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Sim, o futebol tem pressa. E cobra resultados

Luan lamenta eliminação do Corinthians pelo Guaraní (PAR) pela Libertadores - NELSON ALMEIDA / AFP
Luan lamenta eliminação do Corinthians pelo Guaraní (PAR) pela Libertadores Imagem: NELSON ALMEIDA / AFP
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

14/02/2020 04h00

Desde a noite de quarta-feira, o imediatismo no futebol voltou a ser tema central de debates por aqui. O motivo para assunto tão antigo ganhar fôlego foi a vitória inútil do Corinthians sobre o Guaraní por uma das fases preliminares da Libertadores. Os 2 a 1 não foram suficientes para a rapaziada de Tiago Nunes avançar na competição. Ficou para a próxima.

Mal Nestor Pitana apitou o apito final do duelo em Itaquera floresceram as opiniões - a favor e contra evidentemente - a respeito de cobranças por resultados imediatos. Uma turma defende a tese de que é preciso paciência para que o trabalho do jovem treinador e seus comandados dê frutos. "Roma não se fez em um dia", disse um, valendo-se de ditado do tempo de minha avó. Ouvi até um "a pressa é inimiga da perfeição"!

Outra parcela de críticos alega que se trata de postura severa, que beira a intolerância, exigir eficiência máxima em início de temporada, com jogos eliminatórios e quase zero de treinos e apresentações oficiais. Porém, com um adendo óbvio: essa é a realidade do futebol. O acúmulo de competições, as expectativas, o calendário, os investimentos desembocam na necessidade de metas alcançadas em curtíssimo prazo.

Duro, mas é da vida.

Antes que o amigo pergunte qual a minha posição, digo que me alinho com o segundo grupo. Com dor no coração, mas com realismo e um certo estoicismo. O Corinthians foi vítima da escassez de datas? Sim. Pagou preço alto por encarar mata-mata com time em formação, com técnico recém-chegado, com o fôlego da moçada ainda aquém do desejado? Certamente.

Mas nada disso foi acidental ou obra do acaso. Desde a rodada final do Brasileiro de 2019 (até um pouquinho antes), já sabia que teria duas etapas de qualificação na Libertadores, em fevereiro, se quisesse juntar-se a outros rivais domésticos na fase de grupos. Era o que previa o regulamento.

Ninguém reclamou; antes, comemorou-se essa "vaga", como prêmio de consolação para um desempenho instável na Série A. O sentimento era na base do "melhor passar por essas provas do que ter ficado fora de vez". Havia, portanto, esperança.

O que se fez nesse período? Diria que o possível, mas esse possível foi pouco, insuficiente, abaixo do esperado. O elenco sofreu alterações, vieram alguns jogadores. Porém, no todo, não alterou o patamar (palavrinha na moda) em relação a 2019. O Corinthians de começo de 2020 tem elenco mediano e foi eliminado por adversário igualmente mediano.

A impressão que se tem é a de que a presença de um técnico promissor como Tiago seria o bastante para dar o toque de qualidade que o Corinthians não tem. O "professor" brilhou no Athletico, é o mais festejado da nova geração. Daí, vai tirar coelhos da cartola (olha o lugar-comum) para ter uma equipe competitiva, que passaria pelo Guaraní e, em seguida, pelo Palestino.

Amarga ilusão. Tiago Nunes é bom, tem futuro, percebe-se que pretende transformar o Corinthians em time mais ousado do que o de Carille e similares. Mas não é milagreiro. Se houve pontos positivos, ainda prevaleceram os negativos, como instabilidade na criação e na fase defensiva. Fora erros individuais, mas esses são comuns (e às vezes fatais) em qualquer time.

Não conheço Tiago pessoalmente; no entanto, suponho que tenha aprendido uma lição, à qual havia me referido na coluna da semana passada: comandar um time de massa tem seu charme, é uma vitrine espetacular, pode ser trampolim para seleção - e aí estão Tite e Mano para confirmar. Em contrapartida, tem preço alto em derrotas. Elas não passam batido.

Neste momento, Tiago deixou o torcedor com uma pulga atrás da orelha (olha o chavão aí, de novo). Terá de aguentar impaciência e cara feia, precisará suportar críticas e conviver com cobranças. E entender, de uma vez por todas, que o futebol tem pressa e quer resultados.

Pode ser injusto, mas é assim. Nem adianta vir com conversa de que isso é só no Brasil e coisa e tal. É no mundo todo. Tiago terá de recuperar terreno no Estadual e sobretudo no Brasileiro e Copa do Brasil.

Fato é inegável: 2020 começou torto e com prejuízo para o Corinthians. E a cobrança vem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.