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Antero Greco

Flamengo: liderança, competência e teoria da conspiração

Gabigol comemora após marcar pelo Flamengo contra o Cruzeiro - Fernando Moreno/AGIF
Gabigol comemora após marcar pelo Flamengo contra o Cruzeiro Imagem: Fernando Moreno/AGIF

27/09/2019 04h00

Vamos falar com sinceridade? A gente gosta de uma teoria da conspiração.

Um episódio qualquer, sobretudo em política ou em futebol, ganha mais sabor se levar uma pitada de mistério; se não tiver, inventa-se. Intriga, traição e manobras escusas atiçam a imaginação, alimentam fofocas, dão audiência.

O babado do momento não é o enrosco em que se meteu o Rogério Ceni nem a "igrejinha" que o derrubou no Cruzeiro. Essa bola era cantada -- e foi abordada aqui, em crônica de duas semanas atrás. O professor chegou já caindo...

O papo que domina rodas de bar e de redes sociais é o "esquema para o Flamengo ser campeão". Bastou uma arbitragem controvertida, no caso a de Luís Flávio Oliveira no clássico com o Inter, para que ressurgisse com força a tese de que "está tudo preparado" para triunfo rubro-negro no Brasileiro.

Não é pouca gente que crava a existência de maracutaia. Baseada em quê? Em nada -- ou melhor, em memes e opiniões de grupos de zap. Bastam um ou dois erros em favor de determinado time e eis que desponta o fantasma do "campeonato comprado". Ou campeonato manchado, para ficar na expressão de Levir Culpi em 2015? Lembram? Ou o "esquema Parmalat" ou "esquema Crefisa" do Palmeiras?

E, claro, por trás das negociatas estão a CBF (sem dúvida!) e a imprensa. Mais especificamente, a Rede Globo. O poderoso grupo de mídia seria o grande interessado em ter o Flamengo como vencedor de tudo e, portanto, não mede esforços para interferir no certame. Isso porque o outro favorito dela, o Corinthians, está fora do páreo neste ano.

Pessoal, não sou dos que acreditam que o mundo do futebol seja transparente, sereno, límpido e honesto. Longe disso, o que não falta é espertalhão nesse meio. Tampouco embarco nas histórias de "favoritos da imprensa". E não me venham com papo de corporativismo porque não concordo com tudo o que ocorre na minha profissão.

Que Flamengo e Corinthians recebem mais destaque é fato. Por serem populares, costumam chamar atenção, dão retorno de público e publicidade. Não se pode passar batido no dia a dia deles. Isso é comum em qualquer lugar do mundo. Para ficar apenas num exemplo de vizinhos: Boca e River têm mais espaço, na Argentina, do que quaisquer outras equipes. Ponto. Aqui ainda dividimos, e bem, o tempo com gigantes como Palmeiras, São Paulo, Grêmio, Cruzeiro só para citar alguns.

Daí a afirmar que a imprensa interfere nos resultados dos campeonatos para agradar Flamengo e Corinthians é exagero, um absurdo fácil de desmontar. Já que atualmente todo mundo se amarra em números, que tal vermos quantos títulos a dupla levantou, digamos, desde o ano 2000? Vamos nessa?

Muito bem, noves fora estaduais (não vou citá-los, já que andam tão em baixa), o que fizeram em competições nacionais e internacionais? O Flamengo conquistou o Brasileiro em 2009, a Copa do Brasil em 2006 e em 2013, a Copa dos Campeões (torneio que teve só três edições) de 2001. Nenhuma Libertadores, zero Sul-Americana.

O Corinthians teve retrospecto melhor, com quatro Brasileiros da Série A (2005, 11, 15, 17), duas Copas do Brasil (2002 e 09), uma Libertadores (2012), dois Mundiais (2000 e 2012), uma Recopa Sul-Americana (2013), um Rio-SP (2003) e um punhado de Estaduais.

Nisso tudo, contestado pra valer foi o Brasileiro de 2005, aquele dos jogos anulados por rolo em arbitragem e com desfecho prejudicial ao Inter. No mais, tudo de acordo com o figurino, seja para rubro-negros, seja para alvinegros. Com as polêmicas de praxe e inócuas.

Se houvesse tanta manobra em favor desses times, não deveriam ter muito mais taças? O Flamengo, especialmente? Ou a imprensa é tão incompetente assim que não consegue deixar seus queridinhos sempre no topo? Ou faltou combinar com rivais brasileiros e sul-americanos?

Amigos, há armação em favor do Flamengo. Há, sim: time bem armado, contratações impecáveis, um técnico criativo, esquema de jogo que funciona. Não precisa de ajuda de ninguém, nem de apito, nem de televisão, nem de forças extraterrestres.

Os caras estão jogando o fino e merecem aplausos por isso.

(E, cá entre nós: provocam inveja, né mesmo?)