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REPORTAGEM

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F1 inicia segunda temporada na pandemia com desafios maiores que em 2020

Grid de largada do GP da Áustria em 2020, com arquibancadas vazias  -  Peter Fox/Getty Images
Grid de largada do GP da Áustria em 2020, com arquibancadas vazias Imagem: Peter Fox/Getty Images
Julianne Cerasoli

Fã de Fórmula 1 desde a infância, Julianne Cerasoli nasceu em Bragança Paulista (SP) e hoje vive em Londres (Inglaterra). Atua como jornalista desde 2004, tendo trabalhado com diversos tipos de mídia ao longo dos anos, sempre como repórter esportiva e com passagem como editora de esportes do jornal Correio Popular, em Campinas (SP). Cobrindo corridas in loco na Fórmula 1 desde 2011, começou pelo site especializado TotalRace e passou a colaborar para o UOL Esporte em 2015, e para sites e revistas internacionais. No rádio, é a repórter de Fórmula 1 da Sistema Bandeirantes de Rádio desde 2017, e também faz participações regulares no canal Boteco F1, o maior dedicado à categoria no YouTube. Em 2019, Julianne criou o projeto No Paddock da F1 com a Ju, na plataforma Catarse, em que busca aproximar os fãs da Fórmula 1 por meio de conteúdo on demand e podcast exclusivo com personagens da categoria. Neste espaço: Única cobertura in loco de toda a temporada da Fórmula 1 na mídia brasileira, com informações de bastidores, entrevistas exclusivas, análises técnicas e uma pitada de viagens.

Colunista do UOL

09/03/2021 04h00

Em julho do ano passado, a Fórmula 1 foi um dos primeiros campeonatos mundiais a retomar suas atividades em plena pandemia. A categoria conseguiu cumprir um calendário todo improvisado com 17 provas, e teve relativamente poucos casos de covid-19 mesmo com um grupo de mais de 2000 profissionais viajando para 14 países diferentes: dos mais de 76000 testes feitos ao longo do campeonato, apenas 78 foram positivos. É de se imaginar que a segunda temporada afetada pelo coronavírus será menos desafiadora para o esporte. Mas os times e o próprio comando da F1 têm motivos para acreditar que os obstáculos ainda serão muitos.

Pandemia vai continuar custando caro

A grande lição aprendida em 2020 foi a necessidade de flexibilizar o calendário, algo que já foi usado novamente neste ano, com a adição dos GPs em Imola - segunda etapa do ano, em abril - e Portugal, cuja prova será realizada em maio. No entanto, ainda que essas provas sejam importantes para manter o campeonato em andamento, elas são feitas sob contratos especiais, que quase não geram renda para a F1. E o prejuízo em 2020 já foi de mais de 2 bilhões de reais para a detentora dos direitos comerciais da categoria.

E não é esperado que haja lucro ainda em 2021, muito pelo contrário. Isso tem a ver com essas corridas substitutas, e também com a dificuldade em contar com público, tanto nas arquibancadas, quanto nos espaços VIP, que geram uma renda muito importante para o campeonato. Sem poder vender ingressos, os promotores das corridas também não podem arcar com as taxas milionárias que a F1 cobra por etapa, o que é, atualmente, sua maior fonte de renda.

Na primeira corrida do ano, no Bahrein, haverá torcedores, desde que estejam vacinados ou tenham tido covid-19, mas apenas nas arquibancadas, e não nos setores VIP. O primeiro GP em que se espera casa cheia é o da Grã-Bretanha, em julho. O governo britânico projeta vacinar toda a população adulta antes do final de julho e já anunciou que as restrições vão acabar no fim do mês anterior, o que faz com que não haja limites, pelo menos no entendimento dos organizadores em Silverstone, para o número de torcedores para o GP. A Grã-Bretanha é o país europeu que mais sofreu com a pandemia, mas conseguiu diminuir seus números de forma muito significativa desde que entrou em lockdown, em janeiro.

