. O trabalho está impecável e o Flamengo só perde o Brasileiro, por exemplo, se houver uma hecatombe. Isola!

O "mister" aplaudido pela torcida por onde o Flamengo se exibe me cativou pra valer com declarações após a vitória de virada sobre o Fortaleza (2 a 1), na quarta-feira. Ainda nos vestiários do Castelão, largou na bucha a seguinte resposta, quando lhe perguntaram se colocaria mistão para o Fla-Flu do domingo. "Minha cultura não é essa (de poupar). Temos quinta, sexta e sábado para descansar e o domingo para correr."

Pimba! Na mosca! Defendeu algo com que concordo. Há muito me intriga esse modismo que diversos treinadores brasileiros abraçaram de fazer rodízio entre jogos do Brasileiro e da Libertadores. É um tal de "time alternativo" para o fim de semana de Série A e "força máxima" nos compromissos do torneio sul-americano.

Ou seja, mandam o recado claro, para o público, que o campeonato doméstico está em segundo plano. Como disse o próprio Jesus, semanas atrás, só aqui tem essa cultura de menosprezar o título nacional! Estou com ele. Ganhar Libertadores é bacana, dá status, garante presença no Mundial de Clubes (dominado pelos europeus, bom lembrar).

Mas, caramba, não pode, não deve, não faz sentido, ser mais gratificando do que ser campeão brasileiro! Está errado! Fama, popularidade e "peso da camisa" de times como Flamengo, Santos, São Paulo, Grêmio, Palmeiras, Corinthians, etc., vieram das conquistas de Estaduais (antigamente, quando contavam) e do Brasileirão. Libertadores é penduricalho, adendo.

Só que virou moderno, charmoso, inteligente técnico mexer sem parar na escalação para provar que segue rigorosos princípios estratégicos e científicos. Não estou a desmerecer o trabalho de médicos, preparadores físicos, fisiologistas. Absolutamente. Os estudos deles sobre a condição dos atletas são fundamentais. Porém, existe uma supervalorização, em certos momentos. Parece que jogadores viraram bibelôs frágeis e com risco de quebrar por qualquer esforço adicional.

Também não são máquinas, como Jesus ressaltou. Quem estiver mais esgotado, fica preservado. Quem estiver bem e animado, vai pro jogo! Isso que a plateia quer. Isso que o boleiro deseja. Pergunte pra jogador titular de um time se ele quer ir pro banco, "para repousar"? Vai ver qual a resposta. Ainda mais se a equipe está embalada, como o Flamengo. Rodízio muitas vezes é maneira de o técnico fazer média com reservas e não ouvir chiadeira...

Com a maré favorável, tudo se torna mais leve, os dribles saem com naturalidade, os passes são precisos, as finalizações corretas, as vitórias se acumulam. Pesado é jogar na fase ruim, em que nada dá certo, as derrotas são seguidas, a torcida pega no pé. Até o risco de contusão é maior, por causa da pressão psicológica.

Isso aí, Jesus. Mistão se coloca em amistosos, em jogos das Copas nacionais ou naqueles jogos sem importância no campeonato. No Brasileiro, manda o que tem de melhor, porque a cada rodada o título se aproxima. (Depois, é só festa). E vai embalado para o tira-teima com o Grêmio na próxima semana.

Ganhar e perder fazem parte do jogo, "pertenxem ao futebol", como diz mestre Luxemburgo. A vida é risco, do início ao fim.

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