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Julio Gomes

Fifa premia Lewandowski, mas deixar Flick e Flamengo 'esquecidos' é absurdo

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

17/12/2020 16h38

A principal premiação do Fifa The Best não fugiu muito do óbvio. O absurdo domínio do Bayern de Munique na temporada 2019/2020 foi lembrado com o troféu para Robert Lewandowski, melhor jogador do ano.

Mas como podem ter ficado sem prêmios Hansi Flick, o técnico que ganhou tudo na temporada, e o Flamengo, que construiu um domínio na América do Sul que não víamos havia décadas?

É justo o prêmio para Lewandowski. O rosto goleador de uma máquina de jogar futebol. Um atacante completo, que faz gols de todos os jeitos possíveis e ainda joga coletivamente, tanto na pressão quanto na abertura de espaços para os companheiros.

Menos mal que ele não ficou atrás de Messi e Cristiano Ronaldo, que apareceram injustamente entre os três melhores da temporada. Simplesmente não foram. No mínimo, no mínimo, deveriam ficar atrás de Neymar e De Bruyne. Mas a votação é praticamente popular, pois engloba jogadores, técnicos e jornalistas de muitos países que estão completamente à margem da elite do futebol. Neymar, como já disse aqui no blog, teve comprovada sua impopularidade entre a boleirada. Aliás, ele não ficou nem mesmo no 11 titular eleito pelos próprios milhares de jogadores mundo afora.

Se Lewandowski era uma escolha, no meu ponto de vista, óbvia, não tão óbvias foram as eleições de Jurgen Klopp para melhor técnico e Manuel Neuer para melhor goleiro.

Klopp venceu Flick. Neuer venceu Alisson. Liverpool e Bayern foram logicamente os dois grandes times da temporada - o Liverpool, da primeira metade (2019), o Bayern, da segunda (2020), a reta final. Eu teria invertido as duas escolhas. Acho que Alisson foi mais sólido e mais exigido do que Neuer ao longo da temporada - tanto que, na votação entre milhares de jogadores, foi o goleiro brasileiro que apareceu no "time ideal".

E acho que o que Flick conseguiu é algo mais difícil do que Klopp. O alemão do Liverpool já havia sido eleito o melhor treinador em 2019, deu continuidade a seu grande trabalho, tirou o Liverpool de uma fila de 30 anos sem vencer a Premier League. É gigante. Mas Flick pegou um Bayern de Munique em crise, em quinto lugar na Bundesliga, com técnico demitido no meio do caminho. Era um novato, que simplesmente fez o Bayern destroçar recordes e ganhar tudo, incluindo a campanha mais dominadora da Champions League.

Se o Bayern ganhar o Mundial da Fifa, agora no começo de 2021, terá repetido o sextete do Barcelona de Guardiola. Me parece inconcebível que um técnico destes não seja eleito o melhor da temporada.

O terceiro colocado foi Marcelo Bielsa, técnico campeão da segunda divisão inglesa com o Leeds. Eu seria totalmente favorável a um troféu honorário a Bielsa pela influência que exerceu e exerce. Mas, pensando no trabalho da temporada, me parece surreal que apareça ali o campeão de uma Série B e não, por exemplo, Jorge Jesus, campeão brasileiro e da Copa Libertadores.

O Flamengo foi dominante na América do Sul em 2019, assim como o Bayern na Europa. E tal domínio acaba ficando restrito à história do clube e a alegria de seus milhões de torcedores.

Jesus não apareceu nem entre os 5 melhores técnicos. E De Arrascaeta ficou sem o prêmio Puskas após a bicicleta estratosférica no Castelão, contra o Ceará. O prêmio foi para Son, do Tottenham.

O prêmio de consolação para a América do Sul ficou para Marivaldo Fracisco da Silva, o torcedor do Sport entrou na lista pela sua história de há três anos caminhar 60 km pelo acostamento de uma rodovia para ver os jogos de seu time na Ilha do Retiro. É quase caricato. O futebol sul-americano fica restrito a torcedores fanáticos, que superam dificuldades inexistentes na Europa.

É justo olhar para a Europa como centro do futebol. Mas que a Fifa praticamente feche os olhos para o resto do mundo competitivo é apenas lamentável.