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Ginásio do Ibirapuera vai virar shopping? Entenda a discussão

Projeto referencial do Ibirapuera - Reprodução
Projeto referencial do Ibirapuera Imagem: Reprodução
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

01/12/2020 11h05

O Governo do Estado de São Paulo apresentou um projeto que prevê que o Ginásio do Ibirapuera seja "reconvertido" em um "centro comercial e de entretenimento e de gastronomia" quando todo o complexo esportivo for concedido à iniciativa privada. No Relatório de Modelagem Econômico Financeira, o termo usado é "shopping". A proposta consta em diversos dos documentos referenciais da concessão, que o governo João Doria (PSDB) deve lançar ainda este mês, depois que, ontem (30), o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) rejeitou abrir um processo de tombamento do complexo projetado pelo arquiteto Ícaro de Castro Mello.

A ideia central da concessão é entregar todo o terreno de 91 mil metros quadrados para um concessionário que teria como obrigação construir uma arena multiuso para 20 mil pessoas na área, que o governo Doria entende ser uma carência da maior e mais rica capital do país. Mas, não necessariamente essa arena precisa ser erguida no mesmo exato local onde hoje está o velho ginásio Geraldo José de Almeida (o Ibirapuera), construído na década de 1950. A proposta do estado é que a arena seja erguida onde hoje está o estádio usado para futebol, rúgbi e atletismo, e o ginásio seja transformado em shopping, mas isso vai depender da vontade do futuro concessionário.

O terreno do Complexo do Ibirapuera pertence à prefeitura de São Paulo. Quando esse terreno foi cedido para o Estado, nos anos 1940, foi exigido que seu uso fosse exclusivamente esportivo. Assim, ali foram construídos dois ginásios (o mais famoso e outro menor usado principalmente para lutas), um estádio que atende futebol, rúgbi e atletismo, um complexo aquático com piscina olímpica, tanque de saltos e arquibancada, diversas quadras de tênis que até o ano passado recebiam o Brasil Open, duas quadras cobertas, o Palácio do Judô (um ginásio dedicado a essa arte marcial) e canchas de bocha.

Além disso tudo, o complexo ainda é a sede de diversas federações estaduais e tem um alojamento para os atletas do Projeto Futuro, programa do governo do Estado que revelou no Ibirapuera boa parte dos principais atletas de judô e atletismo do país nas últimas décadas. Se o Ibirapuera for privatizado, o estado promete levar parte desses atletas para o Baby Barioni, na Água Branca, cuja reforma já dura quase sete anos.

Pelo estudo referencial do governo para o Ibirapuera, a exigência de uso esportivo do terreno seria garantida com a construção de quatro quadras poliesportivas e uma pista de skate street, que somariam menos de 2 mil metros quadrados - de 91 mil m² do terreno, e pelo uso esportivo da arena.

O restante da área poderia ser utilizada para o concessionário obter receita. O estudo referencial sugere três edifícios onde hoje ficam o alojamento e o centro aquático: um funcionando como apart hotel, outro como hotel e o terceiro de escritórios. Essa estrutura também teria um "open mall", um shopping a céu aberto.

Já a ideia de transformar o antigo ginásio em shopping center parte do princípio de que seria mais barato adaptar o uso da estrutura já existente do que demolir o ginásio e construir outra coisa no lugar. No Relatório de Modelagem Econômico Financeira é citado que no cenário base o shopping teria 31.000 m² de área computável, o que o classificaria como "do tipo tradicional e de porte regional", de acordo com a associação do setor. Um shopping tradicional, com lojas âncora, outras menores, e quiosques nos corredores. Na modelagem econômico-financeira, prevê-se um custo de R$ 93 milhões para as adaptações necessárias.

Mas não obrigatoriamente isso vai acontecer. Quando lançou o Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI), uma espécie de consulta ao mercado, o governo recebeu sete propostas. Dessas, seis preveem um centro comercial, mas só três planejam hotel. Outras três consideram manter o complexo esportivo, simplesmente substituindo o antigo ginásio por um novo. Há ainda quem tenha apresentado projeto de museu e até de uso residencial. O projeto final vai depender do vencedor da concessão.

Para defender a construção de uma arena multiuso, o governo Doria alega que a cidade é carente de estruturas cobertas que comportem público de 8 mil a 20 mil pessoas. A prefeitura de São Paulo já tinha identificado essa carência e, em 2015, lançou PMI para construção de uma arena no Anhembi. A documentação para o lançamento do edital estava pronta quando Doria assumiu a prefeitura em 2017, com a Time For Fun, que propôs o projeto, mostrando grande interesse. O tucano, porém, engavetou aquela ideia.

Já a privatização do Complexo Esportivo do Ibirapuera foi lançada pelo então governador Geraldo Alckmin (PSDB) em 2017. Na ocasião, porém, o objetivo era modernizar o ginásio, realizando uma reforma. O projeto foi suspenso por Márcio França (PSB) e retomado por Doria, que o adaptou para a construção da arena multiuso.

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