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Hoje é dia de festa para o Divino

Ademir, o eterno Divino - Nascimento/Acervo UH/Folhapress
Ademir, o eterno Divino Imagem: Nascimento/Acervo UH/Folhapress
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

03/04/2020 04h00

O noticiário das últimas semanas nos assusta, por causa de um inimigo invisível que faz o mundo ficar de joelhos. O baixo-astral está tão disseminado quanto o maldito vírus.

Por isso, amigo que gentilmente me segue, no bate-papo de hoje proponho pausa de alguns minutos na apreensão geral para invocar um personagem Divino. Para reverenciar alguém fora dos padrões dos seres humanos comuns, ao menos na arte que o consagrou.

Calma lá! Não falo do Ser Supremo que rege nossos destinos - e que Ele nos guarde nestes tempos bicudos, amém. Refiro-me a um deus do futebol, um craque, um fora de série, um ET da bola que atende pelo nome de Ademir da Guia.

O maior camisa 10 da história do Palmeiras assopra 78 velinhas nesta sexta-feira. Não é data comum, jamais! Deveria ser feriado nacional, com bandeiras alviverdes e verde-amarelas desfraldadas em todos os estádios e prédios públicos. Ou melhor, também em todas as varandas, quintais e praças. Escolas, igrejas e hospitais. Com direito a Hino Nacional.

Sim, senhor, quem gosta de futebol, quem tem conhecimento mínimo que seja da história do joguinho de bola, deveria hoje colocar a mão no peito, assim que acordasse (e depois das orações), e cantar parabéns a você para Ademir da Guia.

Escrevi acima que foi o maior 10 do Palestra, e é verdade. Não houve antes nem depois alguém que chegasse aos pés do Divino. Porém, estou sendo modesto como o homenageado desta crônica, e cometo um erro. Pois Ademir foi um dos maiores meias do futebol brasileiro. do futebol sul-americano, do futebol mundial. Desta e de outras galáxias.

Quem o viu em ação, entre os anos 60 e 70, não o esquece. Esguio, pernas compridas, passadas largas, suaves, davam a impressão de que as chuteiras mal roçavam o gramado. Cabeça erguida sempre, a bola grudada nos pés, ia de um lado a outro do campo como se estivesse em câmara lenta... Enganosa lentidão, que derrubou muito adversário incauto.

Ademir e a bola tinham relação estreitíssima. Ambos se conheciam, se respeitavam, se admiravam. Nunca se soube de episódio em que um tenha feito mal à outra, e vice-versa.

Procuravam-se o tempo todo durante um jogo - e o tempo todo jogadores do Palmeiras procuravam Ademir. "Estávamos no sufoco? Era só passar para o Ademir que ele resolvia", lembrou-me certa vez seu companheiro e fiel escudeiro Dudu, parceiro do meio-campo nas versões de 65 e 72 da Academia. "Ninguém conseguia tirar a bola dele. Não era possível nem fazer falta no Divino", contou-me César Maluco, numa reportagem sobre os 60 anos do astro.

Ademir tinha autoridade, que lhe vinha do talento magnífico e não de gestos espalhafatosos. Impossível algum movimento deselegante. Até para fazer falta tinha classe! Quando precisava bater, o fazia com tanta discrição que o atingido lhe pedia desculpas.

Ademir sempre foi de poucas palavras, e proferidas em tom baixo, porém com senso de humor e ironia invejáveis. Basta conferir entrevistas dele que há na internet. Nunca foi de autopromover-se, e aí há quem veja um "defeito" que lhe custou convocações para a seleção. Ora, se ele vestiu poucas vezes a amarelinha o azar não foi dele, mas do "scratch".

Ademir brilhou numa época de gênios no meio-campo no futebol do Brasil. Mas, como tinha repertório tão particular, não podia ser comparado a ninguém. Era único.

Décadas depois apareceu um estrangeiro que se assemelhou um tantinho ao Divino: Zinedine Zidane. Sim, sim, o modo de o francês jogar fazia lembrar Ademir da Guia. Não é à toa que também foi craque.

A arte e o comportamento de Ademir fizeram com que se transformasse num ídolo que extrapolou a paixão dos palmeirenses. Assim como Luis Pereira, Pepe, Zito, Pelé, Tostão, o reconhecimento e admiração vinham de todas as torcidas.

Um colega querido, Wilson Baldini Júnior, contou-me certa ocasião como os rivais viam Ademir. "Meu pai era corintiano fanático e me levava para ver clássicos com o Palmeiras. Quando os times entravam em campo, ele apontava para Ademir e dizia: 'Este não se vaia. Este é Ademir da Guia.'"

É isso, Ademir é ídolo de palestrinos e dos todos que amam o futebol. Vida longa ao Divino.

Vou aproveitar o isolamento e puxar no Youtube "Um craque chamado Divino". Para emocionar.

Parabéns, Ademir! Este cronista inclina-se (mais uma vez) diante de sua divindade futebolística.