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Antero Greco


O sobe e desce de Nunes, Carille, Hellmann

Gabriel Machado/AGIF
Imagem: Gabriel Machado/AGIF
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

20/09/2019 11h18

Tiago Nunes, Fábio Carille e Odair Hellmann são três representantes da nova geração de técnicos brasileiros que ficaram em evidência nos últimos tempos. Por méritos. Jovens comandantes de equipes importantes, mostraram valor em desafios de diversos níveis, desde os locais até nacionais e internacionais. Com resultados que chamaram a atenção sobre si.

Vivem, porém, momentos distintos. Nunes anda em alta, pelos resultados que obteve com o Athletico Paranaense. Carille tem sido contestado, algo inédito desde que se tornou "professor titular" do Corinthians em 2017. Hellmann carece de títulos no Internacional, mesmo com o reconhecimento do trabalho de reconstrução iniciado no ano passado.

A estrela em ascensão é o gaúcho Nunes, 39 anos e o mais novo do trio. Nem por isso menos experiente. Hoje é conhecido nacionalmente, pela força da vitrine do Furacão, mas tem rodagem pelo Brasil. Ou seja, não é um paraquedista na profissão, não veio da nada, não saiu da cartola de um dirigente. Acumulou muitas horas de banco em times pequenos.

A peregrinação fez bem a Nunes. Dá para perceber o amadurecimento, a confiança na forma de comandar o time, a segurança nas declarações. É bem articulado, mostra ambição e já tem noção de que vai longe na carreira. Desde que assumiu o time, em junho de 18, soube dar equilíbrio e caráter vencedor à base formada por Fernando Diniz.

Não foi por acaso que levantou a Sul-Americana e a Copa do Brasil. Curioso para ver como se sairá, quando encarar a empreitada de guiar times como Grêmio, Flamengo, Palmeiras, São Paulo, Vasco, pegos aqui como exemplos aleatórios. Convites aparecerão; isso é inevitável. Nunes parece aberto a experiências, antenado com as novidades, disposto a sair do lugar-comum. Esse vai longe.

Já a estrela de Carille está ofuscada. Por ele mesmo. Mais velho da trinca (45 anos), subiu como foguete com três títulos paulistas (17, 18, 19) e o improvável (porém incontestável) Brasileiro de 17. Assim como Nunes, também não era um estranho no ninho. Passou anos, no Corinthians, em trabalho de formiguinha, à sombra de Mano e Tite. Aprendeu e aproveitou a chance que lhe jogaram nas costas.

Carille tem mercado garantido, porém voltou diferente da breve passagem pelo mundo árabe. Menos relaxado, mais impaciente em entrevistas e mais aferrado às ideias de jogo. Em seu favor, vieram o tri estadual, avanço na Sul-Americana e a reação no Brasileiro, após a parada para a Copa América. No entanto, sem futebol consistente de outras ocasiões...

As limitações saltaram à vista nos duelos com o Flu (pela Sul-Americana e pelo Brasileiro) e ficaram escancaradas diante do Independiente del Valle. O Corinthians tomou um baile, nos 2 a 0 de quarta-feira, em Itaquera. Até normal; noites ruins acontecem. Chata foi a reação dele. Carille não admitiu, com todas as letras, a superioridade do rival e, dentre várias desculpas, alegou que havia escalado uma equipe de "meninos".

Caramba, a média alvinegra está em torno de 28 anos! Pegou mal e deixou no ar a sensação de postura arrogante. Isso não é bom para Carille. Se quiser tornar-se um grande na profissão - e tem condições -, tem de estar disposto a reconhecer erros e mudar rota, se necessário. As oportunidades aparecerão, no jogo de volta no Equador e no segundo turno da Série A. Se conseguir reviravolta, ganha o selo de "professor emérito". Acho difícil.

Odair Hellmann, 42 anos, é novato mesmo em times profissionais. O Inter abriu-lhe as portas, anos atrás, para divisões de base e comissão permanente. E, até por falta de opções, apostou nele, em 2018, no retorno à elite nacional. Deu conta do recado bravamente - a vaga para a Libertadores deste ano e a final da Copa do Brasil estão aí para comprovar.

Falta a Hellmann o carimbo de ganhador - e isso só virá com taças. Percebe-se, ainda, certa insegurança em certas atitudes dele. Nos momentos decisivos, compôs o Inter de maneira mais tradicional, ortodoxa, cautelosa, numa tendência conservadora, como se viu diante do Fla, na Libertadores, e do Furacão, na Copa do Brasil.

Hellmann merece o benefício da paciência. Não é hora de cravar que será um bom treinador, porém sem ousadia. Só que vai depender dele não deixar que lhe grudem esse rótulo. Tem no elenco colorado jogadores com qualidade para tornar o time mais eficiente - e vistoso.