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O que importa: bola rolando ou vida?

Everton Ribeiro e Marcio Azevedo disputam bola em jogo entre Flamengo e Athletico; calendário nacional está suspenso - Adriano Machado/Reuters
Everton Ribeiro e Marcio Azevedo disputam bola em jogo entre Flamengo e Athletico; calendário nacional está suspenso Imagem: Adriano Machado/Reuters
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

10/04/2020 04h00

A pergunta contida no título da crônica é capciosa, como já notou o amigo que acompanha este bate-papo semanal. Poderia responder, obviamente: é importante a bola rolar com vida saudável para todos. Simples, direto e o que desejamos.

Mas o tema é mais complexo do que aparenta. Vamos falar a respeito disso, já que muitos estamos de quarentena e temos tempo para a leitura?

Como o amigo deve ter acompanhado, dirigentes dos clubes que compõem a elite do futebol brasileiro (e também os de Séries B e C) conversaram durante a semana com o presidente da CBF, Rogério Caboclo, e lhe expuseram a ansiedade que vivem por não saberem como e a partir de quando serão disputados o Brasileiro da Série A e as outras Divisões de 2020.

A intenção é a de que o torneio principal mantenha a fórmula tradicional, com 38 rodadas, como ocorre há quase duas décadas. Na base do todos contra todos, ida e volta. Sem invenção. O mesmo valeria para a Segundona.

Logo de cara despontou a primeira dúvida: não se sabe se as atividades esportivas serão retomadas em curto prazo. Se demorarem muito, o calendário tende a ficar sufocado mais do que se encontra neste momento e comprometerá o já consagrado formato.

A CBF disse que não há o que responder por ora. Tudo está atrelado a decisões do governo, por meio do Ministério da Saúde e de como se desenvolver o combate à pandemia de coronavírus. Em resumo: o futebol retoma seu curso, quando o país voltar ao normal. Só depois disso será possível estabelecer como ocorrerá a disputa do Brasileirão e variantes.

A resposta sensata preocupou os clubes, que continuam também sem ter ideia de como reorganizar suas atividades - e principalmente como cuidar do caixa. O objetivo era ter algo concreto para apresentar a torcedores, patrocinadores e sobretudo para as emissoras de televisão, que bancam boa parte dos recursos financeiros.

Sem esboço de programação, nada feito. Não há como as tevês fixarem quantias, e eventualmente antecipá-las, se não existe sequer a certeza de que teremos futebol este ano. E as emissoras não querem empenhar dinheiro em um produto que não têm segurança de que será entregue.

Daí dá o frio na barriga da cartolagem. Sem uma posição oficial da CBF, não há como negociar nada. E, no caso, a CBF não está errada; seria leviano prometer algo se não se tem ideia de como estará o Brasil nas próximas semanas ou meses.

É compreensível a tensão entre os dirigentes: eles têm compromissos pesados com atletas, comissões técnicas e patrocinadores, além dos gastos com impostos e manutenção dos Departamentos de Futebol. A inatividade esvazia os cofres e só aumenta incertezas.

Enfim, nada diferente do que acontece com milhares de empresas em todas as áreas. O temor de que falte dinheiro para honrar contratos é geral, o medo de que venha onda de demissões igualmente assusta. Ninguém consegue imaginar o que virá amanhã. Muitos perdem o sono por uma ameaça invisível, porém real.

Vivemos uma era dramática, que nunca imaginamos pudesse nos atingir. Mas infelizmente está aí, à espreita para entrar em nossas portas. Haverá prejuízos imensos, bolsos ficarão vazios, o cinto será apertado de maneira indiscriminada.

Porém, não se pode perder de vista que o valor maior é a vida. Um campeonato se recupera, uma empresa pode se reerguer, mesmo com menos força, empregos ressurgirão, a Bolsa uma hora vai se bombar de novo. Daqui a algum tempo, sei lá quanto, a rotina volta. Uma vida perdida é irreparável.

Sei que o parágrafo anterior parece um amontoado de lugares-comuns. As frases feitas soam vazias, desde que o mal esteja longe da gente. Mas, antes de nos darmos conta do risco que todos corremos, o melhor é prevenir, cuidar de si e, por tabela, dos outros.

Por isso, futebol não é prioridade nesta hora, embora estejamos com saudade de ver nossos times em ação. Os clubes não quebraram em outras ocasiões, não será agora que sucumbirão. Nem que fiquem parados por alguns meses, sempre haverá uma saída para driblar as dificuldades econômicas que sobrevierem.

A preocupação única, de todo o país, do mundo todo, é preservar vidas. Vamos nos fechar, literalmente, neste objetivo. Mais tarde, quando a paz retornar, poderemos curtir a bola rolando, com saúde.

Boa Páscoa para todos.