Restrições a viagens deixou equipe "sem" motor

As equipes também têm enfrentado seus desafios. Do lado prático, a fim de frear os gastos, foram criadas fichas de desenvolvimento, limitando o que poderia ser mudado ao longo da temporada. Mas o chefe da Williams, Simon Roberts, aponta outra dificuldade interessante: assegurar o mesmo fluxo de ideias quando as reuniões se tornaram tão impessoais. O time é um dos sete baseados na Inglaterra, onde o lockdown significa que todos têm de trabalhar de casa, a não ser aqueles que fabricam as peças e montam os carros.

"Nós temos testado todo mundo que vai trabalhar na fábrica, semanalmente, temos muitas restrições na maneira como estamos trabalhando na fábrica e há muita gente trabalhando de casa", revelou Roberts. "Tomara que isso se evapore ao longo deste ano e voltemos ao normal. Estamos percebendo que os sinais de desgaste estão aparecendo porque não temos mais aquelas conversas espontâneas, aquela troca de escritório. Claro que todo mundo está trabalhando nas plataformas online, mas é muito mais formal, e acaba sendo desgastante mentalmente de um jeito diferente. Todos estamos sentindo falta do contato social, embora trabalhar de forma mais isolada também ajude a melhorar o foco."

Há desafios também para o trânsito de profissionais. Algumas equipes, como a Alpine (França e Inglaterra), Toro Rosso (Itália e Inglaterra) e principalmente a Haas (chefia nos Estados Unidos, parte da operação na Itália e a fábrica em si também na Inglaterra) vão continuar tendo de conviver com períodos de quarentena entre os países, uma vez que a grande preocupação no momento é com o surgimento de novas variantes. E isso atinge até mesmo os pilotos: vivendo na Suíça, Mick Schumacher só pôde fazer seu assento na fábrica da Haas na Inglaterra depois de ficar uma semana em quarentena, sem poder sair sequer para fazer treinamento físico.

"Não foi fácil porque as viagens para a Inglaterra estão com muitas restrições, então foi difícil eu moldar meu assento. A gente tinha um plano, mas não deu certo porque as regras mudaram e eu não podia, basicamente, jogar fora 10 dias de treinamento para ficar um dia e meio na fábrica da equipe. Mas no final conseguimos. É muito importante fazer o assento direito e acho que conseguimos", comemorou Schumacher.

E poderia até ser mais complicado para ele: a Haas decidiu continuar com o mesmo chassi do ano passado, caso contrário eles teriam dificuldades com sua fornecedora, que é italiana. O motor Ferrari também vem da Itália, então a decisão foi só montá-lo no carro nos testes coletivos, para evitar que profissionais dos dois países tivessem que ficar parados em um momento tão importante da temporada.

"Nós construímos o carro na Inglaterra, mas não dava para ligar o motor nele, porque para isso precisaríamos dos engenheiros da Ferrari e eles teriam que fazer quarentena e não era possível. Tivemos sorte porque neste ano é um carro muito parecido com o do ano passado. Com um carro novo, seria impossível fazer isso", reconheceu o chefe da Haas, Guenther Steiner, que passou a maior parte dos últimos três meses nos Estados Unidos. "Não sei o que vai acontecer com a pandemia, ninguém tem essa resposta. Mas minha impressão é de que está tudo muito mais restrito para viajar de um lugar para o outro."

Nesse sentido, a experiência de 2020, quando 13 etapas foram canceladas e a F1 conseguiu repor oito delas, será importante para a categoria saber o que esperar ao longo da temporada, que está programada para ter 23 provas em 2021.

As equipes da Fórmula 1 já começaram a enviar seus mecânicos para o Bahrein, onde será realizado primeiro o teste coletivo de pré-temporada, de 12 a 14 de março, e depois a primeira etapa do ano, dia 28 também de março.