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O problema do Bolsa Atleta não são os R$ 15 mil para Gabriel Medina

Yasmin Brunet e Gabriel Medina nas Maldivas - Reprodução/Instagram
Yasmin Brunet e Gabriel Medina nas Maldivas Imagem: Reprodução/Instagram
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

16/10/2020 14h04

Ler a lista de contemplados pelo Bolsa Pódio, versão para atletas de altíssimo rendimento do programa do governo federal Bolsa Atleta, gera sempre um desconforto. Entre os beneficiados estão sempre esportistas que ganham bom dinheiro privado com patrocinadores e premiações. Fica a sensação de que eles não deveriam estar recebendo dinheiro público. Ao menos, não precisariam.

O incômodo da vez foi com Gabriel Medina, que já é contemplado pelo programa desde o ano passado (e só não era antes porque o governo demorou para admitir skate, surfe e caratê como modalidades olímpicas). Noticiada, a presença de Medina na nova lista, publicada anteontem (14), para receber o teto de R$ 15 mil, enquanto ele curte férias nas Maldivas, gerou burburinho.

Concordo que haja um problema. Discordo que o problema seja individualmente Medina, que no ano passado ganhou cerca de US$ 400 mil em premiações no circuito da WSL. Ítalo Ferreira, que também está na lista, ganhou US$ 500 mil. Ambos ficam atrás de Marcelo Melo, do tênis, que faturou US$ 767 mil em prêmios em 2019. E a lista ainda tem os bem pagos Letícia Bufoni, Pedro Barros (ambos do skate) e Henrique Avancini (do mountain bike).

Todos têm direito, pelas regras do Bolsa Pódio, ao benefício. Se há uma crítica a se fazer é o senso de coletividade para os atletas que, sem precisar, solicitam a bolsa mesmo assim, onerando os cofres públicos. Mas onde se coloca a linha de corte para dizermos quem precisa e quem não precisa? Ana Marcela Cunha, que tem diversos patrocinadores, precisa? E Etiene Medeiros, que tem alguns? E quem tem um único patrocínio? E quem cede a imagem em troca de não precisar pagar por suplementos alimentares?

Quinta jogadora mais bem paga do futebol feminino, com quase R$ 2 milhões (na cotação atual) por ano, Marta precisa dos menos de R$ 3 mil que recebe por mês do Bolsa Atleta? E Cristiane, que já foi muito bem paga na China e está no Santos? E a goleira Bárbara, tão olímpica quanto elas, hoje no Avaí? Existem muitos outros exemplos de atletas com qualificações idênticas em que um, para o senso comum, mereceria o benefício e outro, não.

Nem todo atleta que tem direito recebe a bolsa. Robert Scheidt é um que nunca pediu. Duda, uma das melhores do mundo do handebol, e Lucão e Lucarelli, do vôlei, não apareceram na lista da Bolsa Atleta de 2019, um ano depois de o governo Michel Temer não conceder o benefício a todo mundo que teria direito, por falta de dinheiro. Muitos outros não se abalaram.

O problema não é de fácil solução. Desde 2012 não há veto para que atletas patrocinados recebam a Bolsa Atleta ou a Bolsa Pódio. Se o governo quiser retomar a regra como era há oito anos, ele será cobrado para enfim reajustar o valor do benefício, congelado desde 2011. O valor teria que dobrar, dobrando também o custo de um programa que não terá edital em 2020 porque não tem dinheiro.

Some a essa salada o fato de que, para o governo, é interessante politicamente apoiar Medina. Ou, usando a palavra correta, patrocinar. Afinal, a ação não é somente social, mas também publicitária. Com R$ 15 mil por mês, o governo federal fica atrelado aos resultados de um atleta extremamente midiático e vitorioso. Se Medina (ou Ítalo, ou Bufoni, ou Marcelo Melo, etc) ganhar uma medalha olímpica, o governo poderá propagandear que tem sua parcela no resultado. E isso acontece desde o governo Dilma, não é uma ideia de Bolsonaro.

A questão é de política pública. O que almeja o governo quando destina R$ 180 mil do seu orçamento anual para um único atleta de alto rendimento como Medina? E, se Medina abrir mão desse dinheiro, para onde vai essa grana? Quem será beneficiado? Será mantido na Secretaria de Esporte ou será usado em qualquer outra área do governo? Quando essas respostas estiverem mais claras, o programa será mais bem utilizado.

Errata: o texto foi atualizado
Diferente do que foi informado, Gabriel Medina passa as férias nas Maldivas, e não nas Malvinas. O erro foi corrigido.