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Antero Greco


Nostalgia em tempos de quarentena

Michel Platini tenta toque de habilidade em jogo da seleção francesa - Arquivo/Folha Imagem
Michel Platini tenta toque de habilidade em jogo da seleção francesa Imagem: Arquivo/Folha Imagem
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

27/03/2020 04h00

Estes tempos estranhos que vivemos nos deixam tensos. O enclausuramento forçado nos torna nostálgicos. A falta de contato físico com amigos e parentes aumenta a carência afetiva. O pensamento voa sem direção, ao sabor do vento.

No meu caso, me levou a uma viagem de retorno ao passado, nesta quinta-feira.

Tão logo comecei a batucar este bate-papo semanal veio a notícia da morte de Michel Hidalgo. Se por acaso você não sabe ou não recorda quem era, não se preocupe, relembro aqui. Foi técnico da seleção da França entre 1976 e 1984, dirigiu o time em duas Copas (78 e 82) e ganhou a Eurocopa de 1984.

Tá, mais e daí?, você pode perguntar. O que tem de importante?

E daí que esteve à frente dos "Bleus" num dos períodos mais criativos dos hoje bicampeões mundiais. A geração de Genghini, Trésor, Giresse, Janvion, Lacombe, Six, Battiston, Tigana, Rocheteau, Platini foi fenômeno lindo da história do futebol. Os caras jogavam muito e pavimentaram o caminho para a turma que se consagrou na Copa da França (98).

Hidalgo era um mestre, admirador do joguinho de bola bem jogado, com arte, talento, ousadia. Estava no mesmo nível de Rinus Michels, o pai da Laranja Mecânica (a Holanda de 74) e de Telê Santana, o criador da fabulosa seleção brasileira de 1982.

Como falei em nostalgia no primeiro parágrafo, eis que dei um salto para aquele ano tão distante. No final da tarde, me peguei andando para cá e pra lá numa Espanha que saía de décadas de ditadura de Francisco Franco, se abria para o mundo e organizava a maior Copa até então, com 24 equipes, em vez das 16 habituais.

Desde a largada, Brasil e França despontaram como os times que chamavam a atenção, pela maneira como se apresentavam, pela proposta de jogo, pela qualidade de seus astros. À medida que o torneio avançava, as duas deixavam rivais para trás e cresciam em favoritismo. Virou barbada prever que se encontrariam na final, em Madri.

A gente sabe como terminou a história. O Brasil foi derrubado pela Itália na segunda fase e os franceses caíram diante da Alemanha, na semifinal.

Pois Alemanha 3 x França 3, disputado em 8 de julho de 1982, em Sevilha, entrou para a antologia dos maiores duelos de todos os Mundiais. No tempo normal, terminou 1 a 1, gols de Littbarski e Platini (pênalti). Veio a prorrogação e os franceses abriram 3 a 1 com Trésor, aos 2 minutos, e Giresse, aos 8. Rummenigge diminuiu aos 12 e Fischer empatou aos 6 minutos do segundo tempo.

O tira-teima ficou para os pênaltis. As quatro primeiras cobranças para cada lado entraram. Na última dos franceses, Bossis parou em Schumacher. Veio Hrubesch e cravou o quinto dos alemães, que foram para a decisão com a Itália, no dia 11 e perderam por 3 a 1.

Acompanhei essas partidas de perto, porque foi a primeira Copa que cobri. Na época, concordava com a opinião geral de que Brasil e França eram as seleções mais encantadoras da competição. Hoje, com quase 40 anos de distância, mantenho a convicção.

As duas mereciam sorte melhor. Não deu? Azar da história dos Mundiais.

PS. Amigos, fiquem em casa, se puderem. Evitem sair. Acreditem na ciência e não em opiniões de curiosos ou aloprados.

Antero Greco