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Tinga

Da Restinga para a Premier League

Revelado pelo Avaí, Raphinha foi contratado pelo Leeds United por cerca de R$ 127 milhões - Reprodução / Instagram
Revelado pelo Avaí, Raphinha foi contratado pelo Leeds United por cerca de R$ 127 milhões Imagem: Reprodução / Instagram
Tinga

Tinga é um ex-jogador de futebol. Como profissional defendeu as cores do Grêmio, Internacional, Cruzeiro e da seleção brasileira. Atuou ainda em clubes da Alemanha, Portugal e Japão. Foi campeão da Libertadores, Recopa Sul-Americana, do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil. Hoje, Tinga é empresário e percorre o país fazendo palestras sobre empreendedorismo, mostrando como se faz "Gestão além da Planilha".

29/10/2020 04h00

Costumo ficar muito feliz quando tomo ciência de casos de jovens criados em comunidades carentes que venceram na vida por meio do esporte, pois costumo recordar da minha trajetória. A emoção e o orgulho é ainda maior ao presenciar garotos que vi correr nas ruas da Restinga se tornarem jogadores profissionais, como é o caso do Raphinha Belloli.

Atualmente com 23 anos, Raphinha foi contratado recentemente pelo Leeds United, uma das equipes mais tradicionais da Premier League, por cerca de 17 milhões de libras, cerca de R$ 127 milhões, após pedido do treinador argentino Marcelo Bielsa. Tamanho destaque já chamou a atenção da seleção italiana, visto que ele tem passaporte italiano.

Revelado pelo Avaí, Raphinha teve as portas abertas em Portugal através de Deco, que agencia a sua carreira. Primeiramente, passou pelo Vitória de Guimarães B, mas logo foi promovido ao time principal e acabou se destacando. As atuações chamaram a atenção do Sporting. Ele anotou nove gols em 41 jogos pelo clube de Lisboa, onde ficou por pouco tempo, pois foi contratado pelo Rennes, em setembro de 2019. Com oito gols em 36 jogos, ele foi fundamental para que a equipe francesa chegasse pela primeira vez na sua história à fase de grupos da Liga dos Campeões.

Raphinha comemora após marcar para o Rennes contra o Nantes - DAMIEN MEYER/AFP - DAMIEN MEYER/AFP
Raphinha comemora após marcar para o Rennes contra o Nantes
Imagem: DAMIEN MEYER/AFP

"O Raphinha é um menino muito guerreiro, com uma história difícil, ele ganhou tudo no pulso e ainda ganha, porque ainda tem uma carreira longa pela frente. Está ganhando tudo com muita vontade, com muita dedicação. Isto tudo é muito novo para ele. Apesar de no Brasil ainda não entenderem muito bem quem é o Raphinha, ele já vem mostrando a sua capacidade na Europa. Não é fácil um jogador se transferir praticamente quatro vezes num intervalo de dois anos, isto tudo por sua qualidade. A ascendente dele é muito rápida. Apesar de termos muitos extremos no futebol brasileiro, não acredito que haja outro canhoto com as características dele", disse o ex-meia Deco, que atuou por Barcelona, Chelsea e Porto, entre outros.

Apesar da experiência de ter defendido uma seleção de outro país — foi figura constante nas convocações de Portugal por sete anos e chegou a disputar a Copa do Mundo da África do Sul-2010 e a Eurocopa de 2004 —, Deco me revelou que não pretende influenciar na decisão de Raphinha, caso opte no futuro por jogar pela Itália.

"Como empresário dele, vou sempre pesar os prós e os contras. Apesar da minha experiência no futebol, é difícil prever o que vá acontecer no futuro, mas é importante que ele faça o caminho dele. Ele tem os sonhos dele, é uma decisão difícil e ele tem que seguir o coração dele. Vou respeitar a decisão dele", completou.

Família boleira

Na Restinga, bairro humilde em Porto Alegre, os Belloli são famosos por tratarem muito bem a bola. O avô Osmar, mais conhecido como Italiano, chegou a ser cobiçado pelo Grêmio na década de 1960, mas o convite foi recusado porque o futebol na época não dava futuro.

Todos os filhos do Seu Osmar jogaram no Monte Castelo e também no Cobal, outro time tradicional do bairro. O tio dele, o Dudu, chegou a atuar na base do Inter. Sou muito amigo do pai do Raphinha, o Maninho. Acredito que todos poderiam ter se tornado jogadores de futebol profissional. Até hoje jogamos juntos na várzea.

Eu vi o Raphinha crescendo ao redor dos campinhos da Restinga. Já sabia da qualidade dele antes mesmo de deixar o nosso bairro para atuar no exterior. Na Restinga há vários jovens jogadores de qualidade, que são referência, e ele era uma delas. Quando eu já jogava na Europa e retornava para as festas de fim de ano, presenciava o Raphinha ser o destaque nas peladas dos guris que ocorriam entre um intervalo e outro dos jogos de várzea dos adultos.

Costumo brincar que o maior revelador de talentos do Rio Grande do Sul é o Luiz Carlos Vieira Farias, o Seu Farias. Ele se dedica há décadas em ajudar as crianças carentes da Restinga e é conhecido no bairro como o criador do Monte Castelo, um dos principais times da várzea em Porto Alegre. Alguns jovens que passaram pela sua escolinha se tornaram profissionais. Os mais recentes são o Raphinha e o Yan Sasse, meia que passou pelo futebol turco, pelo Vasco e agora está no Coritiba.

