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Antero Greco

Seleção é atraso de vida... pro torcedor

Tite comanda treino da seleção em Cingapura pensando em amistosos contra times africanos - Pedro Martins/Mowa Press
Tite comanda treino da seleção em Cingapura pensando em amistosos contra times africanos Imagem: Pedro Martins/Mowa Press

06/03/2020 04h00

Caro amigo do papo semanal neste portentoso portal, hoje é dia de ver torcedor bravo, soltando fogo pelas ventas.

Sabe por quê? Porque tem convocação da seleção.

Sim, senhor, o técnico Tite divulgou a lista dos escolhidos para enfrentar Bolívia (dia 27) e Peru (31), na abertura das eliminatórias sul-americanas para a Copa de 2022, na manhã desta sexta-feira (6). Como sempre ocorre, uma mescla entre atletas que atuam no País e aqueles espalhados pelo mundo. A turma se reúne uns dias antes para treinos e, em seguida, vai à luta.

Tudo normal? Não como em princípio aparenta.

Chamada para defender as cores do País, por tradição, sempre foi momento solene, motivo de orgulho para atletas, clubes e fãs. As coisas mudaram por aqui, pelo menos para uma das partes — e é para a turma que curte futebol nas arquibancadas, pelas ondas do rádio ou pela telinha.

Se, antes, o fanático ficava feliz da vida por ver muitos jogadores de seu time na relação dos melhores, agora lhe vem sentimento de raiva. E com razão, pois há tempos seleção virou sinônimo de estorvo, de atraso de vida. O calendário do scratch inchou, há jogos e competições supérfluos e isso atravanca a rotina dos clubes.

Amigos, time é mais importante do que seleção. As cores da agremiação que curtimos desde a infância são sagradas, representam a nossa "nação". Para torcedor raiz jamais haverá dúvida, se for preciso escolher: entre clube do coração e seleção, prevalecerá a primeira opção.

Por isso, a expectativa em dias de convocação se inverteu. Em outras épocas, havia adrenalina, apostas e provocações entre os torcedores. O sujeito grudava o ouvido no radinho para anotar os nomes dos chamados. Se tivesse mais gente do seu time, estufava o peito e botava banca, pois era sinal de superioridade. "Meu time é o maior!"

Agora, o cara que é fissurado em futebol pega o terço (espero que ainda exista quem reze o terço), acende uma vela, faz promessa pra santo para que o treinador não leve nenhum de seus ídolos para a amarelinha. Esperam que os adversários se desfalquem... Espírito de porco? Não, espírito de preservação.

Com os calendários malucos, com torneios que se sobrepõem, é imenso o risco de times serem enfraquecidos pela seleção. Tem sido assim nos últimos anos. Cansamos de ver o Brasil jogando por aí, enquanto as equipes se viram para compensar a ausência de titulares, muitas vezes em confrontos decisivos. Aconteceu no ano passado mesmo.

Acha que exagero? Nada. Dê uma passeada por blogs, sites, fóruns de debates de torcedores rubro-negros, por exemplo, e confira a apreensão deles. Muita gente temia que Tite cismasse de convocar vários jogadores do campeão da América — chamou três, Everton Ribeir, Bruno Henrique e Gabigol. O medo está no desgaste a que os moços serão submetidos e, sobretudo, no risco de contusão.

Nos casos específicos das partidas contra bolivianos e peruanos, há uma atenuante, rara: os torneios estaduais estarão suspensos, bem como a Libertadores. Menos mal, e esse seria o procedimento corriqueiro. Mas, no meio do ano, tem outra malfadada Copa América e a CBF já avisou que, àquela altura, não vai parar o Brasileirão. Ou seja, tem clube que pode ficar sem atletas de ponta por seis ou mais rodadas. Um absurdo!

Se eu fosse flamenguista, teria feito campanha para vender ao Tite a ideia de que nenhum dos moços que trabalham com Jorge Jesus tem condições de ir pra seleção. Tudo perna de pau e cabeça de bagre. Melhor chamar só as estrelas internacionais, que jogam o fino...

Ironia à parte: se eu fosse o Tite chamava todo o time do Flamengo, exceto o Arrascaeta (convocado pelo Uruguai), enxertava um ou outro de fora, trocava o rubro-negro pelo verde e amarelo, e mandava o pessoal para o campo. Garanto que bateria Bolívia e Peru com folgas.

O Flamengo hoje é sinônimo de seleção, como uma vez já foram Santos, Botafogo, Cruzeiro, São Paulo, Palmeiras — este, literalmente, vestiu a camisa amarela, na inauguração do Mineirão, em 1965, e ganhou do Uruguai por 3 a 0.

Claro que tal alternativa é inviável, por razões técnicas, financeiras, esportivas, diplomáticas. Infelizmente.

Não sou contra a seleção, porém sou totalmente a favor dos clubes. Por isso, não arredo pé de colocá-la em segundo plano, enquanto a cartolagem não encontrar uma forma de evitar que interfira na vida das agremiações.