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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Fechado, Instituto Gabriel Medina recebeu R$ 1,2 milhão da Lei de Incentivo

Instituto Gabriel Medina em foto de 2018 - Divulgação
Instituto Gabriel Medina em foto de 2018 Imagem: Divulgação
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

25/09/2021 04h00

Desmontado nas últimas semanas, o Instituto Gabriel Medina tem pelo menos R$ 1,2 milhão para investir na formação de novos campeões do surfe. A verba foi doada através da Lei de Incentivo ao Esporte (LEI), do governo federal, depois que a entidade fechou as portas, em meados do ano passado —a entidade tem até 2023 para iniciar os projetos para usar o valor. No total, desde que foi fundado em 2017, o instituto já recebeu R$ 6,4 milhões por esse mecanismo.

Pelas regras vigentes na LIE, uma entidade apresenta um projeto a uma comissão da Secretaria Especial do Esporte, que faz primeiro uma avaliação de documentos, sem entrar no mérito do projeto. Com esse aval, a entidade vai ao mercado, faz a captação e, conseguindo doações suficientes para executar o projeto, faz uma nova solicitação à comissão. Aí, sim, avalia o mérito do projeto.

Gabriel Medina, tricampeão mundial de surfe - WSL - WSL
Gabriel Medina com o troféu de seu terceiro título mundial de surfe
Imagem: WSL

No caso do projeto "Instituto Gabriel Medina Ano 4", a comissão técnica que se reuniu no dia 23 de abril de 2020, logo no início da pandemia, e aprovou a captação de R$ 1.806.199,16 — valor solicitado pelo instituto, então presidido por Simone Medina, mãe de Gabriel. Na época, a entidade, voltada ao esporte de alto rendimento, abria suas portas para distribuição de cestas básicas para famílias carentes de Maresias, no litoral de São Paulo, o que aconteceu até o meio do ano.

No mesmo período, chegou ao fim o projeto do "Ano 3". Como é comum nesses casos, todos os funcionários foram demitidos. O objetivo é que as rescisões trabalhistas sejam pagas com o dinheiro incentivado, com a expectativa de serem recontratados logo depois. Desta vez, a recontratação não aconteceu e não acontecerá em curto espaço de tempo.

Não foi a falta de dinheiro que provocou o fechamento do instituto. O projeto do "Ano 4" já captou R$ 1,2 milhão, com doações realizadas nos últimos dias de 2020, momento ideal, do ponto de vista financeiro, para uma doação incentivada de uma empresa. A Localiza, empresa de aluguel de carros, doou R$ 650 mil. A Gelnex, um fabricante de gelatinas, e a Gerdau, gigante metalúrgica, doaram R$ 150 mil cada. A Gerdau ainda doou em março deste ano mais R$ 230 mil —o valor total arrecadado é completado por outras doações menores, incluindo de pessoas físicas.

Prédio do Instituto Gabriel Medina, em Maresias, com placa de vende-se - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Prédio do Instituto Gabriel Medina, em Maresias, com placa de vende-se, fruto do racha da família
Imagem: Mariana Pekin/UOL

A verba caiu na conta quando Simone ainda era presidente, cargo que ela não mais ocupa. Depois de romper com o filho e chegar a abrir um processo judicial contra ele, ela chegou a um acordo com Gabriel, no qual ficou com o terreno onde ficava o instituto, comprado pelo surfista. Há cerca de um mês, ela determinou que as coisas do instituto, agora presidido por Gabriel, fossem retiradas do prédio, que ela tenta vender.

À Secretaria Especial do Esporte, de acordo com a mesma, o instituto informou que está em atividade, trabalhando na captação do novo projeto. "Também destacou que foi realizada recentemente assembleia para eleição do novo presidente e aprovada a mudança da sede da entidade", explicou a secretaria à coluna.

Por enquanto, as coisas do instituto estão divididas entre a casa que Gabriel Medina reformou na ponta da praia, em meio à mata, a casa do pai dele, Claudinho, no sertão de Maresias, e um galpão. Segundo a lei, o instituto tem até 2023 para finalizar a captação de verbas e iniciar os trabalhos do projeto. Ou seja, o dinheiro que já foi captado ainda pode ser usado, legalmente, nos próximos anos. O surfista pretende que o instituto volte a funcionar, mas quer primeiro encontrar alguém de confiança para liderar o projeto, já que ele fica muito mais tempo viajando do que no Brasil.

A importância de "achar alguém de confiança", como uma das fontes ouvidas pela reportagem disse, tem a ver com a primeira experiência do instituto, encerrada recentemente. Em 2018, um parente que tinha função importante foi retirado do cargo, acusado de desviar dinheiro. Agora, a desavença com a mãe. Segundo relatos, o surfista descobriu que a mãe deixou a ONG com dívidas depois de tomar um empréstimo de R$ 600 mil sem o conhecimento do filho. No acordo firmado com Simone, Gabriel ficou com a dívida.

A reportagem entrou em contrato com Simone Medina e com a assessoria de Gabriel para comentar diretamente o assunto, mas eles não aceitaram dar entrevistas.