Agachados, Raphinha (E) e Yan Sasse (D) são amigos de infância, nos tempos que atuaram juntos pelo Monte Castelo, da Restinga - Arquivo pessoal / Divulgação - Arquivo pessoal / Divulgação
Agachados, Raphinha (E) e Yan Sasse (D) são amigos de infância, nos tempos que atuaram juntos pelo Monte Castelo, da Restinga
Imagem: Arquivo pessoal / Divulgação

O que me entristece ao ver todas essas cifras envolvidas nas transações do Raphinha é que nenhum momento o Monte Castelo foi lembrado. Se formos até a essência, a Fifa deveria reconhecer o formador como aquele que pega o menino pela mão, coloca dentro de numa Kombi para ir treinar, passa cedo na casa deste garoto para levar ao jogo e ainda faz das tripas coração para arranjar fardamento, calçados e bolas para que tudo isso seja possível. Este sim é o formador, e não o clube que pegou o atleta já lapidado. São estes pequenos times formadores que necessitam das verbas referentes a transferências milionárias.

Assim como o Yan Sasse e o Raphinha, eu também fui dispensado três vezes pelo Internacional — eles sequer tiveram uma oportunidade no Grêmio. Sempre ouvidos a justificativa que éramos "magros e franzinos" e por isso nos dispensavam.

Mas se o Raphinha chegou à Premier League, ele teria totais condições de jogar na dupla Gre-Nal. Tem muita coisa que ocorre nas categorias de base que até hoje não consigo compreender. Não aceito como desculpa que a estatura e o porte físico são fatores para uma dispensa. A bola não tem entre 68 e 70 cm de perímetro e cerca de 450 gramas de peso para todos? O que a parte física irá influenciar nas categorias de base de uma equipe?

Vide os times profissionais. Os melhores jogadores da história do futebol são baixos. O Lionel Messi é o exemplo perfeito e atual para ilustrar isto. A maioria dos craques não passa de 1,70 m de altura. Na dupla Gre-Nal, as referências atuais são o D'Alessandro, que é pequeno e franzino, e o Everton Cebolinha, último a se destacar no Grêmio.

Agora já com 42 anos, analiso com calma e vejo como eram injustas essas dispensas. Os testes para adentrar numa categoria de base de um clube de ponta eram jogos para valer, pois o Seu Farias levava o Monte Castelo para fazer amistosos com os guris da dupla Gre-Nal.

Eu saia da Restinga cedo, enfrentava horas dentro do ônibus, sem ter comido praticamente nada, usando uma chuteira de cada pé diferente, apertada e emprestada. Mesmo assim, conseguia jogar de igual para igual com os caras que estavam bem alimentados, fardados, calçando chuteiras confortáveis e já adaptados ao clube.

Então, era inadmissível ter de ouvir do responsável pelo time que estava sendo dispensado porque já havia outros iguais a mim no grupo. Hoje eu penso: se tivesse apenas uma chuteira nova, já faria de tudo para ser melhor que estes meus concorrentes.

Brasileiro Raphinha, revelado pelo Avaí, foi contratado pelo Leeds United - Divulgação - Divulgação
Após passagens por Sporting e Rennes, Raphinha foi contratado pelo Leeds United após pedido do treinador Marcelo Bielsa
Imagem: Divulgação

Acredito que o Raphinha também tenha ouvido isso na trajetória dele. Mas, graças a Deus, ele arranjou forças para continuar. A resiliência dele é ímpar. Depois que ter muita porta batida na cara, atualmente ele defende um dos clubes mais tradicionais da Premier League. Tenho muito orgulho de o ver brilhando na Europa e torço para que ele seja lembrando para defender a nossa seleção, e não a da Itália.

Registro aqui o que o Raphinha me falou ao lembrar da sua trajetória até chegar ao futebol inglês.

"Quando eu olho pra trás e vejo tudo aquilo que eu já passei e escutei pra chegar até aqui, vejo o quanto valeu a pena escutar aquele tanto de besteiras das pessoas, que só me motivaram a querer ir mais longe e mostrar que eu poderia, que eu seria capaz... Hoje em dia, olha nós ai, realizando não só meu sonho, mas também o sonho da minha família, dos meus amigos, que são quem sempre estiveram comigo desde o começo e sabem o que eu passei.

Da Restinga, eu carrego tudo. Foi onde eu dei meus primeiros chutes, onde eu disputei meus primeiros campeonatos, onde eu marquei meus primeiros gols. Sempre levo o nome da Restinga para aonde vou, porque é onde eu nasci e me criei, tenho meus amigos, minha família... Tenho muito orgulho dizer que sou cria da Restinga.

Quero dizer para a gurizada para nunca desistirem dos seus sonhos, independentemente da situação, porque a única pessoa que pode realizar o sonho deles, são eles mesmo, mais ninguém. Vão dizer que vocês são ruins, que vocês não prestam pra isso, que deve seguir outro caminho e que devem até desistir. Mas isso tem que tornar vocês mais fortes pra correr atrás e realizar os seus sonhos. Então, nunca desistam dos seus sonhos, e corram atrás do que é de vocês."

*Com colaboração de Augusto Zaupa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.