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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Família Medina põe prédio de Instituto à venda por R$ 10 mi e expõe racha

Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

24/09/2021 09h49Atualizada em 24/09/2021 19h12

Quem atravessa Maresias pela sua via principal, a pista da Rodovia Rio-Santos, só vê duas referências ao seu filho mais pródigo. Em uma esquina, um banner novo com uma foto de Gabriel Medina tricampeão mundial promove uma loja de surfwear. Na outra, vizinha, um prédio vazio tem duas placas. Uma, do Instituto Gabriel Medina, quase apagada. A outra, um anúncio de vende-se.

Os dois estabelecimentos pertencem ao casal Simone Medina, mãe de Gabriel, e Charles Saldanha, seu padrasto e a quem, até recentemente, o surfista chamava de pai. A diferença de tratamento à imagem vem causando burburinho entre os moradores da praia mais badalada do litoral norte de São Paulo. Enquanto a loja do casal ainda explora o rosto de Medina, o instituto, símbolo da relação entre a família e a comunidade, foi desalojado.

Simone diz que o prédio do instituto é dela e ela faz dele o que bem quiser. Se quer vender, ninguém tem nada a ver com isso. Mas nem sempre foi assim.

O imóvel, que também era uma loja de surfwear, foi comprado por Gabriel quando que ele ganhou seu primeiro título mundial no surfe e sonhava em, de alguma forma, devolver à comunidade de Maresias um pouco do que recebeu dela. Na época, segundo diversas fontes, ele pagou R$ 1,2 milhão ao antigo proprietário e R$ 200 mil ao dono da antiga loja, pelo ponto.

Agora, é Simone, a mãe dele, quem coloca à venda o prédio, reformado para servir ao instituto. Inicialmente, ela queria R$ 10 milhões pelo terreno de 800 metros, estritamente comercial, com uma saída para a pista e outra para a praia. Agora, topa fechar negócio por R$ 8 milhões. Há quem diga que ela já recebeu oferta de R$ 7 milhões, mas não fez negócio.

Banner com imagem de Gabriel Medina perto do instituto que leva o nome do surfista em Maresias - Mariana Pekin/UOL - Mariana Pekin/UOL
Banner com imagem de Gabriel Medina perto do instituto que leva o nome do surfista em Maresias
Imagem: Mariana Pekin/UOL

O prédio do instituto é um dos imóveis que ficou com Simone e Charles em um acordo "amigável", segundo palavras dela (Simone trocou mensagens com a reportagem, mas não aceitou conceder uma entrevista formal), fechado recentemente entre o casal e o surfista depois de uma querela que chegou à Justiça, provocada pela mãe.

Em Maresias, é mais fácil achar cachecol em loja de surfe do que quem fique ao lado de Simone no racha familiar amplamente conhecido.

De acordo com fontes próximas a Gabriel Medina, ela se queixou quando o filho cortou de R$ 295 mil para R$ 200 mil um repasse mensal que ele fazia ao casal. Amigos do surfista tratam o pagamento como uma "mesada", mas Simone via o dinheiro como a parte dela e do marido na "sociedade" com o filho na exploração da imagem do atleta Gabriel Medina.

É o rompimento dessa "sociedade" que foi parar na Justiça e que rachou a família. Em entrevista ao blogueiro Leo Dias, em maio, ela explicou assim sua visão: "Eu simplesmente sou sócia da SGM Esportes. Eu e meu marido investimos muito no início da carreira, o Gabriel ainda não era Medina."

Simone, porém, foi excluída da sociedade da SMG no último dia 13 de agosto, depois do acordo com o filho. Foi também por essa época que o Instituto Gabriel Medina começou a ser desmontado, como parte desse trato. O surfista pediu a amigos que retirassem tudo do prédio, que já há algum tempo era oferecido por corretores, e guardassem em um galpão fechado, se um dia o instituto voltar a existir.

Na prática, o instituto não funciona desde antes da pandemia. Ele fechou as portas junto com a quarentena, reabriu para ações assistencialistas lideradas por Gabriel, no ápice da crise, mas nunca mais funcionou. Em junho de 2020, como acontecia ao fim de cada projeto anual aprovado na Lei de Incentivo ao Esporte, todos os funcionários foram demitidos. Mas, desta vez, nunca voltaram a ser recontratados.

Simone, que era a presidente do Instituto Gabriel Medina desde a sua fundação, diz que deixou o cargo e não tem mais nada a ver com ele. No seu lugar, Gabriel Medina foi eleito. Na briga familiar, até o irmão dela, Jaime Medina, antigo administrador da ONG e com quem Gabriel estava brigado, ficou do lado do surfista.

A reportagem procurou a assessoria de imprensa de Gabriel Medina para falar sobre o assunto, mas não recebeu resposta. O espaço segue aberto para que ele se manifeste.

Partilha de bens

Além do prédio, o casal Simone e Charles também ficou com uma casa em um condomínio de luxo, pela qual pediam R$ 6 milhões, e outra em um condomínio mais simples, onde a família morou antes de Gabriel ser campeão mundial, já vendida. Essa casa era ocupada por Felipe Medina, irmão do surfista, e pela esposa Bruna, mas eles foram expulsos de lá por Simone, o que também foi um dos gatilhos para a briga familiar. A reportagem apurou, também, que o acordo envolveu o pagamento de R$ 5 milhões de Medina para a mãe.

Na divisão dos bens, Gabriel ficou com um condomínio de alto padrão que ergueu com Charles, de seis casas, chamado Champs, e com a casa que construiu em uma das pontas da praia, no meio da mata, depois de pôr abaixo a antiga casa que havia no local, que ele comprou por R$ 3 milhões. É ali que Gabriel mora com a esposa Yasmin Brunet e onde fica uma dúzia de cães adotados.

No esteira da briga com a mãe e o padrasto, que o criou desde criança, ele voltou a ter contato com o pai, Claudinho, que sempre morou em Maresias e agora ocupa, segundo relatos, uma casa que pertence ao filho.

Simone e Charles não são vistos em Maresias há semanas. Estavam na Califórnia acompanhando Sophia Medina, irmã de Gabriel, em competições em Oceanside Pier quando o surfista faturou o tri da WSL em Trestles, praia de San Clemente um pouco ao norte. Gabriel ficou magoado que a irmã, de 16 anos, não se dispôs a ir torcer por ele.

Agora, o casal, que ainda tem pontos comerciais em Maresias, como a loja de uma das marcas patrocinadoras de Medina, cuida da carreira de Sophia. No mesmo dia em que Simone saiu da SGM Sports, foi criada uma nova empresa, SoMedina Sports, sociedade entre Charles e a filha, para administrar a carreira dela.

A diferença é que, desta vez, Charles é dono de 90% do negócio. A jovem surfista, que vem disputando competições do circuito de acesso à WSL, fica com 10% da sua imagem.