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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

F1: Mercedes precisa de reação de Bottas, mas o que falta para o finlandês?

Vallteri Bottas durante o GP Emilia Romagna, no domingo (18 de abril) - Hasan Bratic/dpa (Photo by Hasan Bratic/picture alliance via Getty Images
Vallteri Bottas durante o GP Emilia Romagna, no domingo (18 de abril) Imagem: Hasan Bratic/dpa (Photo by Hasan Bratic/picture alliance via Getty Images
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

23/04/2021 04h00

O quinto lugar no Mundial de Pilotos depois de duas etapas disputadas na Fórmula 1 não era o que Valtteri Bottas esperava neste início da temporada. Correndo na equipe heptacampeã mundial consecutiva, a Mercedes, o finlandês marcou apenas 16 pontos, contra 44 do companheiro e líder do campeonato, Lewis Hamilton. Ainda que a Mercedes não tenha a vantagem dos anos anteriores, Bottas parece ter mais dificuldade com o carro, e ainda convive com a ameaça de perder sua vaga no ano que vem.

Antes da pré-temporada, o piloto de 31 anos falava em ser mais egoísta. Ele se referia a ter uma voz mais ativa internamente, para que as decisões fossem tomadas mais a seu favor. Isso faz sentido, claro, mas não é algo fácil de se conseguir quando o outro piloto da equipe é o maior recordista da história da F1. Eis que a temporada começou e, como Hamilton se classificou à sua frente nas duas primeiras corridas e teve um ritmo melhor, é normal que o inglês seja o piloto mais ouvido, e que as estratégias das corridas também foquem mais na batalha dele com Max Verstappen, seu rival mais próximo.

A Bottas restou, novamente, o papel de homem de equipe. Nas três semanas que separaram as duas primeiras provas, ele foi à fábrica da Mercedes, na Inglaterra, para testar diferentes acertos no carro para o GP da Emilia Romagna. A equipe julga que o trabalho foi bem feito, e a Mercedes se comportou de uma maneira bem melhor na sexta-feira de treinos livres em Imola.

Porém, como o próprio Hamilton afirmou após fazer a pole position do GP da Emilia Romagna, "esse carro tem uma janela de funcionamento muito pequena, menor que os anteriores, então, eu sinto que estou no limite o tempo todo".

Bottas sentiu isso na classificação. Pegou trânsito na parte decisiva, não conseguiu preparar bem seus pneus para sua volta mais rápida e acabou fazendo um tempo pior do que no início da definição do grid, o Q1. Justamente porque não conseguiu colocar os pneus nesta janela à qual Hamilton se referiu.

Bottas - Mercedes/Divulgação - Mercedes/Divulgação
Valtteri Bottas está na Mercedes desde 2017
Imagem: Mercedes/Divulgação

"Acho que é uma coisa do nosso carro. Nos últimos anos, tivemos dificuldades com o superaquecimento dos pneus, o que significava que andávamos bem quando fazia frio. Então tentamos desenvolver o carro de modo que ele não superaqueça os pneus, mas o lado negativo disso é que quando precisamos gerar temperatura rapidamente, outros carros conseguem fazer isso melhor do que nós", explicou Bottas.

No caso do finlandês, essa mudança da tendência do carro da Mercedes, de superaquecer os pneus para não gerar temperatura suficiente quando faz frio, como foi o caso do final de semana em Imola, é particularmente pior porque o estilo de pilotagem dele é menos agressivo com os dianteiros do que o de Hamilton. Se, por um lado, foi por isso que ele conseguiu roubar poles do inglês quando isso foi uma vantagem no passado, agora com essa combinação do W12 e os pneus da nova construção que a Pirelli trouxe para 2021, é justamente pelo mesmo motivo que ele tem mais dificuldade de colocar o carro na janela em que funciona melhor.

Além disso, agora a Mercedes não tem o mesmo tipo de vantagem de antes, então, não conseguir colocar o carro na janela de funcionamento faz com que o prejuízo em termos de posições seja maior. "É uma questão de dois ou três graus na temperatura do asfalto. A diferença entre fazer a volta quando o sol está tapado por uma nuvem ou não", disse Bottas.

Na corrida, esse tipo de problema facilmente se torna uma bola de neve, e recuperar-se mesmo tendo um carro mais forte se torna difícil quando os pneus não estão na temperatura ideal. Em Imola, Bottas não foi o único exemplo disso: o próprio Sergio Perez, depois que rodou quando estava na briga pelo terceiro lugar, caiu para o fundo do pelotão e não conseguiu sair dali mesmo tendo o mesmo carro do vencedor do GP da Emilia Romagna, Max Verstappen.

Este pode ser o último ano de Bottas na Mercedes?

Embora o grid tenha poucos pilotos que conseguem lidar, como Hamilton, com este tipo de problema e a Mercedes entenda isso muito bem e valorize o fato de Bottas trabalhar sempre em prol da equipe, neste ano, mais do que nunca, eles precisam dos pontos do finlandês na briga pelo título de Construtores, que promete ser a mais apertada em mais de 10 anos na Fórmula 1. No momento, eles estão na frente da Red Bull, com sete pontos de diferença, mas a expectativa é de que Sergio Perez se adapte melhor ao carro nas próximas provas.

acidente bottas - Reprodução/Twitter @Formula1 - Reprodução/Twitter @Formula1
Russell e Bottas sofrem acidente na curva de Tamburello e estão ambos fora do GP de Imola
Imagem: Reprodução/Twitter @Formula1

Em Imola, após deixar a prova por um acidente justamente com o piloto que está mais próximo de ficar com sua vaga na Mercedes, George Russell, ficou claro que Bottas teve o apoio do chefe Toto Wolff. Enquanto Russell colocava em dúvida à imprensa se o finlandês não teria sido mais agressivo na defesa de posição porque era ele quem estava no outro carro, Toto fez questão de conversar pessoalmente com Bottas e o apoiar. "Não quero falar sobre as nossas conversas privadas, mas a sensação é de que definitivamente a culpa pelo acidente não foi minha", disse Bottas. De fato, no dia seguinte, Russell se desculpou publicamente pelos comentários.

Para Wolff, não interessa criar uma tensão interna por causa de Russell no momento. A jovem promessa britânica, que estará sem contrato ao final desta temporada, precisa muito mais da Mercedes do que a Mercedes, dele. E Toto precisa que Bottas encontre uma maneira de lidar com esse carro difícil e comece a somar mais pontos para a equipe.
Pelo menos o austríaco já entendeu qual a melhor forma de levantar o piloto que está na equipe desde 2017, e de quem era empresário no passado. "Temos que apoiá-lo. Ele é parte integral da equipe e o campeonato de construtores é muito importante - tanto quanto o campeonato de pilotos - e nós precisamos que ele volte a ter bons resultados. Com os finlandeses, a gente faz isso com álcool. Eles bebem para esquecer. Então vou fazer algo desse tipo com ele", brincou.

A próxima chance de Bottas dar a volta por cima é no GP de Portugal, no circuito de Portimão, onde o finlandês chegou a andar melhor que Hamilton no ano passado. A condição de pista deve estar melhor, já que o asfalto, que era completamente novo, teve mais tempo para ganhar aderência. Melhor para o finlandês, que precisa de toda a aderência do mundo - e um pouco do clima mais ameno do sul de Portugal, para voltar a andar na frente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL